O Brasil, de modo geral, gosta de Tite, mas ele terá em breve o maior teste de sua carreira

A torcida verde-e-amarela não costuma poupar treinadores que fracassam em Copas do Mundo

Robson Morelli

17 Maio 2018 | 11h34

Tite é um bom sujeito. Ele se aproxima do maior teste de sua vida, talvez até do maior teste que um brasileiro possa ter diante de milhões de compatriotas. Tite será ovacionado ou condenado. A história dos técnicos da seleção nos ensina que só há dois caminhos, tipo o Céu e o Inferno. Até hoje nunca houve meio termo. Daqui a dois meses, saberemos onde o comandante do Brasil estará. Os jogadores, por mais responsabilidades que tenham numa Copa do Mundo, retomam suas vidas e carreiras depois de algum tempo quando deixam a competição. Com o treinador é diferente.

 

É claro que Tite não será crucificado se não ganhar o sexto título do Brasil na Rússia. Mas ele certamente passará por caminhos que ainda não conhece no comando da seleção. No Brasil, avalia-se pela conquista e não pelo desempenho e trabalho realizados. Presta quem dá volta olímpica. Proponho o contrário, e de antemão.

Tomando como exemplo a Alemanha, nosso último algoz em Mundiais, Joachin Löw está no comando do time há anos, passou por derrotas e vitórias, alegrias e tristezas. Seu trabalho é avaliado a cada temporada ou ciclo de contrato. Não está associado à conquista, embora o fim disso seja ficar com a taça. A Alemanha é atual campeã do mundo e favorita para ganhar na Rússia. Isso já me basta. Já me serve como exemplo.

A CBF, com seus dirigentes mais interessados em ganhar dinheiro do que em deixar um legado ao futebol, nunca acenou em fazer um trabalho parecido, a longo prazo. Sempre houve muitos interesses. Por exemplo: se Tite é um bom treinador, ele poderia permanecer no cargo mesmo se o Brasil for eliminado nas oitavas da Copa ou quartas ou semifinal? Até hoje nunca se pensou assim. Nem CBF nem torcedores nem o próprio ocupante do cargo.

O fato é que a cada quatro anos, os treinadores do País se movimentam no sentido de receber um convite para dirigir a seleção, esperando o fracasso do titular. Esperando, mas não torcendo. Dá-se a chance para quem estiver melhor naquele momento. Melhor é ganhando jogos e campeonatos. Hoje, se tivesse de escolher alguém, Renato Gaúcho apareceria na frente nessa corrida. Talvez o jovem Carille, do Corinthians, ou um veterano boa-praça como Abel Braga. Não há outros.

Daí a ideia da permanência de Tite, claro, se ele topar, independentemente do resultado na Rússia. A coragem de ficar também parte do próprio treinador. Ela precisa existir. Não tenho certeza se Tite aceitaria. Segundo ele, e outros que passaram pelo cargo, o desgaste é gigantesco. Embora a remuneração seja grande e compensadora, assim como o prestígio.

Eu sei que Tite não é perfeito, ninguém é. Seu time é, em ocasiões, burocrático demais. Ele já foi chamado de ’empaTite’ de tanto que empatava. Mas ele organizou a seleção de modo a tudo parecer funcionar adequadamente. Isso é bom. Tomara seus superiores aprendam com ele. Edu Gaspar, seu braço-direito, é um sujeito respeitável. Isso faz diferença num País como o nosso, com tantas falcatruas e malandragens.

Tenho restrições ao time de Tite e à sua lista, até mesmo ao seu jeitão de falar e defender suas ideias em determinadas ocasiões. Mas respeito, independentemente do resultado da Copa. Há muitos méritos em seu trabalho. Não gosto de vê-lo nos comerciais ganhando e falando do time em troca de dinheiro. O treinador do Brasil não deveria fazer esse tipo de trabalho enquanto treinador do Brasil. Mas respeito. Sou meio chato para isso. Tomara um dia mudemos nossa forma de ver e organizar o futebol.

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