Superliga é um erro. Falta com respeito a jogadores e, principalmente, aos torcedores: uma vergonha

Superliga é um erro. Falta com respeito a jogadores e, principalmente, aos torcedores: uma vergonha

Os 12 clubes de Inglaterra, Itália e Espanha vão ganhar R$ 2 bilhões com o novo torneio, se sair do papel, e eles se viram contra seu maior patrimônio: o torcedor

Robson Morelli

20 de abril de 2021 | 10h00

Qual é a graça do futebol? Depende para quem. Para os torcedores, a graça está em ver grandes jogos, mas também na esperança de ver seu time um dia chegar às competições mais importantes e poder enfrentar, quem sabe vencer, os gigantes do País ou do bloco regional, como Europa e América do Sul. Para os jogadores, quase sem exceção, é vestir a camisa de um time e atuar, sonhar com os grandes torneios, com as conquistas e com a Copa do Mundo, grau maior da carreira de um profissional.

Para os clubes, é importante levar sua bandeira para outros territórios. No Brasil, por exemplo, há milhares de apaixonados por Barcelona e Real Madrid. É também ganhar dinheiro para fazer os times cada vez mais fortes e pagar todos os gastos de uma temporada, assim como vencer disputas e erguer taças. Construir uma história, valorizar seus personagens.

Foto: Montagem

Tudo isso parece fora do escopo da Superliga Europeia, essa nova competição formalizada por 12 clubes signatários da Inglaterra, Espanha e Itália. Mesmo treinadores podem não concordar com a ideia da nova disputa, como fez Zidane ao lado do presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, head da Superliga. O ex-jogador, campeão do mundo com a França, foi sincerão. “É uma questão do presidente. Todo mundo tem sua opinião, mas eu conheço o jogo. Não estou aqui para falar sobre isso. Não é meu trabalho”, disse. “Não vou dar a minha opinião sobre a Superliga. Podem dizer que não me exponho, é verdade. Meu trabalho é o que faço: o jogo. O resto posso dizer, comentar, mas é inútil”.

A Superliga destrói o sonho dos clubes menores de se enfiarem entre os grandes, ter uma temporada mais rica pelas premiações e quem sabe se colocar em posições de destaque. Para quem acompanha a caminhada do PSG, de Neymar, na Liga dos Campeões vai perceber exatamente isso. Há três anos, o time nem figurava entre os melhores e sempre ficava pelo caminho. Com muito dinheiro, mas não só, foi finalista na edição passada e agora está entre os quatro melhores. Isso pode acontecer com qualquer um. Basta montar um time competitivo.

A Superliga arranca essa possibilidade dos times, uma vez que ela se fecha num grupo dos propensos melhores para ganhar mais dinheiro e com o discurso de oferecer ao torcedor grandes jogos. Não é verdade.

Grandes jogos não são aqueles das agendas. São aqueles em que os times querem ganhar e se preparam para isso. São aqueles em que os jogadores se entregam ao máximo e fazem coisas que até Deus duvida dentro de campo. Os 12 dissidentes estão atrás de R$ 2 bi de premiação. Matam o futebol sem se dar conta. Deve haver outros caminhos. Fechar, formar grupos, perder o sentido de competir, o espírito esportivo, em nada isso vai ajudar.

Não se trata aqui de defender Fifa ou Uefa. Longe de mim. Mas numa visão imediata, o futebol perderá, mesmo se a Superliga sobreviver aos bombardeios e um dia se tornar maior do que a Liga dos Campeões. Não é essa a questão. Da mesma forma, o futebol da Europa estará dividido. Seria como se no futebol paulista, Palmeiras e Santos jogassem uma liga e Corinthians e São Paulo, outra, geridas por entidades diferentes e que não se bicam. Ou se River Plate e Boca Juniors estivessem em torneios separados na Argentina.

Já há clubes na Inglaterra, entre os 12, como Chelsea e Manchester City, que não estão seguros da iniciativa. Há ainda de se esperar a opinião em bloco dos jogadores. O que vimos até agora são posições individuais. Se o coro pelo “não” engrossar, os 12 terão sérios problemas.

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