Copa marca dez anos da morte do jogador Foé
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Copa marca dez anos da morte do jogador Foé

Victor Costa

26 de junho de 2013 | 12h52

O meia camaronês morreu há dez anos numa semifinal de Copa das Confederações

 

Foé morreu num dia de semi-final de Copa das Confederações (Robert Pratta/Reuters)

Foé morreu num dia de semi-final de Copa das Confederações (Robert Pratta/Reuters)

 

Victor Costa – Seleção Universitária – especial para o Estado

SÃO PAULO – A Copa das Confederações de 2013 marca dez anos de um episódio que chocou o mundo. Em 26 de junho de 2003, pela primeira vez na história, um jogador desmaiou em campo durante uma competição organizada pela FIFA. O meio-campo camaronês Marc-Vivién Foé, com 28 anos na ocasião, desabou no círculo central aos 27 minutos do segundo tempo durante a semi-final contra a Colômbia e veio a falecer no hospital.

Marc-Vivien Foé nasceu em Yaoundé, capital camaronesa, em 1º de maio de 1975. Sua carreira no futebol começou na base do Union Garoua. Porém, seu primeiro time profissional foi o Canon Yaoundé, onde conquistou a Copa de Camarões no ano de 1993 e suas primeiras convocações para a seleção. Em 1994, disputou a Copa do Mundo dos Estados Unidos e chamou a atenção do Lens mesmo com a péssima campanha – Camarões teve a pior defesa com 11 gols sofridos, tomou a maior goleada (6 a 1 para a Rússia) e ficou em último lugar do grupo B, que contava também com Brasil, Rússia e Suécia.

No clube francês ele se destacou e ganhou o campeonato francês de 1997/98. Era presença certa na seleção de Camarões na Copa da França, mas um problema na perna o fez ser cortado, com isso também perdeu a chance de jogar no Manchester United.

 

Foé diputa bola com Raí na final da Copa da França em 98 (Pascal Rossignol/Reuters)

Foé disputa bola com Raí na final da Copa da França em 98 (Pascal Rossignol/Reuters)

 

A transação para os Red Devils não se concluiu, mas nem por isso ele deixou de ir para a Inglaterra. Em 1998, o West Ham confirmou sua contratação. Mas o seu ciclo nos Hummers durou apenas duas temporadas. Isso porque o Lyon acertou o retorno do jogador à França em 2000.

 

Foé foi apresentado no West Ham junto com Paolo Di Canio (Dylan Martinez/Reuters)

Foé foi apresentado no West Ham junto com Paolo Di Canio (Dylan Martinez/Reuters)

 

De volta ao campeonato francês, Foé conquistou novamente o título do torneio em 2002.  Ao lado de Juninho Pernambucano, deu início a uma dinastia de sete conquistas seguidas do Lyon. Suas atuações o levaram a disputar novamente uma Copa do Mundo, desta vez na Coreia e no Japão.

Assim que o mundial acabou, o Manchester City acertou o empréstimo do jogador. Pelos Citzens, ele marcou 9 gols. Dentre estes, um histórico, o último gol do Maine Road, antigo estádio do time azul de Manchester, numa partida contra o Sunderland.

Em 2003, foi convocado para a Copa das Confederações ainda como jogador do City. Sua seleção foi bem no torneio, ficando com o vice-campeonato. Mas para Foé a competição só foi até a semi-final.

A campanha

Classificada como campeã da África, a seleção de Camarões vinha fazendo uma boa campanha. No primeiro jogo, um gol do então jovem Samuel Eto’o, com 22 anos, deu a vitória aos leões indomáveis sobre o campeão mundial Brasil. Na partida seguinte, novamente 1 x 0, agora em cima da Turquia. O empate sem gols diante dos Estados Unidos garantiu aos camaroneses o primeiro lugar do grupo e a vaga para a semi-final.

O adversário era a seleção colombiana. O palco era o Stade de Gerland, em Lyon, na França. O público não era dos maiores, 12.352 pessoas. Afinal, não era um jogo com muito apelo, todos esperavam pelo Brasil, eliminado já na fase de grupos.  O jogo começou agitado, logo aos 9 minutos Idrissou, já na pequena área, recebeu um cruzamento da direita e tocou de cabeça para Ndief, num voleio meio desajeitado, estufar as redes. No lance do gol, Foé estava presente na área, a bola passou por cima dele. Mesmo com o placar adverso, a Colômbia não sentiu o golpe e partiu para cima. A partida começava a ficar emocionante.

 

Foé disputa sua última partida (Robert Pratta/Reuters)

Foé disputa sua última partida (Robert Pratta/Reuters)

 

O intervalo veio para acalmar os jogadores. E foi nesta hora, dentro do vestiário, que o personagem do jogo teria dito a seguinte frase: garotos, mesmo se for preciso morrer no gramado, nós temos que vencer esta semi-final. E foi exatamente o que aconteceu.

Aproximadamente meia hora depois, Marc-Vivién Foé desmaiou em campo para nunca mais acordar. Logo que viu o companheiro caído no gramado, o meia Geremi colocou a bola pela lateral e o árbitro alemão Markus Merk ordenou a entrada do socorro. Tudo isso aconteceu num período de 30 segundos.

 

Jogadores observam Foé caído (Robert Pratta/Reuters)

Jogadores observam Foé caído (Robert Pratta/Reuters)

 

Os médicos retiraram rapidamente o camaronês e o levaram para o hospital. Enquanto isso, a partida continuava com a mesma intensidade. Jogadores, torcida e juiz, sem ter uma noção exata do que acabara de acontecer, agiam normalmente. E o placar não mudou mais. Vitória de Camarões e vaga na final assegurada. A felicidade dos jogadores rapidamente daria lugar ao pesar, com a confirmação da morte de Foé momentos depois do jogo.

Na final, os abatidos e motivados camaroneses enfrentaram a dona da casa, França. A partida ficou marcada pelas homenagens a Foé, tanto dos atletas quanto dos torcedores. Ao entrar em campo, os capitães, Rigobert Song e Marcel Desailly, carregavam um cartaz do ex-companheiro enquanto o hino de Camarões era tocado e os jogadores dos dois times se abraçavam por cima do círculo central.

 

Rigobert Song e Marcel Desailly levam cartaz de Foé (Philippe Wojazer/Reuters)

Marcel Desailly e Rigobert Song levam cartaz de Foé (Philippe Wojazer/Reuters)

 

O técnico dos leões, o alemão Winnie Schaffer, comandou o time vestindo a camisa 17. Apesar do clima de tristeza, o que se viu em Saint-Dennis foram 90 minutos de muita vontade e boas chances criadas pelos dois lados. Já na prorrogação, Thierry Henry recebeu ótimo lançamento de Lilian Thuram e, de joelho, fez o gol de ouro que deu o título à França.

Na hora de levantar a taça, o capitão francês, Marcel Desailly, chamou o capitão de Camarões, Rigobert Song, para fazerem juntos o simbólico gesto em homenagem a Foé.

 

Atitude de Desailly e Song virou figurinha no álbum da Copa das Confederações (Divulgação)

Atitude de Desailly e Song virou figurinha no álbum da Copa das Confederações (Divulgação)

 

Homenagens

Além das homenagens prestadas na final da Copa das Confederações de 2003, ao longo destes dez anos Foé não foi esquecido pelos clubes onde passou e nem pela Fifa. A via que dá acesso ao estádio do Lens, na França, passou a levar o seu nome. Dono do estádio aonde aconteceu a tragédia, o Lyon decidiu aposentar a camisa 17, usada por Foé de 2000 a 2002. Em 2008 foi permitido que o também camaronês Makoun usasse o número como forma de homenagem, e a partir daí a camisa foi utilizada normalmente – hoje, pertence ao meia belga naturalizado francês Malbranque.

 

Placa da via que dá acesso ao estádio do Lens, na França (Divulgação - Liondartois/Wikimedia)

Placa da via que dá acesso ao estádio do Lens, na França (Divulgação – Liondartois/Wikimedia)

 

O Manchester City, assim como o Lyon resolveu aposentar o número no uniforme de Foé. A camisa 23 dos citzens nunca mais foi utilizada. Neste ano, a torcida azul de Manchester prestou uma nova homenagem. Na partida contra o West Ham, onde ele também jogou, as duas torcidas começaram uma salva de palmas durante o minuto 23 no Etihad Stadium.

Antes da final da Copa das Confederações de 2009, entre Brasil e Estados Unidos, Marc Scott, filho de Marc-Vivién Foé, leu um emocionado discurso agradecendo a todas pessoas que o ajudaram depois da morte de seu pai.

Mudanças

Depois da morte de Foé, a Fifa passou a adotar medidas de precaução para evitar novas mortes em campo. O dr. Jiri Dvorak, chefe médico da Fifa, falou ao Estado de S. Paulo como funcionam os novos procedimentos.

“Todos os jogadores que participam de competições da Fifa agora passam por uma série de exames para detectar qualquer tipo de problema cardíaco. Se for diagnosticado alguma complicação o atleta passará por um exame mais detalhado para descobrir a gravidade do problema. E mesmo se eles ocorrerem durante o jogo,  e sabemos que podem ocorrer, estaremos preparados para tudo”, explica o dr. Dvorak.

Desde 2003, rumores de um despreparo por parte dos médicos e a falta de um desfibrilador foram tidos como fatores que contribuíram para a falha no salvamento do camaronês. Dvorak fez questão de desmentir. “Isso é especulação dos jornalistas. Quando Marc-Vivién Foé sofreu o ataque no coração, o socorro foi feito de forma imediata e tentaram ressuscitá-lo. Também havia um desfibrilador e tudo ocorreu dentro do tempo necessário para o salvamento. Mesmo assim, o caso de Foé não poderia ser resolvido apenas com o desfibrilador. O problema dele era patológico, ele sofria de uma hipertrofia no coração.”

Para a Copa das Confederações no Brasil, a comissão médica da Fifa utiliza um novo sistema de salvamento. As equipes médicas de cada país receberam o mesmo treinamento e também um kit que contém itens para o socorro imediato, dentre eles o desfibrilador. “Estamos muito felizes com a preparação dos médicos brasileiros para a Copa das Confederações e Copa do Mundo. Passamos três anos desenvolvendo uma colaboração muito próxima com a principal associação de médicos do Brasil. “, falou Dvorak em tom de otimismo. Agora é esperar para que os eventos brasileiros não fiquem marcados por nenhum triste episódio, dentro ou fora de campo.

Outros Casos famosos

 

Fehér teve uma parada cárdio-respiratória contra o Vitória de Guimarães (Paulo Esteves/Reuters)

Fehér teve uma parada cárdio-respiratória contra o Vitória de Guimarães (Paulo Esteves/Reuters)

 

No ano de 2004, a morte de Foé voltou a repercutir na imprensa internacional porque o jogador Miklos Fehér, de 24 anos, morreu da mesma forma. O atacante húngaro do Benfica havia acabado de tomar um cartão amarelo quando teve um mal súbito e desmaiou em campo. Uma ambulância chegou ao local e o retirou, ainda com vida, do estádio. Menos de 24 horas depois foi confirmada sua morte. Assim como Foé, Feher sofria de cardiomiopatia hipertrófica.

 

Puerta ainda saiu andando do campo (Marcelo del Pozo/Reuters)

Puerta ainda saiu andando do campo (Marcelo del Pozo/Reuters)

 

Em 25 de agosto de 2007, o lateral-esquerdo do Sevilla, Antonio Puerta, foi mais um a falecer em decorrência de complicações cardíacas. Aos 35 minutos da partida contra o Getafe, pela primeira rodada do campeonato espanhol 2007-08, Puerta desmaiou enquanto corria em direção ao seu gol. O jogador ainda conseguiu acordar e foi andando para o vestiário, aonde desmaiou novamente e teve uma parada cardiorrespiratória. Em seguida, foi levado ao hospital e faleceu três dias depois. A causa da morte foi uma encefalopatia postanóxica (falta de nutrientes e oxigénio ao cérebro) causada por uma displasia arritmogénica do ventrículo direito (desenvolvimento anormal de tecidos, concretamente é a substituição progressiva das células por tecido fibrogorduroso), uma doença cardíaca congénita difícil de detectar e diagnosticar. Puerta seria pai menos de dois meses após a sua morte.

 

Muamba marca Modric em sua última partida (Suzanne Plunkett/Reuters)

Muamba marca Modric em sua última partida (Suzanne Plunkett/Reuters)

 

No ano passado o meia do Bolton, Fabrice Muamba, sofreu uma parada cardíaca no jogo contra o Tottenham. O jogador foi socorrido e, depois estar morto por 78 minutos e 15 tentativas de ressucitá-lo, sobreviveu.  O doutor Dvorak explica que neste caso “Muamba claramente foi salvo pelo desfibrilador”. Mesmo sendo um dos únicos a sobreviver, o atleta decidiu abreviar a sua carreira para evitar o risco de morrer precocemente.

 

Ficha do atleta

Nome: Marc-Vivién Foé

Nascimento: 1º de maio de 1975 – Yaoundé, Camarões

Morte: 26 de junho de 2003 – Lyon, França

Clubes:

Canon Yaoundé (CAM) – 1991/1994

Lens (FRA) – 1994/1998

West Ham (ING) – 1998/2000

Lyon (FRA) – 2000/2002

Manchester City – 2002/2003

 

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