Palmeiras constrói um jeito de ser que vai além do seu legado e das pessoas que comandam o clube

Time passa pela primeira fase da Libertadores sem perder, bate recorde de gols e começa a traçar um caminho mais moderno, dentro e fora de campo, mas ainda há muito a se fazer no clube e para o esporte de modo geral

Robson Morelli

25 de maio de 2022 | 11h57

A melhor campanha na fase de grupos da história da Libertadores, com 100% de aproveitamento nas seis partidas (três em casa e três fora) e a marca de 25 gols, também a mais alta da etapa inicial desse novo formato, dá ao Palmeiras a certeza de estar no caminho certo na competição sul-americana e se sentir muito confortável na disputa. O time supera o River Plate em número de gols da fase de grupos. O time argentino tinha 21 na edição de 2020. O Palmeiras aprendeu a jogar a Libertadores, como se estivesse jogando o Brasileirão e o Campeonato Paulista.

Foto: AG. Palmeiras

Isso dá aos jogadores muito mais tranquilidade para tomar as decisões dentro de campo, saber se comportar quando sofre um gol ou mesmo quando tem dificuldades para marcar os seus e não se abalar em nenhum momento da partida, principalmente quando as coisas não dão certo. O Palmeiras enfrentou rivais mais fracos neste ano, mas o time já mostra esse amadurecimento antes mesmo de começar a competição.

O comportamento da equipe reflete imediatamente na torcida, mais confiante e em paz. Não digo que essa comunhão tenha a ver somente com os resultados positivos, mas pela forma de jogar, de armar a equipe, de buscar o gol a todo instante… O Palmeiras é um time competitivo no Brasil e na América do Sul. Já faz algumas temporadas que ele se arranja sob o comando de Abel Ferreira, que tem muita responsabilidade nisso tudo, mas não somente ele.

O clube dá ao futebol muitas condições de crescer. Há métricas e dados sendo examinados o tempo todo, há um suporte de todas as áreas para que a “máquina” funcione, de modo a ter uma estrutura independentemente de treinador ou presidente. Um DNA.

O Palmeiras tem uma cara dentro e fora de campo, desenhada lá atrás, com outros dirigentes, e que se mantém no trilho há temporadas. O trabalho, desta forma, se torna mais importante do que as pessoas. As pessoas são substituídas, mas o esquema e a estrutura continuam em pé, sólidas e fortalecidas. Esse sempre foi o desafio dos clubes brasileiros.

Há muito o que fazer ainda no Palmeiras. Falar mais com sua comunidade é um desafio, com projetos de modo a ouvir anseios para crescer, aumentar a participação do torcedor para que ele se sinta mais parte de tudo isso, resolver as pendências do social, que também bebe do dinheiro do sucesso do futebol (há reclamações de que as taxas estão subindo muito), desenvolver trabalhos de fortalecimento mental no elenco, desenvolver outras modalidades esportivas tão competentes quanto é o futebol, ter atletas olímpicos, paralímpicos… tudo isso deve ou deveria estar nos planos do Palmeiras, não como legado, mas como forma de ser.

Avançar na Libertadores da forma que foi, é ótimo para seu torcedor e seus profissionais, mas é preciso pensar em muito mais. É preciso dividir esse sucesso com a comunidade onde o clube está, dar mais instrução para os meninos da base (estudo mesmo), fortalecer famílias e tornar seus atletas, astros que são, mais acessíveis aos torcedores – esses atuais e os que ainda vão chegar. É preciso olhar para o clube hoje e onde ele poderia chegar em cinco anos, mas não somente esportivamente.

O Palmeiras tem a chance de ajudar a mudar o futebol. Não vai fazer isso sozinho. Precisa de parceiros e de outros clubes que queiram a mesma coisa, que pense igual. Mudar estrutura, formação, respeito, qualidade, instrução, educação, violência… que ainda são precárias no futebol. Há muito ainda a se fazer no esporte.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.