Liga pega CBF enfraquecida e a coloca contra a parede a fim de quebrar perpetuação de patota no comando

Liga pega CBF enfraquecida e a coloca contra a parede a fim de quebrar perpetuação de patota no comando

Com comando interno após afastamento do seu presidente, Rogério Caboclo, acusado de assédio moral e sexual, CBF deverá atender a todas as reivindicações

Robson Morelli

16 de junho de 2021 | 10h09

Não foi por acaso que os principais clubes do futebol brasileiro procuram a CBF para “impor” a criação de uma Liga nacional que pudesse organizar financeiramente os clubes. O desejo é antigo, mas bate às portas da entidade num momento em que e ela está fragilizada com o afastamento do seu presidente, Rogério Caboclo, acusado de assédio sexual e moral. O avanço da tropa pega uma CBF “sem comando” e com os clubes juntos. Ou seja, todos estão remando para o mesmo lado nesse quesito.

Foto: CBF

Na carta abaixo, estão as reivindicações dos clubes. Não há como a CBF recusar. Não há negociação nas quatro exigências. Num primeiro momento, os clubes chamam a CBF para participar, sem ruptura, na base de uma aliada que organiza o futebol brasileiro. Mas essa não é uma condição irrevogável. Se a CBF não acenar com que os times querem, eles podem partir para a criação da Liga, que poderia se chamar Liga Brasil, sem a entidade. Organizar os torneios financeiramente é o principal pedido. Mas não o único. O mais significativo é ter o mesmo peso de voto em relação às 27 federações estaduais. Isso tornaria os clubes mais fortes e decisivos nos pleitos para a presidência da CBF. Assim como o pedido de poder formar chapas para concorrer às eleições (leiam abaixo).

Esses dois pontos muda tudo. Tira a força da CBF nas campanhas eleitorais com a única intenção de perpetuar o poder da sua patota. Tem sido assim desde Ricardo Teixeira, em 1989. A confraria que comanda a entidade é sempre a mesma. Todos eles foram afastados, diga-se, por corrupção. Caboclo por assédio, pior até na minha opinião. O cenário deixa os clubes fortes e poderosos. A iniciativa não deve ter volta, uma vez que todos os presidentes de clubes assinaram o documento. O Sport não assinou porque estaria sem diretor nesse momento.

Aquela reunião de Caboclo com os presidentes de clubes da Série A, vazada pela ESPN, mostrou a fragilidade dos times diante do comando da CBF, e a forma com que todos eles são tratados. Isso expôs a imagem dos cartolas, que comandam associações centenárias do futebol. Sem falar na total falta de respeito e deselegância de Caboclo, seu jeito de falar com homens sérios e sua postura de “capo”. Ninguém engoliu aquilo depois do vazamento.

A partir daí, os clubes se uniram para atacar. Não se sabe se haverá contra-ataque por parte de Caboclo, afastado por 30 dias do cargo, mas com a perspectiva de não voltar mais. Ele se disse inocente e prometeu voltar.

De certa forma, os clubes reinventam o Clube dos 13, que tomava as decisões financeiras e de transmissão de TV anos atrás. Era para ser uma entidade independente da CBF para assuntos outros do futebol. Fábio Koff foi seu eterno presidente. Mas numa manobra individualista do então presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, o Clube dos 13 foi implodido e tudo passou a funcionar dentro da CBF. O Corinthians, e alguns outros grandes, queriam mais dinheiro por entender que as TVs mostraram mais seus jogos. Pensaram unicamente em suas bandeiras e não em fortalecer o futebol nacional. Deu errado. A Liga terá de ser aprovada, constituída, com representantes legais e regras claras. O bom de tudo isso é que ela ‘nasce’ com os times juntos, de modo a fortalecer o futebol e não uma equipe em detrimento de outra.

A carta dos clubes

Prezados Senhores,

Por unanimidade dos presentes, 19 (dezenove) Clubes da Série “A” do Futebol Brasileiro – em razão de diversos acontecimentos que vêm se acumulando ao longo dos anos e que revelam um distanciamento total e absoluto entre os anseios dos Clubes que dão suporte ao futebol profissional brasileiro e a forma como que é gerida a CBF -, reunidos nesta data, decidiram adotar as postulações e resoluções na forma abaixo elencada:

  1. – Requerer a imediata alteração estatutária que consagre uma maior participação dos Clubes nas decisões institucionais e na gestão da CBF, admitindo-se os Clubes como filiados dessa entidade;
  2. – Dentre os itens desta alteração estatutária, necessariamente deve ser incluída a votação igualitária nas eleições para escolha do Presidente e Vice-Presidentes da CBF, sendo certo que Federações e Clubes das Séries “A” e “B” terão seus votos contados de forma unitária e com o mesmo peso entre si;
  3. – Ainda no que se refere à alteração estatutária, inclui-se o fim dos requisitos mínimos para inscrição das chapas concorrentes à eleição desta entidade, abolindo-se a necessidade de apoio de oito (8) federações e cinco (5) Clubes, permitindo-se o lançamento de chapas que tenham o apoio expresso de, ao menos, 13 eleitores, independentemente de serem clubes ou federações; 
  4. – Comunicar a decisão da criação imediata de uma “Liga” de futebol no Brasil, que será fundada com a maior brevidade possível e que passará a organizar e desenvolver economicamente o Campeonato Brasileiro de Futebol. Além dos Clubes signatários, os Clubes da Série “B” serão convidados a integrar a “Liga”.

Os Clubes adotarão as medidas efetivas para consumar a sua associação, para, de fora organizada, exercerem administração do futebol brasileiro e do seu calendário.

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