Pedaço rural do DF mistura culturas de Brasil e Japão
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Pedaço rural do DF mistura culturas de Brasil e Japão

Lucas Vidigal

15 de junho de 2013 | 02h02

A 17 quilômetros do Estádio Nacional de Brasília, agricultores de origem japonesa vivem rotina pacata e avisam: vão torcer pela seleção canarinho

Lucas Vidigal — especial para o Estado

BRASÍLIA – Olhos de torcedores do Brasil e do Japão vão estar voltados ao Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, a partir das 16h de hoje. Enquanto isso, a 17 quilômetros dali, cerca de 40 famílias de agricultores de origem japonesa mesclam tradições dos dois países na Colônia Agrícola Vargem Bonita.

Logo na entrada do bairro, já dá para perceber a influência japonesa: moradores pintaram o asfalto com as bandeiras de Brasil e Japão e penduraram fitas com cores das duas nações.


Entrada do bairro foi pintada com cores brasileiras e japonesas (Lucas Vidigal/Seleção Universitária Estadão)

A Vargem Bonita fica a vinte minutos de carro do centro nervoso de Brasília, mas tem jeitão de cidade de interior. Chácaras pequenas, de 3,9 hectares, chamam a atenção pelas estufas e pela organização rigorosa do arado nas hortas.

Hiromi Gerardo Niho, 46 anos, é um dos agricultores da região. Tímido, ele mostra as plantações de tomate-cereja e de pepino japonês. “Acordo todo dia às 6h para levar meus filhos na escola e, depois, cuidar da plantação”, conta. Depois de colhidos, os frutos são levados a mercados do Plano Piloto de Brasília.


Hiromi Niho planta hortaliças em chácara com a idade de Brasília (Lucas Vidigal/Seleção Universitária Estadão)

De acordo com a Administração Regional do Park Way, bairro que responde pela Vargem Bonita, os agricultores locais abastecem as 260 famílias que moram na região e compram produtos em pequenos mercados na entrada do núcleo rural.

Criada a pedido do presidente Juscelino Kubitschek em 1959, um ano antes da inauguração de Brasília, a Vargem Bonita recebeu imigrantes japoneses com incentivos do governo para abastecer a cidade que viria a nascer.

Hiromi nasceu na própria colônia agrícola. Ele é dekassegui, nome dado para descendentes de japoneses que vão morar no Japão. Ficou por lá entre 1995 a 2003, quando decidiu voltar. “Aqui eu tenho a chácara dos meus pais, uma estrutura já pronta para trabalhar. Melhor para mim”, comenta.

Torcida dividida

A chácara do casal Keisuke e Lucia Miyahara vai ter lados opostos na partida de abertura da Copa das Confederações. É que os dois vão torcer pelo Brasil, mas o filho Lucas, 10 anos, apoia a equipe japonesa. “Até nossos times são diferentes. Eu sou santista e ele, palmeirense”, diz.

Brasiliense, Keisuke também morou no Japão, em Niigata, mesma cidade onde os pais nasceram. Após quatro anos lá, decidiu voltar à Vargem Bonita em 1998. “Mesmo com violência e outros problemas sociais, o Brasil é o Brasil. Sou mil vezes aqui.”


Keisuke Miyahara leva em caminhão as flores que colhe (Lucas Vidigal/Seleção Universitária Estadão)

A floricultura é a especialidade da família Miyahara. É o próprio Keisuke quem leva, de caminhão, as flores ao comércio – que ficam inteiras mesmo com os 10 cachorros moradores da chácara. A experiência no Japão trouxe especialidades ao agricultor. “Tenho três tipos de sementes japonesas”, afirma.

Tradições preservadas

Ao andar pela parte de dentro do núcleo rural, dá para ver um descampado de terra batida em formato triangular. Só dá para reconhecer que é um campo de beisebol quando alguém avisa. “Aqui, ensinamos as crianças a praticarem o esporte, tradicional no Japão. Vem gente de Goiânia jogar aqui, às vezes”, explica Luiz Uema, 70 anos.

Luiz é presidente da Associação Esportiva e Cultural da Vargem Bonita. Nasceu em uma fazenda próxima a Presidente Prudente (SP) até vir ao Distrito Federal com a família em busca de novas oportunidades.

Na associação em que Luiz trabalha, é possível ver também o campo de gatebol, esporte com taco e bola difundido entre descendentes nipônicos do Brasil. Quando não tem jogos, a pequena arena é palco de festas de moradores da Vargem Bonita. Além de esporte, o galpão da sede recebe crianças da região para aprender a língua japonesa.


Ex-radialista, Luiz Uema dirige associação que tem até campo de beisebol (Lucas Vidigal/Seleção Universitária Estadão)

Fã de Luiz Gonzaga, o ex-radialista considera que nem parece filho da terra do sol nascente. Está prestes a organizar uma feijoada – que também terá iguarias japonesas – e está de olho na Copa das Confederações, com desconfiança em relação ao time de Luiz Felipe Scolari. “Não tem time. Antigamente, você via todo mundo parando para ver os jogos”, relembra, saudoso.

Apesar dos traços orientais e de preservar tradições do Japão, Luiz não hesita ao falar sobre quem vai apoiar no torneio. “Sou brasileiro e minha torcida na Copa das Confederações é toda pelo Brasil.”

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