Galês repete erro da Copa e é punido por tackle “pilão”

brunoromano

08 de fevereiro de 2012 | 22h33

O Comitê Disciplinar do Six Nations deu sete semanas de suspensão para o foward galês Bradley Davies por um tackle “pilão”, contra a Irlanda, no duelo do último fim de semana. No mesmo jogo, o irlandês Stephen Ferris foi penalizado por lance semelhante e também passou por julgamento – segundo indicação do italiano Achille Reali, comissário da partida. Ferris, no entanto, foi absolvido de qualquer punição.

Os lances de fato foram diferentes. Davies exagerou: tirou as duas pernas do irlandês do chão, não terminou o tackle com segurança e colocou em risco a integridade de um companheiro de rugby. Por outro lado, Ferris acabou se empolgando e erguendo lateralmente uma das pernas de seu adversário. Segundo a regra 10.4 (veja na íntegra abaixo), o segundo lance também é considerado penalidade. Tanto que, não só foi apitado imediatamente, como acabou definindo a partida: Gales converteu o chute e venceu por dois pontos. No futebol, muito juiz se recusa a apitar pênaltis depois dos 45 minutos.

Mas a questão ainda parece mal resolvida. Há pouco tempo, a própria seleção galesa perdeu a maior chance da sua história de ir para a final da Copa do Mundo por um tackle alto. Seu capitão na partida, Sam Warburton, fez algo parecido com o lance de Davies e acabou sendo expulso. Warburton, que até então era o melhor jogador de Gales na Copa, deixou seu time na mão na metade do primeiro tempo.

A culpa foi dada à inexperiência de Warburton. O garoto de apenas 23 anos, que vinha assumindo bem tamanha responsabilidade, ficou chorando por meia hora do lado de fora do campo. Mas será que, da semifinal do Mundial até a estreia do Six Nations, ninguém falou sobre isso nas concentrações de Gales? É possível que o tema não tenha sido abordado e que a própria delegação não tenha criado uma “regra” interna para o assunto? Ou será que, no calor da partida, Davies achou que um tackle “pilão”, mesmo com punição, daria o recado que ele queria passar para os irlandeses em um jogo de tanta rivalidade?

O fato é que o lance típico em lutas de jiu-jitsu e MMA não é mais permitido no rugby – por um bom motivo. Por mais que seja gostoso encaixar um tackle desse, a instrução do IRB tem sua razão e pode evitar um problema futuro. Mas por que então os jogadores continuam fazendo isso?

A primeira parte da resposta vem da interpretação do juiz. Os jogadores de rugby, principalmente no nível de uma Copa do Mundo e Six Nations têm experiência e gostam de testar os limites dos árbitros. Isso vai desde um offside, um passe para frente ou até o tal tackle pilão. Em alguns jogos da própria Copa, como Irlanda x Itália no último duelo da fase de grupos, lances muito parecidos tiveram punições diferentes. Talvez pelo ângulo do juiz, pois sempre será um lance de interpretação – ainda que isso só sirva para gerar polêmicas.

A segunda parte é quase uma explicação da física. Um professor pode explicar melhor do que eu, mas caras do tamanho de Warburton e Davies, quando tentam parar scrum halfs ou pontas mais miúdos, como o francês Vincent Clerc, acabam levantando o adversário no próprio movimento do tackle. O antídoto para isso é posicionamento e o rápido trabalho de pernas do defensor. E isso pode ser treinado.

Como não é mais permitido este tipo de tackle, topar de frente com um adversário menor – que por algum motivo estúpido achou que poderia passar por ali – requer agora mais mobilidade. Pernas bem postadas, choque com o ombro e costas retas são a pedida por aqui.

Com uma boa postura, o tackleador vai poder acelerar seu movimento corretamente e derrubar o adversário sem correr o risco de dar um pilão. As seis semanas de gancho vão fazer Davies pensar nisso. No fim, o que vale para o juiz não é exatamente a intenção, mas o tackle alto em si. Derrubar um jogador de forma ilegal, colocando sua saúde em risco é passivo de punição.

Lei 10.4: “Levantar um jogador do chão e soltá-lo, enquanto seus pés ainda estão no ar, assim como sua cabeça ou parte superior do corpo, é considerado uma jogada perigosa.”

Tarde demais: Ferris lamenta lance que definiu a partida contra a Irlanda

Tudo o que sabemos sobre:

GalesIrlandaSix NationsStephen Ferris

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.