Será que só eu cheiro armação nessa história do corintiano de 17 anos assumir a culpa pela morte de Kevin?

Robson Morelli

25 de fevereiro de 2013 | 20h27

Apareceu um culpado, menor, que se diz envergonhado e arrependido de ter acionado o sinalizador que matou outro menor na partida do Corinthians com o San José, em Oruro, pela Libertadores, semana passada. O menor que se diz responsável pela agressão é da Gaviões da Fiel e tem todo o aparato da torcida organizada para se defender judicialmente. Um advogado o acompanha desde que se ‘entregou’, primeiramente para os chefões da organizada, depois para a polícia brasileira, talvez na ordem que as coisas funcionem dentro da Gaviões. É claro que muitos pontos de sua história não batem, como o momento em que descobriu que o boliviano havia morrido, todo o dinheiro gasto para acompanhar o time na Bolívia e também para comprar os sinalizadores (havia 12 em sua mochila), enfim, tudo pareceu armado demais depois de dias.

Nada me tira da cabeça, e posso estar errado, que o Corinthians estaria orquestrando toda essa história para se livrar da pena imposta pela Conmebol, que é a de disputar a Libertadores com portões fechados no Brasil e sem mais o direito de adquirir carga de entradas para jogos fora. Tudo cheira a armação. E nem precisava tanto porque a decisão da Conmebol também parece mais encenação do que qualquer outra coisa, sobretudo conhecendo a entidade, sempre mais disposta em perpetuar seus mandos ou os mandos de quem a comanda do que de arrumar confusão com federações e clubes filiados. O fato é que nos bastidores dessa discussão já se diz que a Confederação Sul-Americana pensa em punir o Corinthians somente nas três primeiras partidas da fase de grupos e que essa história de o time brasileiro se retirar da competição é pura balela.

Não há como desassociar todas as letras desse enredo. A entrega do gavião na polícia implica diretamente nos 12 presos da organizada em Oruro. O desfecho do caso na Bolívia pode tomar outro rumo, já que agora se tem um culpado oficial, mesmo sendo no Brasil. Nada impede que os 12 corintianos sejam ainda arrolados em qualquer outro artigo das leis penais da Bolívia, como cúmplices, por exemplo. Ninguém sabe. O fato é que soa anormal um torcedor corintiano da Gaviões dizer em entrevista que ele não acha justo que outros paguem por um crime que ele cometeu. Nunca ouvi isso de torcedor nenhum de organizada de qualquer time, e olha que já cobri muitas brigas dessa gente em estádios, delegacias, fóruns. Daí minha quase conclusão de que tudo não passa de um grande arranjo para aliviar para o lado do mais forte: o Corinthians e os 12 membros da torcida presos em Oruro.

Basta ver que o advogado de defesa diz não ter a menor dúvida de que seu cliente é, de fato, o cara que soltou o sinalizador no estádio. Temos, portanto, um réu confesso e um advogado do réu também confesso: ‘foi ele’. Não duvido que tudo isso acabe em pagamento de cesta básica. Gostaria muito de estar errado nisso. Mas…

Fifa
A Fifa poderia também assumir o caso e decretar que a Libertadores, enquanto não se reorganizar na Conmebol, não terá mais o direito de ter o seu campeão no Mundial de Clubes. Isso não resolveria o problema do torcedor corintiano e do clube brasileiro, mas poderia ser o começo para que a Confederação Sul-Americana repensasse sua forma de tratar o futebol do continente.

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