Ganso, a Lei Pelé e os empresários

Robson Morelli

06 Abril 2011 | 10h04

O primeiro trabalho de Muricy na Vila vai ser tirar das costas de Ganso toda a pressão sobre sua saída do Santos. Não digo que ele convença o jogador a permanecer no clube por mais algum tempo. O que ele quer é ter Ganso com tranqulidade em campo. Muricy é do tipo que não se mete na vida ou na decisão profissional dos atletas. E se tiver de tomar partido, vai estar sempre do lado do jogador.

O problema de Ganso está na Lei Pelé. É preciso rever toda a lei, conforme acena o ministro do Esporte, Orlando Silva Júnior. Antigamente, eram os clubes os detentores dos contratos dos atletas, chamado passe. O jogador tinha 15% do valor das negociações. Ocorre que ele só via esse dinheiro uma ou duas vezes na carreira. Era mais difícil ou menos comum a troca de bandeira.

Os clubes negociavam com os clubes. Não havia a figura do empresário. Ou se havia, ela estava mais para assessor pessoal do que o homem que hoje determina para onde o jogador vai, em qual clube jogará. Então os times, quando faziam negócios, circulavam o dinheiro entre seus presidentes. Os valores nunca eram revelados e parte do montante ficava no próprio clube. Bem ou mal, era reinvestida na agremiação.

Nada era transparente porque assim ficava mais fácil de maquear as contas, desviar algum e premiar outros. 

Aí veio a Lei Pelé e mudou tudo isso. Era preciso. O jogador se queixava de ser um escravo no clube. E era mesmo. Ele não tinha o direito de escolha nem de decisão sobre seu futuro como qualquer outro trabalhador honesto. Era uma mobília do associação.

Ocorre que a Lei tirou do clube todas as decisões sobre a carreira do jogador e a repassou, indiretamente, para o empresário, um sujeito ganancioso, que só pensa em dinheiro e nos contratos milionários. Ele vive disso. Fecha acordo com um monte de jogador e tenta fazê-lo vingar. Quando isso acontece, tenta levá-lo para a Europa. E não porque acha que jogar na Inter de Milão ou no Real Madrid vai ser melhor para a carreira do cliente, mas porque isso representa muito dinheiro no bolso para que ele alimente o ciclo do seu trabalho: captar meninos e transformá-los em atletas.

Criou-se então a prerrogativa de o jogador poder decidir sua vida. O único problema é que ele não para mais em lugar algum, não cumpre contrato, não respeita bandeira, não se identifica com o time. Hoje, no futebol brasileiro, temos dois jogadores da antiga: Marcos, do Palmeiras, e Rogério Ceni, do São Paulo. Havia Kaká do Milan, mas ele também decidiu ir para a Espanha. Mudar de ares.

E aí ficou esse samba do crioulo doido, onde ninguém respeita ninguém e não se tem o mínimo de apego ao clube que o criou ou que lhe deu as primeiras oportunidades. Os contratos são quebrados com a facilidade que se rasga uma folha de papel. 

Só para ficar ainda no caso de Ganso, o jogador ficou oito meses machucado e recebendo seu salário religiosamente no Santos. Não seria o caso então de ele permanecer na Vila pelo menos por mais oito meses para ‘pagar’ tudo o que o Santos fez por ele durante o período da lesãoo? Ganso também não estaria sendo ingrato? Ocorre que quando o jogador é colocado contra a parede, ele sempre culpa os interesses de seus empresários. Fosse ele o menino maduro que o brasileiro pensou ser quando o viu em campo, convocaria a imprensa para anunciar sua decisão.