Juvenal, um ‘estadista’ do São Paulo

Juvenal, um ‘estadista’ do São Paulo

São Paulo perde seu ex-presidente, aos 81 anos, vítima de câncer de próstata

Robson Morelli

10 de dezembro de 2015 | 09h46

Juvenal Juvêncio foi um cartola diferente, como gostava de dizer do São Paulo e cujo adjetivo tomo emprestado para me referir a ele próprio em sua morte, aos 81 anos, vítima de um câncer de próstata que o afastou do Morumbi nos últimos tempos, mas não só isso. Amargava sua decepção com o ‘pupilo’ Carlos Miguel Aidar, conduzido por ele à presidente. Juvenal gostaria de ser lembrado como um ‘estadista’ do São Paulo, mentor das últimas grandes conquistas do time, idealizador de Cotia, onde o Tricolor montou sua fornalha de craques, e por sua coragem de enfrentar os maiores do que ele, como a CBF, de Ricardo Teixeira. Tinha um carinho especial pela base e nunca entendeu direito porque Muricy Ramalho nunca conseguiu unificar o elenco profissional com a molecada, como viu agora no Barcelona e ensaia fazer no Flamengo.

JUvenalEstadao570

Juvenal é tudo isso e um pouco mais. Sua importância para a fase recente do São Paulo é imensa, sobretudo porque comandou o clube, e o futebol, de perto, de 2006 a 2014, mesmo que para isso tenha escorregado em alguns momentos, mudado o estatuto para emplacar um terceiro mandato, que o glorificou e ao mesmo tempo o condenou – muitos diziam no mesmo tom que ele se perdeu nesse último mandato, que passou a colocar os pés pelas mãos – e feito a escolha errada em sua sucessão. Deveria ter largado o osso antes, por cima e ainda bem de saúde. Mas Juvenal não sabia desistir.

O cartola sempre foi um provocador, com classe e clareza, desdenhando tudo que não fosse tricolor e o que não estivesse ao seu alcance. salvo raras exceções. Escolheu o Corinthians para pegar no pé, mas poderia ter sido qualquer outro rival. Foi em sua gestão que Andrés Sanchez disse que o Corinthians não mandaria mais jogos no Morumbi, promessa cumprida até a inauguração do Itaquerão. Era o troco às provocações e ao ar superior estampado nas ações e na própria fisionomia de Juvenal, que não perdia discussão nem se refutava em dialogar com seus opositores. Juvenal pode ser acusado de tudo, menos de um cartola acuado e com medo. Era democrata até a página em que tinha de decidir encaminhamentos num clube cujo sistema de gestão era presidencialista. Gostava de mandar.

Sempre que precisava “apagar incêndio” no CT da Barra Funda, junto ao elenco e à comissão técnica, lá estava Juvenal com seus cabelos desarrumados, brancos pela experiência de anos no futebol e na vida. Sua presença mudava o ambiente, deixando-o mais solene e importante. Aumentava a expectativa de todos. Sempre se valeu da picardia para contar suas histórias ou alfinetar desafetos, que eram muitos, até mesmo dentro do Morumbi. Leco, o atual presidente do São Paulo, nunca o perdoou por ele ter escolhido Aidar para seu lugar. Ajudou a elegê-lo, deslocando o então braço-direito para o Conselho Deliberativo. Não sabia que a rasteira seria grande e rápida. Não demorou para perder a sintonia com Aidar, eleito presidente, e ser expulso de suas funções do clube, o que jamais imaginava que pudesse acontecer. A amigos, dizia que a traição era o pior ato de um ser humano. Sentia-se traído, mas não entregue, e trabalhou para “desmascarar” Aidar. Ambos travaram ‘brigas acirradas’ pela imprensa, trocaram farpas e acusações, sem nunca se inquietarem até esta quarta-feira.

 

Tudo o que sabemos sobre:

São Paulo FC; juvenal; futebol; morte

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.