As meninas do Brasil
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As meninas do Brasil

Silvana Lima e Tainá Hinckel vão representar o país nos próximos eventos da WSL

Thiago Blum

24 de abril de 2018 | 23h10

Uma é experiente, a outra, promessa.

A mais velha é cearense, tem 33 anos, quatro vitórias no WCT e já foi duas vezes vice-campeã mundial.

A novata, catarinense, apenas 14 e com a meta já traçada: conseguir vaga entre as melhores do planeta.

Silvana Lima e Tainá Hinckel são duas líderes bem diferentes. Gerações de guerreiras com uma missão: colocar o surfe feminino do Brasil onde o masculino já chegou.

Após 3 etapas em 2018, Silvana está em décimo no ranking mundial. Na posição 59 da divisão de acesso, Tainá tem uma longa jornada para ganhar seu espaço.

Em maio, esses caminhos distintos vão se cruzar duas vezes. Silvana e Tainá estarão ao lado de Gabriel Medina, Adriano de Souza e Filipe Toledo no time verde e amarelo que vai disputar a Founders’ Cup, na já famosa piscina de Kelly Slater. Em seguida, o encontro será em Saquarema, palco do único evento da elite da WSL no país. Pelo segundo ano seguido, Tainá, que é treinada pelo próprio pai, o ex-surfista profissional Carlos Kxot, vai entrar como convidada na chave principal.

Qual o segredo para apresentar algo diferente em relação às outras competidoras?

Silvana – O surfe feminino está bem equilibrado, as garotas estão surfando muito forte, está bonito de ver. Isso ajuda uma puxar o ritmo da outra. Eu já tenho experiência e isso é bom. Acredito que a maioria das competidoras faz o mesmo treinamento, dentro e fora d’água. Então, acho que é mais aquele momento de estar com a prancha certa, cabeça boa e a parte física também. Ir para a água e mostrar o melhor, pegar a onda certa, aí que faz a diferença para ganhar as baterias e chegar à final. Às vezes depende de sorte, mas com a energia boa, concentração e foco, é difícil ser barrada.

Após 3 etapas em 2018, Silvana Lima ocupa a 10ª posição no ranking mundial

Apesar da pouca idade, você já tem bastante experiência e muita história para contar. Começar cedo é fundamental para ter sucesso no esporte?

Tainá – Acho que começar mais tarde não significa que vai ser inferior a quem começou mais cedo. Depende muito de talento e outras coisas influenciam. Mas quando você começa mais cedo, as coisas são mais fáceis, de chegar no caminho, bater mais recordes e tudo mais. Não é fundamental, mas ajuda muito.

O Brasil é maioria no CT masculino. O que falta para as meninas brasileiras ocuparem mais vagas na elite?

Silvana – É preciso voltar a ter competições do feminino no Brasil. E patrocínio, porque através das competições as meninas vão aparecer mais na mídia, todo mundo vai saber quem é a garota e os empresários vão começar a apoiar. Através disso, as meninas vão poder disputar o WQS para se classificar para o WCT.

Como funciona a relação pai-técnico?

Tainá – É muito boa, porque ele sempre vai querer o meu bem. Ainda mais que ele entende sobre o assunto. Tem algumas coisas difíceis, porque um técnico não pode, digamos, brigar como um pai brigaria. Mas se ele tomar aquilo como técnico, não levar na parte de pai, é muito positivo.

Com apenas 14 anos, Tainá Hinckel vai representar o Brasil na etapa de Saquarema do circuito mundial

A próxima parada do tour é em Saquarema. Como se sente competindo no Brasil?

Silvana – É muito bom estar em casa, com toda aquela energia da torcida brasileira. Ainda mais em Saquarema, que é como o Maracanã do surfe. Me sinto muito bem, feliz, confortável, mas ao mesmo tempo querendo mostrar resultado.

É possível pensar em profissionalismo aos 14 anos? Como divide o tempo de treinos e viagens com os estudos?

Tainá – Com certeza. Desde que comecei, eu almejava me tornar profissional. Em relação aos estudos, algumas situações são difíceis, porque como sou nova, é difícil das pessoas entenderem. “Como assim? Você tem 14 anos e já viaja o mundo?”. As pessoas não entendem muito bem. É difícil, porque você quer fazer outras coisas da sua idade. Eu nunca fui numa gincana da escola, porque eu sempre estava viajando, sempre tinha alguma coisa. Momentos que juntavam todos meus amigos. E é difícil também ter muitos amigos na escola, porque eu nunca estou. Mas é bom também, porque sempre que eu volto tem uma experiência nova pra contar, várias coisas que as pessoas não acreditam que eu vivenciei e eles só viram pelo caderno.

As baterias em piscinas agora são realidade. O que espera dos dois eventos marcados para o Surf Ranch do Kelly Slater?

Silvana – A gente teve uma experiência no ano passado. A onda não é tão fácil assim e pra julgar, principalmente, não deve ser tão fácil para os juízes. Então esse dois eventos vão ser mais de testes. Bom que agora vai ter o de equipe, para ganhar experiência conhecendo mais a onda, de olho na etapa do WCT de setembro.

Silvana Lima em ação nas ondas perfeitas do Surf Ranch de Kelly Slater na Califórnia

Qual é a expectativa para disputar o CT de Saquarema pela segunda vez?

Tainá – Estou bem ansiosa pra esse evento. Como vai ser minha segunda vez, acho que vou estar bem mais acostumada. Na primeira estava bem nervosa e as coisas ficaram bem em cima, quando eu fui convidada para a triagem. Eu não estava preparada psicologicamente, mas foi uma experiência muito boa. Estou com uma expectativa muito grande para essa segunda vez, acho que vai ser bem melhor. Estou treinando bastante e quero muito que as coisas aconteçam.

De olho no WCT 2019, Tainá Hinckel pretende disputar o maior número de etapas do WQS

Tóquio-2020 vai marcar a estreia do surfe em Olimpíadas. Gostaria de fazer parte deste capítulo histórico?

Silvana – Vai se um sonho fazer parte dos Jogos Olímpicos. Agora é treinar muito para chegar bem preparada para defender a bandeira do Brasil.

Principal meta para 2018?

Tainá – É me dar bem neste CT, fazer uma boa apresentação, o que é o mais importante. E também correr o máximo de eventos que puder e ter bons resultados. Terminar o ano bem posicionada, de repente com a vaga no CT. E me divertir bastante também, surfar bastante.

A polêmica da presença dos tubarões próximos às áreas de competição é o tema do momento. Qual sua opinião?

Silvana – Eu morro de medo, mas é uma coisa que teremos que conviver. Existem praias que tem mais e outras que tem menos. Se pudesse competir nas que tem menos ou até mesmo nenhum, seria bem melhor.

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