Rafinha escancara o sentimento dos jogadores pela seleção brasileira

A diferença dele para os outros é que o jogador do Bayern de Munique teve coragem de tomar essa decisão. Isso talvez não tenha nada a ver com o futebol em si, mas com o projeto e as pessoas que tomam conta do time nacional

Robson Morelli

23 de setembro de 2015 | 16h55

O lateral Rafinha, do Bayern de Munique, recusou a convocação de Dunga para defender a seleção brasileira nas primeiras partidas das Eliminatórias da Copa da Rússia num gesto de muita coragem. Disse que não se sentia na briga apesar do chamado, que havia uma possibilidade de defender a Alemanha e que, aos 31 anos, não interessava mais jogar no Brasil.

Sua decisão escancara o sentimento que se tem da seleção nesse momento, e talvez isso nada tenha a ver com o perde-e-ganha natural de um time de futebol. O Brasil perdeu a Copa do Mundo de forma vergonhosa, 7 a 1 para a Alemanha, e foi eliminado da Copa América antes do tempo, também sem mostrar um futebol convincente, mas continua sendo pentacampeão mundial e ninguém vai conseguir apagar essa história, mesmo que tentem, começada lá atrás e que depois teve Pelé, Zico, Rivellino, Romário, Ronaldo, Neymar, entre outros.

O problema é o ‘projeto’ que a CBF tem para os jogadores que não são do primeiro time, para a seleção e para ela própria. Dunga e Gilmar Rinaldi correram a Europa atrás de jogadores. A turma do Felipão também fez isso depois que a CBF ‘perdeu’ Diego Costa para a Espanha. É impossível chamar todos os brasileiros bons de bola espalhados pelo mundo. O que Dunga queria é dar um pingo de esperança para cada um deles. Deixá-los na dúvida, como é o seu discurso batido de que ‘quem vai a Portugal, perde o lugar’. Ele não se cansa de repetir essa bobagem.

Para Rafinha, esse discurso não colou, como não deve colar para outros. Rafinha nunca se sentiu na briga pela vaga e talvez nunca jogue na seleção da Alemanha, como gostaria. No seu caso, ainda há um problema, que é ter participado do Mundial Sub-20 no passado com o Brasil. Ele não poderia jogar em outra seleção. Mas há discussão sobre isso.

Ocorre que ninguém me tira da cabeça que a bagunça que virou a seleção, cheia de regras e mandos, com comandantes sem carisma e um presidente sendo investigado por suposta corrupção, a exemplo de seu antecessor, preso na Suíça, também contribui e muito para o dissabor em vestir a camisa amarelinha. Quem gostaria de se juntar a essa turma? Duvido que apareça algum jogador em atividade e de certo peso no cenário para falar tudo isso, para denunciar ‘essa’ farsa que se chama seleção. Rafinha simplesmente disse que não queria mais.

O cheiro é que a situação da CBF, e de seus cartolas, começa contaminar o time de futebol. Esse poderia ser o pior cenário nesse momento em relação às Eliminatórias.

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