Existe limite para o surfe brasileiro?
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Existe limite para o surfe brasileiro?

Ítalo Ferreira é campeão mundial, em mais um ano dominado pelo time verde e amarelo

Thiago Blum

20 de dezembro de 2019 | 01h30

foto: WSL

É tudo nosso… de novo!

Não sobrou nada para ninguém.

Pela 4ª vez nos últimos 6 anos, o troféu do mundial da WSL vem para o Brasil.

Uma supremacia que se espalha pelos 7 mares e fica mais evidente a cada temporada.

Um cenário quase surreal para quem acompanha o esporte das ondas há quase 4 décadas.

Não faz muito tempo que o surfista brasileiro era motivo de chacota e risinho dos gringos quando o mar subia.

foto: WSL

Claro… sempre tivemos representantes nas ondas mais pesadas.

Mas era raro – pra não dizer impossível – ver um atleta tupiniquim nas finais de um evento no Havaí.

Foi preciso remar muito e forte.

Dropar no crítico… e entubar profundo… mesmo sabendo que nem sempre haveria saída, muito menos notas altas.

foto: WSL

O novo século derrubou de vez a distância incongruente entre o quase e o sucesso pleno.

Quando Gabriel Medina levantou o troféu mais cobiçado em 2014, pensei que havia chegado o auge.

‘Cara… campeão mundial… e em Pipeline!!!!! Quem disse que nossos atletas não sabem surfar no palco maior… na arena mais famosa e temida??’

Era só o começo.

A façanha do menino de Maresias abriu a comporta do desconhecido.

E aproximou o sonho de muitos.

Adriano de Souza foi o primeiro a abraçar a causa, de um maremoto, ou sei lá… um tsunami que por aqui, foi chamado de ‘Brazilian Storm’.

foto: WSL

Vestir a lycra amarela – que representa a liderança do ranking – virou rotina.

Afinal de contas, é uma cor que estamos acostumados desde sempre.

Um brilho que foi tomando conta do visual, ofuscando australianos e americanos.

Ok, tivemos um breve hiato de domínio havaiano.

Mas o contingente não parou de crescer.

Viramos maioria.

Óbvio. Tempestade que é tempestade, se espalha e toma conta.

Veio o bicampeonato de Medina.

foto: WSL

Uma prévia nada inesperada para uma temporada que além do mundo, também valeu vaga representar a bandeira nacional na estreia do surfe como esporte olímpico.

Vimos batalhas épicas.

6 títulos em 11 etapas.

Para chegar em dezembro e se dar conta de que tudo que falamos e vimos até então, era pequeno demais perto do que estaria por vir.

foto: WSL

Vários cenários passaram pela mente a partir do do dia que abriu as disputas do ‘Billabong Pipe Masters 2019’.

Fiz combinações, contas… até previsões.

Mas minha expectativa foi superada uma dezena de vezes.

Claro que pensei numa decisão entre Ítalo Ferreira e Gabriel Medina.

Mas confesso que nunca levei essa hipótese muito a sério.

Seria demais, não acham??

E foi.

Mas antes da final das finais… do desfecho praticamente sem adjetivo para definir, ambos mostraram mais uma vez, porque o Brasil é o país do surfe.

foto: WSL

Desde que venceu em Portugal e assumiu a ponta da classificação, Ítalo disse que só ia pensar em si mesmo para chegar ao caneco.

Desde que perdeu em Peniche – naquela fatídica interferência sobre Caio Ibelli – era certo que Medina iria colocar ainda mais peso na sua já conhecida ambição competitiva.

Dito e feito.

O potiguar atropelava, pouco preocupado em dar espetáculo.

E o paulista dava show… mesmo quando fazia o trivial.

A semana de ‘descanso’ por causa das más condições, ajudou a potencializar ansiedade, pressão e tensão.

Mas chegou o dia 19… não dava pra adiar mais.

foto: WSL

Num dia só, das oitavas até a decisão.

Ítalo, que já havia eliminado Jadson André, tinha pela frente um campeonato praticamente local.

Deixou pra trás na sequencia, Peterson Crisanto e Yago Dora.

O caminho de Gabriel parecia mais tortuoso.

Fez questão de usar o regulamento ao reencontrar Caio Ibelli, mais uma vez nas oitavas.

Vacilo esquecido.

Vez de pegar o ‘dono da área’.

E alguém acha que o camisa 10 tem medo de fantasma?

Medina escovou John John em pleno quintal da casa dos Florence.

Uma vitória que até parecia que o adversário era um estagiário e não um bicampeão.

A pseudo-brincadeira já tinha acabado faz tempo.

foto: WSL

Diante de tanta superioridade, o duelo Ítalo x Kelly Slater pareceu algo como um confronto Ítalo x Thiago Blum.

Um massacre sobre o ícone, que não por acaso, levantou a Tríplice Coroa Havaiana pela 3ª vez.

Nesta hora, os turistas gringos e os locais havaianos já assistiam a mais um desfile de bandeiras, gritos e comemorações, em bom, alto e legítimo português nas areias do North Shore de Oahu.

Pronto. Não podia ficar melhor.

Só 2 caras no line-up.

Dois brasileiros tomando conta da bancada mais comentada.

E o mundo parado pra ver.

Pra um, conquista inédita.

Pra outro, a chegada do tão falado tri.

Torcida dividida.

E pra mim, já não importava mais quem seria o campeão.

foto: WSL

Na verdade, torci para o Ítalo.

Por um motivo muito simples.

Já que seria o 4º título para o Brasil, que a lista de nomes pudesse ficar maior.

Era o dia dele.

O momento que ele esperou sem pensar em etapas.

Os beijos e abraços na parceira e fiel escudeira, selou um dia e uma temporada que ficará pra sempre.

Viva Baía Formosa!! Viva o Rio Grande do Norte!!

Viva o Nordeste brasileiro!!

ATÉ ONDE O SURFE BRASILEIRO PODE CHEGAR???

É a pergunta que martela na minha cabeça.

Uma coisa, tenho certeza.

Não vou cair de novo no papo furado de que chegamos no auge.

Ainda teremos muita história pra contar.

Próxima parada: ouro e prata em Tóquio-2020.

Quem é capaz de duvidar????

por @thiago_blum