As duas faces da manifestação em Salvador
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As duas faces da manifestação em Salvador

Vitor Vill

21 de junho de 2013 | 13h42

Protesto que começou de maneira pacífica acaba em destruição por vários pontos da cidade

 

Cartazes davam colorido ao protesto (Vitor Villar/Seleção Universitária)


Vitor Villar – Seleção Universitária – especial para o Estado

SALVADOR – Quando as milhares de pessoas – cerca de 20 mil, segundo a Polícia Militar – se reuniram na última quinta-feira, 20, a partir das 14h, na praça do Campo Grande, o clima era de paz e amor. Tudo combinava para a realização de mais um protesto pacífico na capital baiana, como o que aconteceu na última segunda-feira, 17. Mas o que se viu quase cinco horas depois não parecia em nada um ambiente democrático, e sim uma verdadeira zona de guerra.

Na concentração, era possível ver gente de todas as idades, vindas de todos os lugares, para reivindicar causas igualmente diversas. “Sou contra a PEC 37, o projeto da ‘cura gay’ e, é claro, pelo passe livre”, disse o estudante Wendel Mota, que mora em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador.

O engenheiro Tiago Barbosa trouxe a mulher e as duas filhas pequenas para experimentarem o sentimento de democracia. “Sempre participei de protestos durante minha adolescência e agora sinto de novo aquele sentimento. Por isso trouxe minhas filhas, espero que elas sintam também e cresçam sabendo que podem se expressar, podem ser livres e de forma completamente pacífica”, contou.

 

Tiago levou a família para a passeata (Vitor Villar/Seleção Universitária)

A intercambista espanhola Marta Valverde fez questão de apoiar a causa brasileira. “Na Espanha também participei de vários protestos como esse e também estamos vivendo um momento muito difícil, então compreendo”, justificou a estudante. Um pouco mais velho que os demais na praça, o empresário gaúcho Edmar Araújo também quis ir às ruas na quinta-feira. “Minha vontade é a mesma de todos que estão aqui. Cansamos da falta de tudo, dos nossos impostos serem revertidos em nada, da falta de educação, de saúde, de transporte”, citou.

Cidade mais negra do mundo fora do continente africano, Salvador não poderia deixar as questões raciais fora do debate. Integrantes do movimento negro baiano também marcavam presença em grande número. “Quem mais sofre com o transporte público é a população negra do país, porque é população mais pobre, que mora na periferia e que não pode andar com segurança pela cidade”, argumentou o militante Geovan Bantu.

 

Concentração teve hino ao som de tambores (Vitor Villar/Seleção Universitária)

Apesar da festa, que teve direito até ao Hino Nacional acompanhado por tambores, o clima também era de apreensão. Já se sabia que a Polícia Militar havia montado barricadas ao longo da Avenida Joana Angélica, por onde os manifestantes caminhariam na tentativa de se aproximarem da Arena Fonte Nova. Para não haver violência, o estudante Marcelo Jorge Filho contava com o bom senso dos militares. “Se eles tiverem bom senso, não vão tomar atitude contra a manifestação que representa a sociedade da qual os policiais também fazem parte”, disse.

 

Multidão começou caminhada por volta das 15h (Vitor Villar/Seleção Universitária)

Por volta das 15h, parte da multidão começou a caminhada pela Avenida Sete de Setembro em direção ao entorno da Fonte Nova. Ao longo do caminho, cantavam todos os tipos de canções e frases de ordem, enquanto recebiam apoio das pessoas nas sacadas dos prédios. Quando os primeiros manifestantes do grupo que saiu do Campo Grande chegaram à primeira barricada montada pela polícia, na Av. Joana Angélica, a cerca de 1 km da Fonte Nova, o clima já era tenso.

Outros manifestantes, que haviam se adiantado do grupo, discutiam com os policiais tentando entrar no perímetro de segurança estabelecido pela Fifa. De repente, um tumulto: alguns dos manifestantes tentaram furar o bloqueio e os integrantes da tropa de choque, posicionados atrás da primeira barricada, reagiram de imediato, disparando bombas de gás lacrimogêneo.

Uma torcedora, que caminhava com o marido em direção ao estádio, acabou atingida pelos resquícios do gás. No desespero, os moradores da região começaram a fugir por todos os lados. Uma idosa, que tentava se afastar da confusão, acabou tropeçando e teve que ser amparada. Muita correria por parte dos policiais e manifestantes, que passaram a se proteger com os banheiros químicos e atirar pedras em revide. A paz na manifestação havia durado apenas duas horas.

 

Gás e confusão tomaram conta do ar próximo à Arena Fonte Nova (Vitor Villar/Seleção Univeristária)


Cenário de destruição

Após o término do jogo na Arena Fonte Nova, por volta das 21h, o que se via pela cidade parecia mais com uma zona de guerra. A região do Vale dos Barris, principal via de acesso à área sul do estádio e onde também houve conflito entre policiais e manifestantes, encontrava-se completamente devastada.

Pedras de todos os tamanhos, que foram atiradas pelos manifestantes, ainda se espalhavam pela rua, dificultando a passagem de veículos. Os outdoors e placas de publicidade haviam sido rasgados, quebrados ou pichados. Dois contêineres de lixo estavam pegando fogo no meio da via, embaixo de um semáforo. Um ônibus havia sido depredado e saqueado, segundo o motorista, que ainda aguardava pelo socorro no local.

 

Lixeira queimando no meio da pista (Vitor Villar/Seleção Universitária)

O condomínio residencial Orixás Center Bloco D, que fica no caminho entre o estádio e o Campo Grande, acabou invadido por dois cartuchos de gás lacrimogêneo disparados pela polícia. “Eu e alguns moradores do prédio acabamos inalando o gás, foi um desespero”, contava Luís Carlos Ribeiro, porteiro do edifício.

 

Ônibus foi apedrejado por vândalos (Vitor Villar/Seleção Universitária)

O rastro de violência não parou por aí. Dois ônibus foram apedrejados e incendiados em frente ao Instituto Médico Legal, há apenas alguns metros da zona sul de interdição da Arena Fonte Nova. Segundo testemunhas, o Hotel Sheraton da Bahia, onde estão hospedados os membros da Fifa, no Campo Grande, sofreu uma tentativa de invasão por parte dos manifestantes, que foram contidos pela tropa de choque. Dezenas de lixeiras, placas e outros objetos foram arrancados e incendiados para servirem de proteção. O cenário de destruição fazia as pessoas se perguntarem o que, de fato, aconteceu na cidade.

Inicialmente, a passeata se dividiu em dois grupos: um caminhou em direção ao acesso norte da Arena Fonte Nova, pela Av. Joana Angélica, e outro tentou o acesso sul, pelo Vale dos Barris. Em ambas as rotas, há aproximadamente 1 km do estádio, os manifestantes encontraram a barreira policial.

 

Cartazes se misturam à restos de vidro no chão (Vitor Villar/Seleção Universitária)

Pelo Vale dos Barris, alguns dos integrantes da passeata que caminhavam pela área sul tentaram furar o bloqueio da polícia e foram recebidos com bombas de gás lacrimogêneo pela patrulha posicionada atrás do cordão de isolamento. “Eles [os policiais] deixaram a gente passar até um ponto. Quando começamos a caminhar rumo ao estádio, nos cercaram por trás e pela frente e começaram a jogar bombas de gás pelas costas”, relata a estudante Ana Sampaio, que participou da manifestação. O confronto na região durou quase três horas, com os manifestantes se dispersando e recuando para o Campo Grande, onde a batalha continuou.

O jornalista Eduardo Assunção, que mora na Av. Joana Angélica, viu da janela o confronto na área norte. “Após os manifestantes furarem algumas barreiras policiais, os PMs pediram reforço e o Choque chegou disparando as bombas. Depois disso o movimento dispersou, deixando o clima mais tranquilo”, conta o morador. “A coisa só voltou a esquentar quando os manifestantes fecharam a rua para impedir a passagem de carros da FIFA, mas acabaram liberando depois para ambulâncias com pessoas feridas”, complementa.

 

Pichações em várias paredes e placas da cidade (Vitor Villar/Seleção Universitária)

Aos poucos, os manifestantes acabaram recuando pela Av. Sete de Setembro até o Campo Grande, onde encontraram o outro grupo. Até as 23h, ainda haviam registros de conflitos em pontos mais remotos da cidade, como na região da Ondina e do Iguatemi.

Novos protestos devem acontecer em Salvador antes da partida entre Brasil e Itália, neste sábado, 22, às 16h, na Arena Fonte Nova. Por meio do Facebook, o grupo de manifestantes ainda não se reuniu para discutir se vão caminhar até o estádio novamente ou se tentarão outra rota para a caminhada.
Confira matéria feita para a TV Estadão:

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