O fiasco do ano foi a derrota do Brasil a Alemanha na Copa: 7a 1

A seleção e os brasileiros jamais vão esquecer a surra em casa

Robson Morelli

22 de dezembro de 2014 | 13h34

Thiago Silva é motivado por Paulino no jogo contra o Chile

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Depois de 54 anos, o Brasil voltou a ser palco de uma Copa do Mundo. Gerações ainda tinham na lembrança a derrota para o Uruguai na final de 1950 no Maracanã, um dia triste para o futebol brasileiro. O Brasil ainda era apenas um mero participante da competição. Depois de esperar tantos anos e de ver a seleção se sagrar cinco vezes campeã do mundo, o País se encheu de orgulho, desconfiança e, acima de tudo, fé de que poderia ganhar seu sexto caneco. E em casa. Doze estádios foram erguidos, muito dinheiro se gastou e, por causa disso, não faltou gente que dizia que a Copa seria um fiasco, com protestos nas ruas mais fortes dos registrados na Copa das Confederações um ano antes. Armou-se um clima pesado e perigoso.

Bastou, no entanto, a bola rolar para que o povo brasileiro, contentes ou não com o Mundial em seu quintal, passasse a torcer e a acompanhar as partidas sempre de bandeira nas mãos. Nos jogos do Brasil, o torcedor inventou o hino nacional cantado do fundo do coração, muito mais do que aqueles minutinhos tradicionais da Fifa. Houve uma sintonia entre os jogadores e os torcedores nesses jogos, só rompida pelo fraco futebol do time comandado por Felipão e que tinha em Neymar sua principal estrela. Faltou futebol numa Copa do Mundo que deu certo, justamente o contrário do que se esperava antes da abertura no Itaquerão, entre Brasil e Croácia.

O caos foi pintado com todas as cores, desde o fracasso dentro dos estádios, passando pelo torcedor que não compraria a disputa até chegar à falta de estrutura que os aeroportos, sobretudo, provocariam com tantos voos em um mês. Seria o pior cartão de visita para o europeu, escancarando a condição de um Brasil subdesenvolvido. Até então a única certeza era a força da seleção.

Quem apostou na bagunça, na verdade, quebrou a cara. Os manifestantes se manifestavam até 20 minutos antes do início da primeira partida do dia. Depois, encerravam o ato de protesto e corriam para ver os jogos. Depois de algum tempo, o Brasil era uma festa só. A Vila Madalena, reduto da arte e do bom gosto de São Paulo, se consumia em beijos, abraços e gols. Foi assim em dezenas de outras praças pelo País. O povo estava feliz. Os brasileiros, receptivos que são, estenderam as mãos até para os argentinos e fizeram, todos, uma festa única.

Apenas o futebol do Brasil destoava desse cenário. Confinados na fria e chuvosa Teresópolis, no Rio, a seleção treinou pouco, viajou muito e jogou mal sempre, do começo ao fim da competição – a última apresentação foi a derrota para a Holanda por 3 a 0 em Brasília. Mas foi outra surra, uma rodada antes, que faria desta Copa do Mundo inesquecível para o brasileiro (negativamente), e pelo mesmo motivo, senão pior, do Mundial de 1950. A derrota para a Alemanha por 7 a 1 no Mineirão foi inédita na história das Copas. Nunca antes um anfitrião havia apanhado tão dolorido, tão forte, tão pesado. A derrota humilhante ecoa ainda hoje, jamais será esquecida. Fez com que o fracasso de 1950 fosse definitivamente ‘perdoado’.

Nas ruas, o Brasil foi tomado por gente alegre e feliz. Algumas seleções nos ensinaram muito, como o time alemão. Os jogadores e todos da delegação curtiram o País como nem mesmo os brasileiros fizeram, deixaram um legado em Cabrália, na Bahia, onde se hospedaram e se divertiram, e ainda levaram para casa o troféu. Quem diria, os alemães esbanjaram simpatia, e os jogadores brasileiros mostraram arrogância foram do comum e que em nada combinou com a Copa do Mundo.

A Fifa aprovou a competição. Os organizadores finalmente puderam dormir aliviados, apesar de muitas obras terem ficado no papel e do montante gasto para sediar o torneio mais importante do mundo. O legado fora das quatro linhas foi, de fato, pequeno. Ou pelo menos menor do que se esperava. Dentro de campo, o futebol brasileiro aprendeu uma boa lição, e da pior maneira possível. Tomara tenha aprendido.

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