O Corinthians é refém das pessoas que aceitaram construir o Itaquerão, entre elas seus dirigentes

O Corinthians é refém das pessoas que aceitaram construir o Itaquerão, entre elas seus dirigentes

A instituição centenária e de maior torcida em São Paulo não deveria ter o nome sujo por causa de seus presidentes e dirigentes de futebol, da CBF à Fifa, passando por Brasília

Robson Morelli

18 de setembro de 2019 | 10h51

Dívida de R$ 500 milhões… Condenar o Corinthians é o mais fácil a se fazer nesse momento, quando o clube se vê envolvido com uma conta de R$ 500 milhões debaixo de sua porta, e tendo de pagar imediatamente. Dívida com a Caixa. É preciso, no entanto, entender algumas coisas nesse processo.

Sonho antigo… O estádio corintiano era um sonho antigo. Eu mesmo já cobri umas dez maquetes ao longo dos anos antes de Itaquera. Tudo parecia ajeitado, mas nada saía do papel, e as maquetes eram empilhadas em algum canto do Parque São Jorge.

Copa do Mundo… Com a Copa do Mundo no Brasil, realizada em 2014, mas decidida em 2007, com escolha do membros da Fifa, com a presença e torcida do então presidente da República, Lula, o Corinthians viu sua maior possibilidade até então de realizar o sonho da construção de um estádio.

Acordos… Ora, tudo conspirava a favor do clube. Lula era corintiano, o presidente Andrés Sanches era petista e uma união nesse sentido parecia o caminho mais natural para viabilizar a obra. Havia ainda uma conspiração para tirar o Morumbi da Copa na sede de São Paulo, o que dava vida ao projeto de um estádio corintiano em algum lugar da cidade. Itaquera foi escolhido. E todos trabalharam juntos para que a ideia saísse do papel. Não havia dinheiro no Parque São Jorge para tanto, mas havia a intenção de abrir a Copa do Mundo em São Paulo. O estádio do Palmeiras não seria escolhido. Na época, a informação era de que o Allianz Parque não ficaria pronto a tempo, como não ficou. Ele foi inaugurado em novembro.

O dinheiro apareceu… Então, tudo apontava para a construção do Itaquerão, que ainda não tinha esse nome não-oficial. O dinheiro brotou do nada. Odebrecht e Caixa, de boas relações com o presidente Lula, se comprometeram a arranjar o dinheiro. R$ 840 milhões. Isso não seria mais problema. Ele viria na condição de empréstimo. O Corinthians comprou a ideia, Andrés encheu os olhos de orgulho pela construção do estádio e tudo foi feito para que a Copa do Mundo fosse aberta em Itaquera, um bairro da zona leste de São Paulo que também teve a promessa de prosperar e se modernizar. Todos remaram para o mesmo lado.

Andrés aceitou…  Portanto, há muita gente responsável pelo Corinthians estar hoje no Serasa. O presidente corintiano é o maior de todos. Ele aceitou o dinheiro, o empréstimo e tudo o que vinha junto. Não soube dimensionar o tamanho da encrenca. Fosse num País mais sério, com gestões esportivas responsáveis, ele teria de entregar o cargo e se tornar ilegível para o resto da vida, além de pagar multas.

Todos saíram de cena… Ocorre que é preciso perguntar onde estão os outros responsáveis que tramaram a construção do estádio. Todos sabiam que a conta viria. E agora, eles sumiram de cena, do presidente do Brasil ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira, passando pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter, e seu segundinho, Valcke. A conta está no colo do Corinthians, uma instituição centenária e de muita torcida. Todos tramaram e desapareceram. Andrés talvez tenha pensando que jamais ficaria isolado, sozinho, com a batata quente de R$ 500 milhões nas mãos.

De 2014 para cá, tudo mudou… É fácil apontar o nome Corinthians como culpado. Culpado, na verdade, são todos os dirigentes que aceitaram isso, que tramaram isso, sem se preocupar com o que viria depois, certos de que eles já não estariam no comando quando a conta chegasse. Provavelmente estariam em uma praia paradisíaca, dessas que a gente vê em filmes. Mas a conta chegou mais rápido do que todos eles imaginavam, o Brasil foi passado a limpo, políticos foram presos, clãs caíram, a CBF e a Fifa desmoronaram. E quem terá de pagar a conta? A instituição Corinthians.

Refém… Mas deveria ser toda essa gente, e não o clube. O Corinthians é refém e vítima dos que tramaram tudo isso.

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Publicado por Estadão Esportes em Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

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