Por trás do silêncio de Dilma e Blatter na abertura da Copa

Robson Morelli

12 de março de 2014 | 20h58

A diferença dos políticos para os artistas é que o primeiro time teme vaias em público. Não estão preparados para isso porque acham que sempre fazem o melhor. Isso explica a decisão de o presidente da Fifa, Joseph Blatter, decidir, em conjunto com o governo brasileiro, que ele e a presidente Dilma Roussef não discursarão na cerimônia de abertura da Copa do Mundo. Ambos temem ser vaiados no Estádio do Corinthians dia 12 de junho, na presença de todos os chefes-de-estados dos países participantes, e de quem mais estiver por lá.

Há algumas leituras para tal decisão. Uma delas diz respeito ao que aconteceu no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, na abertura da Copa das Confederações ano passado. Dilma e Blatter não esperavam pelas vaias assim que tomaram o microfone para dar o torneio aberto. Nem precisavam falar nada. Mas falaram e sentiram a ira do torcedor. Torcedor de classe média também, diga-se. A presidente não sabia o que fazer. Sua fisionomia, mostrada nos telões do estádio e também nos monitores de TV destinados aos jornalistas credenciados, era de um político que talvez pela primeira vez tenha perdido o rebolado. A cena foi constrangedora.

Dilma e Blatter não querem passar por isso novamente.

Uma segunda leitura pode estar diretamente ligada aos protestos de rua, que também tomaram conta do País nos dias de jogos da seleção na Copa das Confederações. A Fifa ficou assustada com tudo o que viu e teme por mais manifestações violentas. Embora a ordem no País seja pelo direito do povo das manifestações pacíficas, tenho dúvidas de que o suíço Joseph Blatter aceita isso numa boa. E todos nós sabemos que quando a Copa começar, a Fifa vai enfincar sua bandeira nas 12 cidades-sede e comandará tudo do seu jeito. Soa um pouco demagógico dizer que a Fifa aceita manifestações contra ela ou contra sua ‘obra’, a Copa, sem se incomodar. Blatter, muito mais até que Jérôme Valcke, seu secretário-geral, é a figura que representa a Fifa. E um discurso em público, mostrado para o mundo pelas imagens de TV, pode incendiar novamente essas manifestações.

Pelo que vi na Copa das Confederações, os brasileiros não darão tregua a Blatter. Não entro aqui no mérito dos seus mandos e desmandos. Faço parte do time que acha que o Brasil tem sim o direito de sediar uma Copa do Mundo e acertou em trazer o torneio para cá. Se está gastando mais do que deveria, isso é outra conversa, condenada, digo, de antemão.

Há ainda uma terceira linha de raciocínio para que Dilma e Blatter abram mão do discurso, tão valorizado nos dias da comunicação total. São as eleições. É provável, embora não confirmado, que a ideia de bico fechado na abertura tenha partido do Brasil e da Suíça, de Brasília e de Zurique. Pensando em seu desempenho nas urnas em outubro e da exposição negativa que teve na Copa das Confederações, não seria demais supor, apenas supor, que a presidente tivesse convencido Blatter de que não seria bom discursar para um público fora do seu controle. Isso é para artistas e não para políticos.

[poll id=”115″]

Tudo o que sabemos sobre:

copa 2014; copa do mundo; futebol

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: