O ‘basta ao racismo’ na sociedade e no futebol, como o caso de Ramirez e Gerson, quem tem de dar somos todos nós

Mano Menezes, por sua experiência e comando, deveria ser o primeiro a dar o exemplo, e não passar a mão na cabeça do seu jogador, do Bahia

Robson Morelli

21 de dezembro de 2020 | 11h14

Somos todos responsáveis e temos a obrigação de mudar. O ‘basta ao racismo’ depende de todos nós, na sociedade e também no futebol, como ocorreu neste domingo, dia 20, no jogo entre Flamengo e Bahia. O colombiano Juan Pablo Ramirez disse a seguinte frase ao flamenguista Gerson no calor de uma jogada: “Cala a boca, Negro!” Opa! Não podia fazer isso. E Gerson denunciou, como a indignação tomou conta de todos os jogadores do Flamengo. Ocorre que isso não é uma manifestação de um elenco contra o outro, de um Flamengo contra um Bahia. Não é e não pode ser. É a condenação de todos pelo ato de racismo de Ramirez.

Daí minha crítica ao técnico Mano Menezes, do Bahia, que tentou proteger o seu jogador, desqualificando, inclusive, a acusação de Gerson, dizendo, segundo se apurou, que o treinador insinuou que Gerson estava posando de vítima. Vítima de quê? De racismo, claro. Para Mano, não. Depois, em sua entrevista, disse ter entendido que Gerson queria jogar o juiz contra alguns dos seus comandados, de modo a tirar proveito e provocar uma expulsão, igualando assim o número de jogadores em campo, uma vez que Gabigol havia tomado o vermelho.

Então, na cabeça de Mano Menezes, Gerson usou sua cor para tirar proveito do jogo.

Ora, o ‘basta ao racismo’ depende das pessoas que envolvem os acontecimentos. Mano deveria ter dado um basta. Os jogadores do Bahia deveriam ter dado um basta. O juiz deveria ter dado um basta. Todos deveriam ter dado um basta. A denúncia de Gerson é a denúncia de todos nós, e deveria ser assim todos os dias, até que chegue o momento em que essa doença seja erradicada. Chega de panos quentes. Não é mais disputa de bola. É crime. E ninguém deve passar a mão na cabeça de criminosos. Quando a injúria racial acontece, deixa de ser futebol. Ponto.

Só assim vamos vencer essa outras lutas em que a cor da pele ou o gênero são determinantes. Não são. Não são para nada. Todos podem tudo. A consequência do que aconteceu na partida entre Flamengo e Bahia é uma pequena mostra de que o mundo está mudando. Quando jogadores de PSG, de Neymar, e Istanbul deixam o campo pelo mesmo motivo, é outra pequena mostra. Porque as pessoas próximas, envolvidas ou não com o ato racista em si, tomaram uma posição, disseram “não” e agiram. Assim tem de ser.

Mano perdeu o cargo no Bahia. Ramirez foi afastado e deve deixar o clube. Gerson foi aplaudido. O Flamengo vai acionar o STJD contra o jogador colombiano e o treinador do Bahia… As coisas não podem mais acabar em pizza no Brasil.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.