Os ‘inimigos’ da seleção moram dentro da Granja Comary, dentro dos próprios jogadores

Robson Morelli

30 de junho de 2014 | 21h06

O Brasil tem quatro dias para parar de chorar nesta Copa. Felipão e todo mundo já percebeu, inclusive os jogadores, que isso está atrapalhando o time, a ponto de ser mais comentado no País do que o futebol raso que a seleção joga. Quase toda comissão técnica de futebol, de uns dez anos para cá, bate na tecla da importância de se trabalhar o emocional de um grupo em grandes eventos, como um Mundial. Não é de hoje que treinadores adeptos dessa ideia, como Felipão e Parreira, se valem de especialistas nessa área. O Brasil teve a psicóloga Regina Brandão para mapear a ‘cabeça’ de todos os atletas, desvendar pontos fortes e fracos de cada um, revelar comportamentos em grupo e individuais, apresentar caminhos.

Com esses dados, o treinador da seleção tem conduzido seu elenco, dando carinho aos que mais precisam de carinho e fazendo cobranças aos que respondem melhor dessa maneira, como Luiz Gustavo, suspenso para o jogo com a Colômbia. Ocorre que até agora nada disso serviu para controlar a emoção e parar as lágrimas dos jogadores. O balde transborda em todas as partidas. Contra o Chile, nas oitavas, extrapolou a ponto de transformar uma característica positiva num problema. Um problemão. ‘Estancar’ essa emoção se faz necessário, urgente, fundamental até para que o Brasil se solte mais em campo e jogue com desenvoltura e qualidade. É preciso parar de chorar e controlar os sentimentos.

Ninguém está pedindo o fim da emoção nem jogadores de aço ou de gelo numa Copa dentro de casa. Somos sul-americanos, latinos e brasileiros. Nos emocionamos fácil. Isso é lindo, desde que não nos atrapalhe, como agora. Parafraseando Felipão, o mundo não acaba com a eliminação nem ninguém deve se atirar num poço caso isso ocorra. O treinador tenta controlar os ânimos de seus jogadores. Essa declaração demonstra sua preocupação. Passou do ponto. E agora? Paramos de cantar o hino? O que fazemos?

O técnico nunca havia falado isso antes, que se o Brasil perder, o mundo não acaba. Ora. Acaba sim. E ele sabe disso. Mas usa desse expediente para resgatar seus jogadores, afundados nessa emoção descontrolada. Esses jogadores ficarão marcados por isso, com falha individual, mais ainda. Se o Brasil tivesse caído diante do Chile, Hulk, que entregou um gol e perdeu pênalti, estaria acabado.

É claro que ninguém quer isso. O Brasil está vivo na Copa e ainda dá tempo de arrumar. Daí a preocupação de Felipão. Perder em campo é uma coisa. Já nos aconteceu outras vezes, em algumas ocasiões com seleções mais fortes que esta comandada por Neymar. Perder por causa do emocional sugere despreparo, limitação, fraqueza, por mais que esses atletas sejam jovens e inexperientes. O elenco já se reuniu uma vez por conta própria na Granja, sem a presença de membros da comissão técnica, para aparar arestas. Deve fazer isso de novo na tentativa de alguns deixarem a condição de meninos que são para assumir papel de homens formados. Precisam amadurecer rápido e da pior maneira possível, sob pressão. Não seria demérito para ninguém. Isso é evolução. O que eles não podem é confundir os inimigos. E hoje os inimigos ‘moram’ na Granja Comary, dentro deles próprios.

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