Bate-papo com Teco Padaratz
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Bate-papo com Teco Padaratz

Top e ídolo do Brasil do passado fala do surfe de ontem e de hoje

Thiago Blum

12 de janeiro de 2020 | 16h08

foto: arquivo / @tpadaratz

Ele foi profissional de altíssimo nível.

Liderou e marcou época no surfe brasileiro e mundial.

Referência dos mais jovens.

Um dos primeiros a encarar o circuito mundial de forma completa.

Ganhou respeito e se tornou representante dos atletas do tour.

foto: tecopadaratz.com.br

Depois virou empresário, comentarista, músico, ator… e se pintar mais alguma coisa, pode ter certeza que ele vai topar e dar conta do recado.

Só não peça para Teco Padaratz ficar longe do mar.

O balanço agitado das águas salgadas é o que move esse jovem vovô de 48 anos.

Uma conversa com ele, mesmo que rápida, é uma viagem deliciosa pelas ondas do planeta.

Você é da primeira geração que desbravou o mundo no cenário internacional. Faz tempo… passou rápido?

Muito rápido, parece até que foi ontem que a gente tava entrando no circuito mundial, meio sem saber nem pra onde ir de vez em quando.  Pro Japão por exemplo, a gente nem sabia direito onde era a praia. E hoje a gente vê essa estrutura no circuito – e internamente na vida dos atletas – uma condição tão boa,  a sensação é de que valeu a pena. Aquilo que a gente começou, aquela loucura – meu pai achava que era uma loucura, toda uma sociedade na época achava que era uma loucura – e hoje é olímpico. Fica aquela sensação de dever cumprido, eu tenho.

O esporte mudou bastante nessas 3 décadas. Qual é a diferença que você enxerga, principalmente na questão técnica?

As grandes manobras de aéreo. Uma mudança que mudou até o critério de julgamento. A gota d’água foi uma onda do Filipe Toledo, em Jeffreys Bay, na África do Sul. O que ele fez foi muito mais do que 10 dentro dos critérios antigos, dois super-aéreos… ele merecia 20! (veja a onda no player abaixo) O critério antigo não analisava a onda considerando aquele grau de dificuldade e foi muito diferente dos outros. É uma grande revolução que aconteceu, por isso o nome ‘Brazilian Storm’ é tão forte e conhecido no mundo inteiro, porque a gente mudou muita coisa… mudou a regra. A gente mudou a audiência dos campeonatos, das transmissões e os patrocinadores, principalmente os do fora do meio do surfe. Eles estão acostumados a patrocinar grandes eventos, e de repente viram retorno no surfe. Uma semente que foi plantada muitos anos atrás com transmissão própria do circuito mundial. A gente gerando nosso próprio sinal, criando nosso próprio público na internet e apostando naquilo. E deu resultado, hoje temos uma audiência incrível.

Na sua época a abordagem das manobras eram mais nas bordas. Da galera de hoje – em meio a toda essa modernidade – quem mais se aproxima do seu estilo ?

Um cara, que se não me engano cheguei a competir com ele no fim da minha carreira, o ‘Ace’ Buchan, que usa muito as manobras de borda. Apesar de saber dar um aéreo, não é tão ‘aeralista’. Talvez eu me identifique um pouco com ele, porque não dá pra comparar né? Até o nosso equipamento na época não comportava essas manobras que eles estão fazendo hoje, as pranchas tiveram que mudar muito para eles poderem fazer isso. Os caras estão surfando de 5’9″ ou 5’10” – 5 pés e 9 polegadas. A prancha que eu cori a final na França em 1994 contra o Kelly Slater era uma 6’4″ e em um mar normal, de 1 metro, 1 metro e meia. E pô… 6’4″ é o que os caras usam no Havaí agora, em Pipeline. Eu não consigo nem remar com uma 6’4″ no Havaí. São tempos diferentes, difícil a comparação. Eu encaro mais da seguinte forma: é quase como uma corrida de revezamento. A gente fez o nosso trabalho, passamos o bastão e eles correram muito mais rápido.

foto: divulgação

Onde essa revolução pode parar? Existe um limite?

Não. Nós temos uma escola de surfe no Brasil muito vasta, temos um litoral gigantesco e com muita gente surfando, principalmente a garotada. E já estamos vendo despontar alguns talentos de 9 ou 10 anos que são sobrenaturais, com uma habilidade inimaginável para uma criança. E estão sendo muito bem cuidados, porque ainda não estão em grandes competições ou patrocínios, não é bom colocar isso na cabeça de uma criança muito cedo, mais na maioridade. Assim como foi feito com o Gabriel Medina, o dinheiro chegou pra ele quando já estava com 18 ou 19 anos, com uma equipe em volta muito estruturada para segurar a onda dele e isso não subisse à cabeça.

foto: divulgação

Você é músico, ator, empresário e comentarista. Mas nunca longe do mar, né?

Não dá pra ficar longe da praia. Se eu fico mais de uma semana em São Paulo, por exemplo, começo a tremer quando acordo, falta sal no corpo. A gente vive perto do mar e não dá pra se distanciar.

E o surfe na piscina?

É a evolução do esporte.  Ainda estamos vendo as primeiras experiências, ainda vai ter a piscina de 2 a 4 metros de onda, com tubo e pé e que quebra a prancha. Ainda vai se desenvolver isso, é questão de tempo., ter outros sistemas evoluindo e tornando isso rentável. Acho que esse é o primeiro passo, tornar uma estrutura cara dessa em rentabilidade. Mas com certeza é o futuro do esporte, não tem como evitar. Não que vai mudar do mar pra lá, mas vai incluir-se mais ondas de piscina no cenário das competições, porque ali você tira o fator incerteza do atleta pegar ou não a onda certa. Ali vai no talento e na frieza de cada um, realmente onde o atleta é provado contra o adversário da maneira mais autêntica e justa possível.

por @thiago_blum

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