O OLHAR DO TREINADOR

brunoromano

24 de fevereiro de 2012 | 14h00

Depois de um rápido encontro com um pai preocupado, me peguei pensando nos treinamentos de crianças, tendo em vista o rugby moderno. Sua dúvida não era a famosa: “meu filho vai se machucar”? Era sobre a habilidade do filho em tacklear, ou seja, derrubar seus adversários. Que alívio, um parente com uma preocupação pertinente!

Essa habilidade ou técnica (alguns dirão atitude) pode e deve ser ensinada, mas em que nível? Será que aquilo que estou ensinando vai servir para esta criança em seu papel dentro do time? A resposta mais rápida é: “claro, ele joga rugby e precisa saber como tacklear bem!”.

Minha questão em cima disso é simples: e se, em um jogo, ele precisar fazer apenas três tackles, dependendo de sua posição? Alguns diriam que ele não estaria se esforçando o suficiente ou se colocando em posição de realizar tackles. Mas acontece que ele está jogando de halfscrum (número 9), sua linha de defesa é implacável e, fazendo o papel de uma segunda linha defensiva, ele quase não precisa tacklear. Quanto de seu treino deve ser gasto então com isso?

É só um exemplo. Obviamente, o tackle é uma habilidade fundamental. Mas quando um treino mais completo deve dar lugar a uma visão mais especializada? Imagine pilares treinando chutes ou fullbacks pulando em lineouts. É algo que não costuma acontecer, apesar de já ter visto primeiras linhas apostando, a 50 m dos postes, para ver quem acertava – tudo antes do treino começar.

É melhor ter um time com jogadores que sabem fazer tudo bem ou que façam seus papéis extremamente bem? Como desenvolver ótimos atletas sem tirar importância de algumas habilidades básicas que nem sempre são usadas? Lembre-se de que estamos refletindo sobre um rugby amador no Brasil. Mas a questão também é tema do mundo profissional.

Ritchie McCaw, considerado por muitos como o melhor defensor/tackleador do mundo, é um extremo conhecedor do jogo de rugby e suas regras. São capacidades dignas de um excelente capitão e camisa 7. Mas peça para ele te passar a bola com “spin” a 30 metros de distância sob pressão. Com certeza não terá o mesmo resultado se o pedido tivesse sido feito a Quade Cooper.

Nem por isso, McCaw não treina seus passes. Aliás, faz muito isso. Já o vi praticando junto dos fowards dos Cruzaders. Mas grande parte de seu treino provavelmente é dedicada a estudar as quebras de jogo (ruck), entender as interpretações das regras e se esforçar para encontrar uma melhor técnica e posição de corpo para roubar uma bola.

Não é necessário negligenciar outras partes do treino, mas algumas merecem mais atenção. É possível ter um segunda linha que não saiba chutar (não há muitos John Eales por aí), mas ter um que não consiga pular e pegar a bola ao mesmo tempo é imperdoável.

Para melhorar suas habilidades básicas, coloque-se mental e fisicamente nas situações que vai encontra no jogo e tente dar a elas a melhor solução – em cima do que aprendeu. Quando isso estiver bem polido, talvez seja a hora de distinguir seus melhores atributos e aperfeiçoá-los. Eleve-os de nível. Enquanto isso, mantenha vigiadas as outras habilidades básicas.

“Se você dá mais atenção a alguma área, terá de se aplicar menos a outras. Você tem um tempo limitado e, se tentar fazer tudo, vai acabar fazendo poucas coisas bem”.

O mesmo pode servir para a minha escrita. Mas, enquanto aquele garoto errar seus tackles continuarei falando sobre isso. /J.M.

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