O futebol brasileiro torna-se refém do monstro que ele criou e virou nos últimos anos

O futebol brasileiro torna-se refém do monstro que ele criou e virou nos últimos anos

Salários irreais são pagos a jogadores em formação, clubes arrebentam suas receitas com medo de perder promessas, não há regras entre os cartolas nem novas fontes de renda. Uma Liga seria a saída

Robson Morelli

24 Setembro 2014 | 12h19

GabigolSantosDivulgacao

Gostaria de saber como alguns clubes avaliam seus jogadores para chegar em seus salários, e como convivem com tantas diferenças nos valores dos contra-cheques dentro de um mesmo vestiário. Veja o caso do santista Gabriel, o Gabigol, que teve seu contrato esticado e o salário corrigido para a casa dos R$ 500 mil por mês. Entendo ser muito dinheiro para um menino que ainda está longe de ser apontado como craque. Tudo bem que faz alguns gols bonitos e sabe jogar, mas aí valer por mês R$ 500 mil é fora da realidade, sobretudo para um Santos que coloca, em média, 6 mil torcedores na Vila Belmiro.

O líquido de uma partida em casa não é suficiente para pagar o salário do jogador. E como lidar com os outros que também estão em formação no time, mas que ganham menos? Entendo que cada um tem o seu valor e até defendo isso. O que me incomoda é pagar tanto para uma ‘promessa’. Ora, se os clubes estão sempre passando o pires, vendendo parte do almoço para salvar o jantar, como um dirigente responsável pode pagar tanto para um garoto apenas, com o risco de estourar e comprometer a folha do clube? Qual é o plano estratégico para arrecadar dinheiro para a folha de pagamento do futebol do Santos? Refiro-me ao Santos, mas isso vale para qualquer outro.

O valor do salário implica diretamente no valor da multa rescisória, mas todos sabemos que essa multa rescisória é uma ilusão, não serve de base para nada e que os clubes brasileiros são facilmente seduzidos quando a oferta de fora ultrapassa a primeira dezena dos milhões de dólares. Então, para que colocar essa multa tão irreal, na casa das centenas de milhões de reais ou até de euros?

A reformulação que o futebol brasileiro se propõe após os 7 a 1 contra a Alemanha na Copa também precisa passar por isso, por uma redução de salários ou um choque de realidade em relação ao que os clubes arrecadam mensalmente. A própria Globo já não quer mais pagar tanto por tão pouco. Refiro-me aos direitos de transmissão dos jogos. A emissora poderia comprar mais jogos da Europa, mudar sua grade e o foco no futebol nacional. Mostrar menos por menos.

Repensar o dinheiro gasto pelos clubes nada tem a ver com a má formação de equipes. É possível criar bons times com jogadores mais em conta. Basta melhorar o nível dos nossos ‘olheiros’. Mas acredito que clube nenhum tem mais olheiros e são obrigados a se render aos pedidos dos empresários, esses sim bons negociadores para si próprios e seus clientes. Ora. Um clube não pode ser menor do que um empresário ou mais fraco, não pode se tornar refém desses agentes.

Entendo que é preciso trabalhar mais, criar situações diferentes, rodar o Brasil à caça de bons jogadores, formar com mais qualidade, procurar novas fontes de renda o tempo todo. Talvez criar até uma Liga nova, com mais comprometimento e lealdade, se é que dá para falar em lealdade no futebol moderno do Brasil. Hoje não há comando ou regras mínimas.  Se os dirigentes conseguirem melhorar o futebol fora de campo, vão ter melhores resultados dentro dele. Não tenho dúvidas disso.

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