‘Aumenta a responsabiidade’
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‘Aumenta a responsabiidade’

Ítalo Ferreira defende título em Bells Beach como atual líder do ranking mundial de surfe

Thiago Blum

15 de abril de 2019 | 10h44

Festa potiguar na Austrália – foto: WSL

Falar em favoritismo ao título é ser óbvio demais.

E não porque ele venceu na abertura da temporada e vai vestir a lycra amarela de líder no Rip Curl Pro Bells Beach, etapa mais tradicional e cultuada da WSL, que começa nesta terça-feira no Estado de Victoria, Austrália. Ítalo Ferreira está voando.

Trocadilhos a parte, não apenas pelos aéreos ‘impossíveis’ de completar sobre as ondas.

Escolher as melhores fotos para ilustrar uma reportagem é tarefa complicada, pelo excesso de opções, claro. Seja um registro nas férias em Baía Formosa-RN,  seu playground preferido, ou no último minuto de uma decisão de campeonato.

foto: WSL

O 4.º melhor colocado de 2018 está sobrando fisicamente. Seu repertório das manobras parece ser infinito. Não tem medo de arriscar em nenhuma situação.

E, na minha opinião, o mais importante: dos 34 atletas do tour, é o que tem a maior capacidade de improvisar e surpreender adversários e juízes. Basta uma brechinha – como a dada por Kolohe Andino na final da Gold Coast, quando o americano tinha a prioridade – para aprontar algo diferente do habitual e virar o placar.

Foi em Bells Beach que o potiguar de 24 anos conquistou o primeiro título na divisão de elite. Numa final histórica, bateu o tricampeão mundial e local Mick Fanning, que se despedia oficialmente das competições.

Bells Beach 2018: Ítalo Ferreira vence Mick Fanning e toca os sino da etapa mais tradicional da WSL

A responsabilidade aumentou. Desta vez, Ítalo chega como um dos poucos que conhecem a sensação de tocar o sino sagrado que compõe o troféu do evento.

Numa pausa na rotina cansativa de treinos dentro e fora d’água, Ítalo conversou com Tubos e Aéreos. Quem ouve os áudios das respostas, dificilmente acredita que a voz calma e pausada pertence a um competidor tão feroz e faminto.

Fale sobre a vitória em Duranbah. Tema livre.
A vitória em D-Bah foi animal, uma semana incrível para mim. Tive boas performances, venci também o campeonato de aéreos. Dois anos atrás, tive uma lesão nesta mesma praia e tinha prometido pra mim mesmo que não iria surfar mais nela, só em Snapper mesmo, onde sempre rola o campeonato. Mas aí, fui meio que obrigado. Tudo tem um propósito, fui abençoado e deu altas ondas em todo o evento.

Você está na frente e nas duas próximas etapas (Bells e Keramas) defende o título. Aumenta a responsabilidade para se manter com a camisa amarela?
Claro que aumenta a responsabilidade e o peso. Mas é manter a cabeça no lugar, pensar que tudo começa do zero de novo e fazer o meu trabalho dentro d’água. É assim que tenho me comportado e assim que vou continuar. Treinando e buscando evoluir em cada surfe e ir se soltando, pra quando começar eu esteja preparado.

Atacando a direita de Bells Beach durante a conquista do ano passado – foto: WSL


Especificamente em relação a Bells Beach, o que espera?
Espero um bom resultado aqui, sem dúvida. Virou uma das minhas praias favoritas (risos), pelo fato de ter vencido pela primeira vez aqui e ter alcançado um dos auges da minha performance. Estou treinando, usando as pranchas e me adaptando ao lugar frio, que não é fácil.

Você líder no CT, Jadson André na ponta do QS. É o Rio Grande do Norte comandando tudo.
Isso é pra mostrar que o RN está aí pra bater de frente com qualquer um, tanto no Brasil quanto do mundo. A gente vem representando muito bem nosso Estado. Isso é bom também para o esporte local, para incentivar as crianças a buscar espaço. O Rio Grande do Norte tem muitos garotos bons e espero poder ajudá-los de alguma forma.

Voando nada baixo durante a vitória na etapa de Portugal em 2018

Depois apenas da etapa da Gold Coast, já dá pra dizer se o novo formato da competição (apenas uma repescagem no round 2 e mata-mata eliminatório a partir da 3.ª fase) é melhor ou pior que o anterior?
Agora exige um pouco mais e te faz surfar sempre no limite. Se ficar em 2.º, vai perder a bateria e vai pra casa. Tem de ir pra cima e está bom esse formato. O outro dava uma cara diferente, porque no rund 4 com 3 atletas, a galera podia mostrar um pouco mais de surfe por não ter nada a perder. Mas aí tinha muita chance. Agora, com mata-mata a partir do round 2, está bem mais interessante.

O que mais impressiona os juízes no seu surfe: potência ou improviso?
Eles nunca sabem o que eu vou fazer, principalmente quando preciso de nota. Sempre ficam esperando algo mais de mim. Isso é bom, porque não fica na mesmice. Eu tenho sempre tentado alguma coisa diferente, alguma manobra que possa executar ali quando preciso de bastante nota. E lógico, ter um ‘power surfe’ e velocidade. Acho que isso, somado ao talento, foi o que vocês acompanharam na primeira etapa (risos).

foto: WSL

Ano passado você venceu 3 etapas e isso não foi suficiente para chegar no Havaí com chances de título, por não ter conseguido outros bons resultados, apenas um 5.º lugar. Regularidade é a chave para ser campeão da temporada?

Ano passado tive muitos problemas, foram altos e baixos. Venci eventos, mas tive muitos resultados ruins. Minha mente também não me ajudou. Tenho trabalhado um pouco mais e acredito que estou preparado, e lógico, sempre tentando aprender ao máximo. Esse ano, e já em alguns torneios de 2018, eu comecei a fazer as coisas do jeito que gosto, da maneira que me sinto bem, e é isso que importa. Eu estando bem, vou conseguir a performance que quero, por estar feliz. Começar a fazer as coisas no meu tempo, na minha maneira, sem tanta pressão por trás. Eu surfo porque amo, e amo competir. Então, vou surfar o horário que quero, acordo a hora que quero. Comecei a fazer isso e as coisas aconteceram.

Existe alguma etapa que você não gosta de competir? Ou por medo ou por seu surfe não encaixar como gostaria?
Não tem etapa que não goste, mas tem aquelas bem difíceis, como Pipeline. Você não consegue treinar lá. É um dos lugares mais chatos de surfar e de competir. Ou está muito bom, ou está muito ruim. Pipe é sempre um desafio. Mas tenho crescido e evoluído neste tipo de onda. No ano passado, superei os meus medos, consegui pegar ondas maiores e tubos grandes, me posicionar melhor na bancada e saber onde pode entrar a melhor onda. Isso aí é experiência, o tempo dedicado naquele pico. Como não tenho muita paciência, às vezes é difícil surfar lá, porque gosto de pegar muitas ondas. Ano passado, em alguns mares que realmente estavam difíceis, tentei ir lá e consegui pegar algumas ondas. Acredito que isso vai me ajudar no futuro.

Encaixado na esquerda perfeita de Pipeline


Se você fosse o repórter, o que perguntaria a Ítalo Ferreira? O que gostaria que as pessoas soubessem, que nunca te perguntam?
Perguntaria qual é o maior prazer quando volta pra casa. E iria responder que o que me dá mais prazer é quando levo um troféu. É tudo aquilo que batalhei durante e antes do evento. As manhãs geladas dependendo do lugar, ou as manhãs quentes. Horas de treino, dias de treino físico, aqueles dias que você (risos)… não aguenta mais, mas tem aquele desejo de treinar para tentar conseguir o objetivo. Então, o troféu seria meu maior prazer, de ter quando volto pra casa.

por @thiago_blum