O olho eletrônico na arbitragem vai bagunçar ainda mais o futebol brasileiro

Não é tão simples assim se valer das imagens de TV para tomar decisões de dentro de campo

Robson Morelli

14 de setembro de 2015 | 19h28

É preciso pensar um pouco mais sobre o que o OLHO ELETRÔNICO proposto pela CBF para a arbitragem pode, de fato, melhorar nas partidas de futebol no Brasil, ou no desempenho dos próprios árbitros. A cada rodada, há dez partidas pelo Brasileirão, entre quarta e quinta e sábado e domingo. Para que nenhum lance escape do OLHO ELETRÔNICO é preciso ter, talvez, cinco câmeras por estádio. Imagino que duas posicionadas em cada gol e uma acompanhando a bola em todos os setores do campo. Há quem diga que uma só resolve o problema. Mas há também quem defenda mais de cinco, todas espalhadas pelo gramado num grande BBB.

Suponho que durante os 90 minutos aconteça pelo menos umas dez jogadas duvidosas, de faltas e simulações, jogador agarrando jogador dentro da área, de encontrões em todos os setores, de revides e até de provocações fora das jogadas. Quem já jogou futebol sabe que uma partida é imprevisível dentro de campo. E aí, basta o treinador reclamar de um lance qualquer para a arbitragem voltar ao banco dos réus ou parar a bola e verificar pelas imagens o que aconteceu de fato. É confuso. Quem vai controlar essas imagens? A Globo? E se ela não topar doar suas imagens para a CBF? E se ela não mostrar mais os lances duzentas vezes durante sua transmissão. A Fifa não mostra em jogos da Copa do Mundo justamente para ‘poupar’ os árbitros.

Imagino que a bagunça seria ainda maior com o tal OLHO ELETRÔNICO. Seria um desmando sem precedentes. Tiraria a autoridade do árbitro, dos bandeiras, enfim, de quem foi colocado ali para conduzir a partida da melhor forma possível. Isso sem falar que o futebol perderia a graça sim. E o torcedor nas arquibancadas, que paga ingresso, caro, diga-se, não saberá bulufas do que está acontecendo. Tem mais: quem nunca mudou de ideia ao ver as mesmas jogadas na TV em canais diferentes? Dependendo do posicionamento da câmera ou do cinegrafista, uma infração clara numa tomada pode deixar de ser em outra, assim como uma jogada normal pode virar falta.

Não é tão simples assim. Não é somente rever os lances pela TV e tomar as decisões. Se isso acontecesse, seria o maior pecado de todos no futebol. O caminho é melhorar a qualidade dos árbitros, renovar, ensinar, profissionalizar, reunir, discutir, arrumar aspirantes mais inteligentes, menos prepotentes, mais humanos. O futebol é dinâmico demais para ter o OLHO ELETRÔNICO. São mais de 100 anos sem ele. A CBF deveria ter tomado providências lá atrás. Ela deixou chegar a esse estágio. Agora tenta resolver o mal-feito de uma vez só. Talvez tenha de buscar fora, na Europa, no Japão, na Fifa, novos modelos de árbitros e usá-los como exemplo. Errar ou acertar não mancha o campeonato, mas é inegável que as pessoas que comandam a arbitragem no futebol brasileiro são fracas, um reflexo do que os juízes fazem em campo. Isso sim precisa mudar.

Tomar decisões drásticas em cima de situações ‘quentes’ é sempre perigoso.

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