Futebol paralisado em São Paulo, mas Paulistão vai manter as rodadas do fim de semana

Reunião às 15h com os clubes paulistas vai decidir se as partidas poderão ser jogadas em outros Estados

Robson Morelli

11 de março de 2021 | 12h49

Medidas indigestas e impopulares precisavam ser tomadas nesta semana pelos governadores do Brasil para combater o avanço da covid-19. São Paulo foi trancada. Ou será a partir de sábado. Já não era sem tempo. A morte nesta quarta-feira de 2.349 brasileiros e mais de 80 mil contaminados ‘ajudou’ a decidir o que já vinha sendo estudado e pensando. O futebol também será paralisado, ao menos em São Paulo nesse momento. As rodadas do fim de semana serão mantidas. Qualquer atividade esportiva está suspensa. A decisão atinge o Campeonato Paulista em seu coração. Do dia 15 ao dia 30. Serão duas ou três rodadas. Não importa. É hora de parar.

Foto: Palmeiras

O blog clamou por isso há duas semanas, quando a média móvel de mortes pela covid-19 disparava diariamente, e quando também o Corinthians apresentou seu segundo surto do novo coronavírus, contaminando 11 jogadores e membros da comissão técnica. Em São Paulo, o futebol já tinha de ter parado semana passada. Mas antes tarde do que nunca.

Isso significa que não haverá partidas oficiais no Estado após o fim de semana. Nem do Paulistão nem de qualquer outro campeonato. As disputas não geridas pela Federação Paulista de Futebol (FPF) devem ser levadas, se forem, para outros Estados, como Copa do Brasil e Libertadores. Ainda não está claro. São Paulo para com tudo porque é o maior Estado do Brasil e centro da pandemia. O governador é quem anuncia mais mortes por dia entre seus 27 pares da País e mais o Distrito Federal. Daí a necessidade de tomar medidas, como o próprio Doria anunciou, impopulares. Impopulares para políticos, mas que podem salvar vidas, manter mais pessoas em casa. A determinação vai até o dia 30 de março. Depois disso, como vem sendo feito, vai ser reavaliada.

Ocorre que os torneios de futebol podem não parar efetivamente. Sim, porque o Paulistão pode ser levado para outras praças, a fim de não perder suas datas no calendário anual. Não há regras no regulamento que impeça isso de acontecer. Mas se isso ocorrer, será um erro. Um grande erro. Em Brasília, porém, é exatamente isso o que está acontecendo. O torneio do DF está sendo disputado em Minas. E no Ceará, o regional deixou a capital e foi para o Interior, menos abarrotado neste momento com a doença. A FPF vai se reunir nesta quinta, às 15h, com os clubes. Eles é que vão decidir se jogarão em outras praças.

Ocorre que trancar a cidade ou parar com as atividades esportivas, também profissional, visa tirar as pessoas das ruas e expor a todos em menor grau, ao menos pelo período determinado. Se a FPF mantiver os jogos em outros lugares fora de São Paulo, estará burlando a decisão, dando de ombros para a exposição de jogadores e profissionais do futebol e não ajudando no combate à covid-19. Os hospitais já não conseguem mais receber os doentes em São Paulo. É disso que estamos falando.

O futebol tem uma chance de agir e ajudar, mesmo a despeito de a CBF ter defendido nesta quarta a segurança dos seus protocolos e a manutenção do futebol no País. Disse que os clubes estão com ela. Não entendeu que não é disso que se trata. Ótimo que os protocolos e os 80 mil testes em mais de 13 atletas foram feitos e os resultados positivos estiveram abaixo dos 3%. Ótimo. Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos têm voz mais alta nessa discussão, mas se espera que saia do encontro uma posição única, com todos assinando a decisão, seja ela qual for. Não há hora para acabar.

O futebol precisa participar e dar exemplo. Parar é a solução nesse momento. Já com atraso. Lisca, treinador do América-MG, pediu isso, certamente refletindo também o sentimento do seu vestiário. Os clubes, segundo a CBF, jogam pela permanência das partidas e dos torneios. Estão pensando unicamente na questão financeira. Não vejo outro motivo. Entendo, mas não concordo. Estamos falando de vidas, de dar exemplos, de fazer parte de algo maior. O futebol não está numa bolha, e se as entidades que o regem ainda pensam assim, é preciso que outras esferas da sociedade tomem a decisão por elas. João Doria levou a frente esse sentimento e parou tudo. Espero que o torcedor entenda. E que os clubes também. É preciso renegociar seus contratos. Postergar dividas. É possível.

A FPF vai se manifestar depois do acordo. Seus diretores não haviam pensado em seguir com os jogos fora do Estado de São Paulo. Mas pode acontecer. Há um período para parar, até que os índices negativos baixem. Pode demorar um mês ou mais. É preciso ter calma e paciência. Tudo o que estamos vivendo também é reflexo de uma população que tratou a doença como briga de políticos, que ouviu um lado e não o outro. Que abusou da falta de isolamento e do não uso de máscara. As decisões vão começar a partir deste sábado em São Paulo. Por muitos irresponsáveis, todos vamos pagar.

 

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