Quem deve tomar as decisões de compra e venda de jogadores num time de futebol?

O presidente, que paga? O treinador, que vai usar, mas e se ele for embora antes do prazo? O patrocinador, que ajuda com isso? Os clubes gastam muito dinheiro com atleta que não joga

Robson Morelli

23 de novembro de 2020 | 17h08

Com a eterna falta de dinheiro dos clubes brasileiros, uma questão me parece cada vez mais importante na gestão do futebol: contratar jogadores corretamente. Não dá mais para investir em atletas que não vão render em campo ou naqueles pedidos de técnicos que não se sustentarão no cargo por muito tempo. Tem sido um problema para os clubes se livrar de jogadores com contratos longos e que não estão mais nos planos dos treinadores. O caso do meia Guerra, do Palmeiras, em história contada pelo repórter Ciro Campos, é um bom exemplo disso, independentemente do que ocorreu com a carreira do atleta.

Guerra não joga faz um ano, mas o Palmeiras continua a pagar seu salário. Foi comprado por R$ 10 milhões e terá seu contrato finalizado em dezembro sem que o clube ganhe de volta um único centavo, nem mesmo em campo, no uso do jogador, pois ele não fez parte dos planos dos últimos treinadores da equipe. Isso é uma calamidade numa finança quase sempre em frangalho dos clubes de futebol. Guerra foi contratado em 2016.

Há muitos outros atletas na mesma condição: não atuam, treinam separados ou até junto do elenco, não são relacionados para as partidas e só aguardam o contrato terminar. Enquanto isso, recebem salários altos e vão tocando a vida. Eles não têm culpa. Se o clube não pagar em dia, toma processo. Quando o acordo acaba, pegam suas coisas é vão embora. Alugam seus contratos para outros times sem que o anterior receba um único centavo. Isso só ocorre porque se contrata de forma errada no Brasil. Presidentes, treinadores, dirigentes de futebol, todos se envolvem em barcas furadas, às vezes um passando por cima do outro. Há ainda as negociações nada transparentes, com empresários nada transparentes, com cartolas nada transparentes.

Em alguns casos, o presidente quer o atleta, mas o treinador não. Ou o dirigente empurra o jogador para o elenco sem necessidade. Há pedidos de técnicos que são atendidos porque o dirigente quer se livrar de cobranças e acredita que dessa forma ele coloca toda a responsabilidade do sucesso ou fracasso nas costas do treinador. O futebol ainda vive num ambiente de poucos amigos, de muitos interesses e de quase nenhum respeito à instituição, à bandeira, à história do clube. Não dá mais para ser assim.

Parece que todos que tomam as decisões estão de passagem. Fazem porque dali a alguns anos eles não estarão mais no cargo.

O que mais me incomoda é pedido de treinador. Todo técnico, quando chega ao clube, tenta trazer os ‘seus’. Muitos nem sequer ficam mais de um ano no posto. Vão trazendo e deixando os jogadores encostados. Alguns servem, a maioria não serve. Mas o clube assume o salário mensal do atleta e contratos longos. Depois, fica com o ‘mico’ na mão. Guerra foi para o Bahia, voltou e ninguém mais o quer. Isso quando não há picuinhas de dirigentes e treinadores só para ferrar o cara. Absurdo? Não é. Daí a necessidade de as partes nos clubes serem bem fiscalizadas e conduzidas. O Conselho Deliberativo, por exemplo, órgão que deveria ser independente, tem a obrigação de fiscalizar as contas. Mas há a necessidade de se fazer isso antes que elas estourem ou não sejam aprovadas. As contratações deveriam ser mais bem discutidas, de forma mais aberta e transparente entre as pessoas importantes do clube.

Enquanto não avançarmos nisso, o futebol vai ficar pagando rescisões e processos trabalhistas durante o ano todo, para jogadores e treinadores demitidos. Vai continuar passando o pires, sem dinheiro e cheio de dívidas. Quem descobrir o caminho primeiro, vai se dar bem nas competições, na gestão e no dinheiro do cofre. A Fifa agora está de olho nos maus pagadores e em quem não cumpre os combinados. É mais um problemas das contratações erradas.

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