Palmeiras em convulsão

Robson Morelli

18 de fevereiro de 2010 | 16h37

É preciso analisar com calma o que está acontecendo no Palmeiras nesta temporada. Há muito mais que apenas a derrota por 4 a 1 para o São Caetano no Palestra Itália, que não deixou pedra sobre pedra. A forma como o time perdeu ressaltou aos olhos do mais disinteressado torcedor. Como se diz na giria do futebol, os caras tiraram o pé de todos as divididas. Estranho comportamento para um grupo que até outro dia se orgulhava de ter como comandante Muricy Ramalho, o técnico que construiu seu próprio bordão: ‘aqui é trabalho’. Cabeças iam rolar mesmo. Rolou a de Muricy.

Mas há muitas outras vidraças para acertar nessa história. A diretoria perdeu alguns duelos porque titubeou entre contratar ou economizar. Preferiu, em alguns casos, segurar o dinheiro para não estourar a conta, aumentar a dívida. A vaga não conquistada na Libertadores também fez com que Belluzzo freasse os gastos, reduzisse o orçamento. Homem da economia que é, não deixará o clube afundar em seus contra-cheques, mesmo que para isso tenha contratações pífias em 2010. Há de ressaltar também o fato de a diretoria ter segurado ano passado alguns dos principais jogadores, como Diego Souza, Cleiton Xavier, Pierre.

Teve o caso Vagner Love. Ameaçado por torcedores de pouca inteligência, o melhor atacante que o time tinha bateu asas e voou. Não chegará outro da sua qualidade. Ewerthon não é Love nem nunca será. As peças chegavam a conta gotas para desespero do então treinador. Sobrou para o gerente de futebol Toninho Cecílio. Pediu demissão. Aceitaram.

Há no elenco algumas raspas de tacho que também não servem para nada. Jogadores de times pequenos, sem condições de usar a camisa do Palmeiras. E aí Muricy está certo ao ter falado que ‘com esse time não dá’. Essa turma fica no clube, não faz nada e ainda toma o lugar de outro. Lugar e salário. Lenny é um deles. Saconni é outro. Armero caminha para isso. Wendel já deu. Não são de todo mal, mas também não são de todo bem. A camisa pesa, como se viu diante do São Caetano. Falta fibra, falta personalidade. Essa coisa de jogar futebol, como se diz lá na Freguesia do Ó, é coisa pra macho. Não se vê muita disposição em alguns atletas. Não digo que sejam maricas, claro. Mas também acho que não estão muito interessados.

Havia ainda que se cobrar da comissão técnica. Sim. Muricy parecia que andava no Palestra com um tênis apertado nos pés, desconfortável. Até em suas entrevistas percebia-se que ele não estava à vontade. É natural ficar tímido em novo empregado, todos nós já passamos por isso. Ocorre que já havia dado tempo para ele voltar a ser o Muricy que o Brasil conheceu, o rabugento, o brigão, o inconformado com as derrotas, e com as partidas ruins. Hoje, Muricy parece um técnico comum, como se tem aos montes no País. E não é. Sua demissão o ajudará na carreira. E só para deixar claro não foram os jornalistas que o demitiram. Foi seu fracasso no time.

E o que falar então do preparo físico dos jogadores? Muricy defendia-se dizendo que estava usando os atletas mais do que eles suportavam. Ora, estamos em fevereiro. Não é possível que um menino de 20 e poucos anos não aguenta jogar um mês e meio sem se cansar. Pode chorar o que for que essa não dá para engolir. O time não tem caixa, outra expressão das antigas que muitos jogadores do Palmeiras não devem sequer conhecer.

Por fim, todos conhecem a colcha de retalhos que é o Palmeiras em sua administração. Conselheiros querendo ‘comer’ conselheiros, oposição torcendo para o fracasso da situação e situação, que era oposição antes, virando as costas para seus ‘pares’. Cada um correndo para um lado. Se isso não mudar, Antônio Carlos Zago, o novo técnico, também não ficará muito tempo.

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