Um exemplo na estação Barra Funda do Metrô de são-paulino e corintiano

Um exemplo na estação Barra Funda do Metrô de são-paulino e corintiano

É preciso aprender a ser rival sem ser inimigo no futebol

Robson Morelli

04 de abril de 2017 | 10h27

A cena é um tapa na cara, de mão fechada, nos briguentos uniformizados do futebol brasileiro, principalmente os de São Paulo. Ela foi registrada, de acordo com o site Catraca Livre, pelo fotógrafo César Ogata, na estação Barra Funda do Metrô, em São Paulo. Um rapaz com o uniforme da Independente, a torcida mais violenta do São Paulo, conduzindo pelo braço um outro rapaz, cego, com as vestimentas do Corinthians. No estádio, uma cena como essa seria inimaginável. Em dia de clássico, muito menos. São-paulino e corintiano de braços dados, com uniformes de seus respectivos clubes. Uma cena linda, de comover, para quem acompanha, como eu, o futebol há décadas. E as brigas de torcidas também.

Torcida

Isso prova que é possível acertar o torto e não desistir de organizar o futebol com duas torcidas, metade-metade, dentro dos estádios, nas estações de metrô e ruas da cidade. Já desiste muitas vezes desse assunto por achar que não tem jeito. Mas quando vejo cenas assim, volto atrás.

O que não é possível, tampouco admissível, no caso, é abrir mão dessa organização, deixar de tentar, ignorar, mudar e acabar, como está acontecendo nos clássicos paulistas, de torcida única. Sei que esses caras de uniformizadas são do mal, na maioria das vezes, da briga acima de tudo, mas se as instituições abrirem mão, desistirem, de reorganizar o que se apresenta, e da forma com que se apresenta, está tudo acabado. O futebol vai para dentro de nossas casas e ninguém mais vai aos estádios. Os negócios vão minguar. Claro, porque se o terror vencer, as pessoas do bem, e elas são maioria, não vão mais consumir o futebol, e aí um setor gigantesco da sociedade vai parar, subdesenvolver.

Os dois cidadãos do Metrô, que em situações diferentes poderiam ser chamados de uniformizados, briguentos, imbecis, deram uma demonstração de convivência e maturidade. Essa que se cobra todos os dias. Podem até ser amigos de longa data, mas isso não tira deles o fato de dar um bom exemplo, um passo à frente. A imagem diz tudo. Ela deverá servir para as fases agudas e decisivas do Campeonato Paulista que se avizinha, quando os quatro grandes de São Paulo podem se encontrar nas semifinais. Vai ser jogo, se isso acontecer, de torcida única, um cá outro lá, e sempre com riscos de encontros marcados pela cidade ou até acidentais, com brigas e possíveis mortes. O apelo é para que os torcedores do mal se mirem no exemplo desses dois ‘rivais’, mas não inimigos, da estação Barra Funda do Metrô.

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