Futebol não pode ser jogado de qualquer maneira, como ocorreu na Colômbia, em meio a protestos e bombas de gás lacrimogênio

Futebol não pode ser jogado de qualquer maneira, como ocorreu na Colômbia, em meio a protestos e bombas de gás lacrimogênio

Atletas de Atlético-MG e América de Cali lamentam ter de jogar sob efeito de gás lacrimogênio atirado pela polícia contra os manifestantes em partida da Libertadores: veja o vídeo

Robson Morelli

14 de maio de 2021 | 10h47

O futebol não pode entrar em campo de qualquer maneira, como aconteceu na partida pela Libertadores entre América de Cali e Atlético-MG, em Barranquila, na Colômbia, pela fase de grupos do torneio. Do lado de dentro do estádio, dois times tentando exercer sua profissão, incomodados e pedindo para que o jogo parasse. Do lado de fora, uma guerra campal, protestos populares contra o governo local, quebra-quebra, cassetetes e bombas de gás lacrimogênio sendo atiradas contra a multidão, com sua fumaça e efeitos invadindo o gramado e também ‘ferindo’ os atletas. Foi preciso parar o jogo quatro vezes somente nos primeiros 45 minutos.

Foto: Reuters

Junta-se a isso uma arbitragem refém da Confederação Sul-Americana de Futebol, que mandou o “show continuar”, e se tem um novo vexame na história do futebol sul-americano. O primeiro tempo acabou com os jogadores de Cali tocando a bola um para o outro, sem qualquer combate do rival brasileiro, somente para que o juiz pudesse deixar seu cronômetro seguir e assim acabar a disputa. Pior. Quando se imaginava que não teria o segundo tempo em função dos protestos nas imediações do estádio e das condições dos jogadores, ao som de bombas estourando ainda, os times foram obrigados a voltar para o campo. As cenas vão correr o mundo. Não se joga futebol dessa forma. O ‘vale tudo’ para cumprir o calendário não se justifica.

Representantes de Atlético-MG e América de Cali tentaram pedir a paralisação do jogo, mas não tiveram forças para impor essa vontade diante da arbitragem, autoridade máxima de uma partida de futebol. O segundo tempo foi jogado nas mesmas condições, com a vitória do clube brasileiro. Mas não houve comemoração, dadas as informações do lado de fora, pessoas feridas e presas e a condição dos atletas também, atingidos involuntariamente pelos efeitos dos gases.

Colômbia passa por um período de forte turbulência social há semanas, quando massivos protestos populares foram convocados após a apresentação de um projeto de reforma tributária pelo governo de Iván Duque ao Congresso. A proposta foi apresentada no dia 15 de abril como medida para financiar os gastos públicos na quarta maior economia da América Latina e visava aumentar a base de arrecadação do imposto de renda e aumentar impostos sobre serviços básicos e IVA. Ela foi considerada muito onerosa para a classe média e imediatamente rechaçada por sindicatos, movimentos sociais e diversos setores da sociedade, escreveu o Estadão no dia 4 de maio. A cidade de Cali é o epicentro dos protestos, justamente de onde vinha o rival do Atlético-MG. Entenda a crise.

Mais um vez o futebol vive dentro de seu mundinho como se nada tivesse acontecendo do lado de fora dos muros que o cercam. E o jogo tem de continuar, mesmo contra protestos dos que fazer o espetáculo. “O vento trazia o gás para dentro do campo, atingindo fortemente nossos jogadores. Tem de dar os parabéns para a arbitragem de ter mantido a partida e ido até o final com ela”, disse Cuca. Na verdade, a arbitragem não teve coragem de parar o jogo, como o bom senso pedia naquele cenário. Foi um erro continuar jogando. Foi uma falta de respeito do futebol aos cidadãos colombianos que lutam por seus direitos e pelo que acham certo. “Pior coisa da minha vida. Nunca tinha passado por isso. Não dava para ficar dentro de campo. Doía a garganta, o nariz… não dava para respirar”, disse Guga, lateral do time mineiro, após a partida.

A Conmebol sabia o que estava acontecendo na Colômbia. Os protestos já duram 15 dias, com mortes e renúncias de políticos do país. Ela tirou a partida de Cali e escalou o jogo em Barranquilla, numa tentativa de driblar os conflitos, sem pensar um só minuto que estava expondo os jogadores dos dois times em uma Colômbia convulsionada. Mesmo assim, a Confederação manteve o jogo. Mesmo assim, ela obrigou o juiz a continuar a partida. Tem ainda de administrar os próximos confrontos da Libertadores e da Sul-Americana na Colômbia e uma Copa América que o país divide com a Argentina em junho e julho.

A Conmebol não se manifestou após o ocorrido em Barranquilla. Mas seus dirigentes entenderam que o futebol não é bem-vindo na Colômbia enquanto o país estiver às turras com seus comandantes, políticos e presidente. Não está descartado a possibilidade de a Confederação levar os jogos dos times colombianos para outros países, como Paraguai e Uruguai. Nem o Brasil está descartado de receber as partidas. Quanto à Copa América, a Conmebol também deverá tomar decisões importantes para confirmar ou não a disputa na Colômbia. A Argentina poderá ser a única sede. O Brasil estaria descartado em função da covid-19.

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