Por que 2019 seria o ano da mudança no esporte brasileiro? Duvido que seja

A linhagem do comando do futebol, por exemplo, continua a mesma

Robson Morelli

02 Janeiro 2019 | 14h03

Com a troca de guarda em Brasília, muita gente imagina que todos os problemas da sociedade serão resolvidos num passe de mágica. Até no futebol andam falando isso. Serei o chato a contar para vocês que pouca coisa mudará, ou quase nada, ou nada. Digo isso porque as instituições esportivas não são submetidas a governo nenhum, embora possa haver muito lobby no sentido de usar o futebol, ou o esporte em geral, como mecanismo de manipulação de massa e populismo. Quem nunca?

No futebol, no entanto, os novos mandatários do País, de presidente a governadores, não terão força alguma para endireitar o torto.

A CBF continuará a mesma, embora haja vida mais inteligente dentro dos seus espaços privados de alguns anos para cá. O problema é de comando, de linhagem. O presidente Rogério Caboclo, que tomará a frente da entidade em abril (ele já manda e desmanda), é cria de Marco Polo del Nero, que era filhote de José Maria Marin, que fora executivo de Ricardo Teixeira, que virou genro de João Havelange, que vendeu a alma para ser o mais popular presidente da Fifa. Todos da mesma família, portanto. Todos farinha do mesmo saco, sem dúvida. Marin está preso nos EUA. Del Nero foi banido do esporte e será preso se deixar o Brasil. Ricardo Teixeira é acusado de desvio de dinheiro e outros crimes. Havelange morreu, mas sem antes perder seus cargos e ser acusado e responsabilizado de atos ilícitos no comando da Fifa. Caboclo vem dessa linhagem. Difícil confiar, portanto.

Sua eleição se deu da mesma forma de seus antecessores, um beija-mão que amarrou todas as federações estaduais, em menor ou maior grau. Poucas são as vozes discordantes. Poucas são as instituições que se organizam para mudar ou dar mais transparência ao comando do futebol. Daí o entendimento de que nada vai mudar a curto prazo. Caboclo poderia ter dado novos rumos no futebol, mas até agora preferiu manter o ‘modus operandi’ da CBF. Quem está com ele, está com ele.

Abaixo do novo presidente, quer queiram ou não, como Tite, técnico da seleção brasileira, todos são submissos, mesmo os honestos e os de boas ideias. Veja, por exemplo, o caso da seleção que tem sua base em Londres. O time está vendido e, por isso, não faz amistosos no Brasil, nem treinos. O negócio dessa gente do comando, leia-se dinheiro, afastou o bem maior do torcedor brasileiro, o time.

A CBF só tem olhos para a seleção. Sonha em ganhar outra Copa do Mundo para acalmar tudo, deixar tudo como está por mais uma década – a última Copa vencida foi em 2002. Pelo andar da carruagem, e pelo que vimos nas últimas edições do torneio da Fifa, não será fácil. Parece que a turma de Neymar está fadada a passar em branco assim como a de Messi na Argentina. Se o bem maior da CBF vai mal, o que dirá dos seus outros filhos, como o Campeonato Brasileiro, torneio repleto de vícios e mal administrado. Faltam leis para manter os melhores jogadores no Brasil, por exemplo. Falta vontade com a arbitragem, um verdadeiro calcanhar de Aquiles da competição. Falta transparência e sobra desconfiança. Há anos é assim. Por que acharíamos que isso vai mudar em 2019? Não há nada que nos faça ter esperança. Nada.

Os clubes continuam sendo mal geridos, o dinheiro ganho desaparece, as dívidas aumentam. As tevês pagam caro pelo futebol e têm retornos em campo longe do que o torcedor merece. Há muitos times fracos e ruins, que só tentam se salvar do rebaixamento. Melhora no fim e nos clássicos. É de doer. A CBF acha tudo bom. Os clubes acham que está tudo certo. Não está. O calendário, com outras competições de responsabilidade da CBF, é carrasco, os jogadores atuam demais e o futebol, como disse, é pobre.

2019 ainda é um ano pré-olímpico, o que quer dizer que o COB deve investir mais nas modalidades dos Jogos. Não há certeza de que o dinheiro seja suficiente. Mas do que isso, não se trata de investir somente quando a Olimpíada bate à nossa porta. Deveríamos ter um trabalho consistente e ininterrupto de preparação e desenvolvimento. O que temos é tímido. As boas iniciativas nesse sentido partem de clubes privados, como o Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, que forma nossos melhores nadadores. Há leis de investimento para os esportes olímpicos. Mas tudo gira em torno de muita desconfiança.

Daí então meu total descrédito em mudanças profundas no esporte, que agora em Brasília, sob a batuta dos novos donos da Casa, se junta a outras pastas teoricamente mais importantes.