Torcida única não acaba com o problema, só transfere o ódio

Sem os briguentos do outro lado, o ódio vai recair contra o time visitante, arbitragem e até jornalistas. É uma medida velha e ineficaz

Robson Morelli

05 de abril de 2016 | 11h03

Fechar os portões para torcedores do time visitante nos clássicos, até o fim do ano, como determinou a secretária de segurança pública de São Paulo, é medida que não impede as brigas no futebol. Apenas transfere o ódio dessa gente sempre disposta a confrontar. Sem torcedores de bandeiras diferentes no estádio, os ‘donos da casa’ vão destilar seu ódio contra quem estiver ‘do outro lado’: adversário, trio de arbitragem e até jornalistas. Já vivi isso na Vila Belmiro com um dos melhores repórteres de TV que conheço, gente trabalhadora e amável na mesma proporção do seu profissionalismo. Ele deu uma informação contra o time da casa, contra o Santos, portanto, e foi perseguido pelos torcedores, ameaçado de morte, impedido de deixar o estádio. É assim que esses ‘uniformizados’ agem. Para eles, matar ou morrer é questão de ‘quem bate primeiro’. Não existe conversar. Todos de cores diferentes são inimigos. São esses caras que se sentam nas cadeiras dos estádios de São Paulo ao nosso lado.

O secretário de segurança pública, Alexandre Moraes, ainda determinou que os ingressos só serão vendidos pela internet, de modo a obrigar todos os compradores a se cadastrar. Fica proibido ainda o repasse dos clubes para as Uniformizadas. Recentemente, o presidente do São Paulo admitiu que dá ingressos para as facções do Tricolor, uma prática que sempre existiu e ainda existe, e que será difícil de acabar. Por fim, os ‘organizados’ não entrarão nos estádios paulistas com adereços de suas torcidas.

Tudo isso já foi implementado um dia, no Brasil e em países vizinhos, como a Argentina, e apenas serviu para uma resposta à sociedade. O problema nunca acabou. Dá-se um tempo, comemora-se o resultado momentâneo, e depois de um prazo as brigas são retomadas por motivos mil. Vale lembrar que os líderes das torcidas se conhecem e se reúnem com a PM às vésperas de grandes partidas a fim de ‘desenhar’ o roteiro da segurança. Se comprometem e não conseguem a paz. O discurso comum entre eles é que são incapazes de controlar seus associados, de modo a impedir brigas longe dos estádios. Então, são fracos como líderes.

Estou sempre com um pé atrás em relação aos promotores também. Cobri de perto as ações do paladino Fernando Capez quando ele erguia essa bandeira, a exemplo do que faz Paulo Castilho. Já caminhei com ele escoltando torcedores. Ocorre que até agora as ideias e intenções do promotor Castilho são as mais enérgicas contra as Organizadas, uma vez que ele pede o fim das torcidas, fim definitivo, e de suas ações em outras áreas, como o carnaval, e o uso de tornozeleiras eletrônicas aos presos que aguardam em liberdade o julgamento.

Esses caras deveriam bater nas delegacias toda vez que seu time entrar em campo. Por 90 minutos, ficariam enjaulados. Não entendo porque isso não pode ser feito pela secretaria de segurança pública. Fechar o estádio para torcedor rival é impedir o torcedor de bem de ver seu time jogar. É transferir a culpa para quem não tem culpa de nada. É mudar o foco do ódio.

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