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Esporte e política: protestos que marcaram ao longo da história

Machado PR

22 de junho de 2013 | 15h44

Grande número de países e forte apelo da mídia internacional impulsionam movimentações populares


Renato Machado – Seleção Universitária – Especial para O Estado

SÃO PAULO – A onda de manifestações que tomou conta de diversas cidades brasileiras teve como foco as cidades-sede da Copa das Confederações. Antes das partidas, a população foi aos estádios reivindicar explicações sobre o abuso na utilização de dinheiro público para a realização dos torneios.

Este não é um fato novo em países que sediam grandes eventos esportivos. O próprio presidente da Fifa, Joseph Blatter, em entrevista ao jornalista Jamil Chade, do Estado de S. Paulo, comentou as manifestações no Brasil. “Acho que as pessoas estão usando a plataforma do futebol e a presença da imprensa internacional para deixar claro certos protestos”. Blatter cita ainda a efervescência política na sede do Mundial sub-20 deste ano. “Temos visto isso também na Turquia e temos toda a confiança nas autoridades”, comenta.

México, 1968

No entanto, a história nos mostra que nem sempre a movimentação popular consegue alcançar a mídia internacional. Foi o que aconteceu na Cidade do México, pouco antes do início dos 19º Jogos Olímpicos. Na Plaza de Las Tres Culturas, em Tatelolco, Cidade do México, um grupo formado por lideranças estudantis – em sua maioria, membros da UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México) e da IPN (Instituto Politécnico Nacional) –, juntamente de donas de casa, professores e trabalhadores havia sido convocado pelo Conselho Nacional de Greves para mostrar sua insatisfação contra o governo do presidente Gustavo Díaz Ordaz.

Aos gritos de “Povo Unido!” o protesto pacífico acabou em massacre – sendo conhecido como o Massacre de Tatelolco – quando forças do exército mexicano e um grupo infiltrado aos manifestantes, chamado Batallón Olimpia, avançou sobre o povo. Segundo números dos militares o episódio acabou com a morte de 44 militantes, apesar de fontes não oficiais relatarem um número em torno de 300. Dez dias depois, o presidente Díaz Ordaz estava no Estadio Olímpico Universitário para a cerimônia de abertura dos Jogos.

Alemanha, 1972

Os Jogos Olímpicos podem também ser utilizados como plataforma para atos políticos extremistas. Foi o que aconteceu em Munique, 1972, quando o grupo palestino Setembro Negro invadiu as acomodações da delegação de Israel, na Vila Olímpica. O grupo reivindicava a libertação de 234 palestinos detidos em Israel e de dois terroristas alemães. Na madrugada do dia 5 de setembro, 11 atletas foram mantidos como reféns. Dois deles, que tentaram enfrentar os palestinos, acabaram mortos no próprio alojamento.

Após negociações com a polícia alemã, os terroristas exigiram a transferência dos reféns. Durante a relocação para o aeroporto de Fürstenfeldbruck, uma intervenção abrupta da polícia acabou em desastre. No tiroteio em plena pista de voo, nove atletas, cinco terroristas e um operador de voo do aeroporto acabaram mortos. No dia seguinte, uma homenagem foi realizada no Estádio Olímpico de Munique, mas, já em sua terceira semana, os Jogos seguiram até o final.

Coreia do Sul, 1988

Na primeira Olimpíada asiática desde os Jogos de Tóquio, em 1964, as polêmicas estiveram acerca da esfera geopolítica em Seul, capital da Coreia do Sul. A Coreia do Norte, que se reaproximou da União Soviética na década de 80, exigia o direito de dividir a organização dos Jogos. Com a negativa tanto do COI (Comitê Olímpico Internacional), quanto da Coreia do Sul, um mal-estar entre os países foi evidenciado.

Grupos estudantis sul-coreanos, favoráveis à unificação das Coreias, foram então às ruas. Nos meses que antecederam o início das Olimpíadas, centenas de milhares de estudantes, liderados por grupos da Universidade de Yonsei, marcharam rumo ao vilarejo de Panmunjom para se encontrar com lideranças norte-coreanas aliadas. No entanto, forças policiais de Seul impediram tal reunião e entraram em conflito com os estudantes.

Após vários dias de embates, bombas de gás lacrimogêneo e pedras arremessadas, a polêmica acabou por resultar no boicote da Coreia do Norte aos Jogos Olímpicos. A delegação asiática ainda foi acompanhada por Cuba, Etiópia e Nicarágua que também não participaram da competição.

França, 1998

O futebol também serviu de mote para protestos em outros lugares no Mundo. Em 1998, nas vésperas do início do Mundial na França, pilotos da Air France – operadora de voos oficial da Copa do Mundo – entraram em greve devido ao anúncio de uma redução salarial de 500 milhões de francos por ano.

Com início em 1º de junho (a abertura do torneio seria no dia 10/6), a paralisação afetou 85% dos voos da companhia, gerando incertezas quanto ao transporte de torcedores ao país-sede. A adesão inicial de 3.136 pilotos (98% do quadro da empresa) foi, ao longo das negociações, reduzida até que se pudesse manter um mínimo de 25% de voos realizados. Em 10 de junho, dia da abertura do Mundial, uma reunião entre líderes dos grevistas e a alta cúpula da Air France selou o fim da paralisação. Ficou acordado um congelamento nos salários dos pilotos durante sete anos e, assim, os serviços foram gradualmente retomados, sem que a Copa do Mundo fosse drasticamente afetada.

Austrália, 2000

Nas Olimpíadas de Sydney, o povo australiano decidiu organizar manifestações no dia da abertura, 15 de setembro. Na verdade, as movimentações eram de grupos aborígenes que iriam usar a exposição dos Jogos Olímpicos para denunciar a discriminação sofrida durante “os 212 anos de guerra genocida do australiano branco contra o povo indígena”, segundo Isobell Coe, uma das líderes das manifestações, à época, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

No entanto, diversos outros grupos a favor da mesma causa acabaram marcando atividades e movimentações para a mesma data. A falta de apoio, organização e recursos acabou minando os protestos. Apesar disso, na abertura dos Jogos, a bela festa no Estádio Austrália teve grande parte de sua cerimônia relacionada à importância do povo aborígene na formação do país.

África do Sul, 2010

Um ano antes da primeira partida da Copa do Mundo da África do Sul, 70 mil operários dos estádios em todo o país entraram em greve reivindicando melhores salários. As lideranças do grupo exigiam um aumento de 13% no pagamento que, até então era de US$ 1,75 por hora. Após oito dias de paralisações, empreiteiras e trabalhadores entraram em um acordo e voltaram aos trabalhos.

Ucrânia, 2012

O maior torneio europeu de seleções, a Eurocopa, foi sediado em 2012 na Ucrânia e na Polônia. Uma das grandes polêmicas em torno da competição, foi a legalização da prostituição pelo governo ucraniano meses antes do início dos jogos. Com isso, o grupo feminista Femen foi às ruas em manifestações pontuais durante eventos relacionados à Euro 2012. Em coletivas de imprensa, exibições e visitas técnicas, as militantes do grupo demonstravam sua revolta contra o turismo sexual, exibindo seus corpos nus. O ponto alto dos protestos aconteceu durante o tour da taça da Euro, na capital da Ucrânia, Kiev. Integrantes do Femen posaram ao lado do trofeu com os seios a mostra e inscrições contra a competição pintadas no corpo.

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