Mães surfistas e mães de surfistas
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Mães surfistas e mães de surfistas

O amor materno dentro e fora do mar

Thiago Blum

08 de maio de 2020 | 20h24

Simone e Gabriel Medina – foto: WSL

O ‘Dia das Mães’ de 2020 vai ficar lembrado pra sempre.

Infelizmente de um jeito nada agradável… com a obrigação do distanciamento.

Ficar longe delas alguns dias já é difícil.

Meses então… sem comentários.

Mesmo quem se acostumou com a saudade, vai sentir um friozinho diferente na barriga neste final de semana.

Atletas de alto rendimento viajam o mundo, muitas vezes sozinho… sem o amparo e carinho daquele colo que só elas são capazes de nos dar.

Com o surfe não é diferente.

Para vencer no esporte é preciso soltar as amarras.

Dividir os desafios e aventuras muito mais com técnicos e amigos, do que com o calor familiar.

Elas podem até fazer de conta que ficam bem longe da cria – ou não, né?

Simone Medina, por exemplo, já sofreu bastante.

“No começo não foi fácil, o primeiro ano do Gabriel no WCT (2011), em Pipeline, fiquei sem dormir, pedia a Deus para o mar baixar e baixou tanto que ficaram adiando as provas. Até que Gabriel pediu para que eu parasse com aquilo, senão não haveria campeonato. E, a partir daí, entendi que o que o deixava feliz era o mar grande e onda grande. Ver um filho realizando um sonho é demais. Quando vi Gabriel sendo pela primeira vez campeão do mundo foi mágico, como se ele tivesse nascido de novo. Com a Sofia (outra de seus filhos, de 14 anos, também surfista) vivencio um outro círculo da vida, pois minha insegurança não é tão grande hoje. Lógico que me preocupo em lugares com risco de tubarão, por exemplo, mas evito passar esse tipo de medo para eles. Fico feliz em vê-los correndo para o mar, pois a felicidade deles é mais importante do que qualquer circunstância”.

Simone e Gabriel Medina – foto: WSL

Respirar fundo durante as sessões de surfe da família também faz parte da rotina da Mari, mão de Filipe Toledo.

“Morro de medo do mar e a vida inteira precisei lidar com isso vendo o Ricardinho (marido e ex-surfista) colocando as crianças na água desde cedo. Mas meus filhos sabem os seus limites. Tenho 4 (Matheus de 29 anos, Filipe de 25, Davi de 21 e Sofia de 19) e todos surfam, mas atualmente apenas Filipe compete profissionalmente. A sensação de medo aumenta quando vejo Filipe numa onda com fundo de corais ou em ondas muito fortes. Coração de mãe é assim mesmo e ele faz muito bem o seu papel. Ainda vou sentir a emoção de ver meu filho sendo campeão mundial”.

Katiana Batista, mãe do campeão mundial Ítalo Ferreira – foto: divulgação

E o que será que a mãe de um ídolo chega ao topo do mundo?

Com a palavra, Katiana Batista, mãe do Ítalo Ferreira.

“Sinto muito orgulho do Ítalo, que trabalhou pesado para chegar onde está e nem consigo descrever em palavras esse título conquistado por ele. É ainda um sonho que estamos vivenciando e um momento que vamos levar para a vida toda. Independentemente de já estar acostumada a assistir as competições dele, como mãe ainda tenho receio em vê-lo pegando grandes ondas. Mesmo que ele treine e se dedique muito e surfe bem, o frio na minha barriga sempre vem, pois o surfe não depende exclusivamente do surfista, mas muito das condições da natureza”.

Família ‘Chumbo’ – foto: arquivo pessoal

Viver o perigo é especialidade do Lucas Chumbo, competidor do mundial de ondas gigantes.

E a mãe dele, Michele Cabral, ainda tem que se preocupar com o mais novo.

João Chumbinho corre as etapas do WQS.

Esse mundo dos esportes radicais exige muito do emocional e sempre fez parte de nossas vidas. Acostumei com o mar gigante, mas a tensão é eterna. Até hoje não consigo ver um campeonato do Lucas ao vivo. Quando entra no mar, fico nervosa e, ao mesmo tempo, feliz. Graças à tecnologia, consigo administrar melhor as emoções. É uma explosão de sentimentos: gratidão, reconhecimento e felicidade”.

Nicole Pacelli e Rudá – foto: arquivo pessoal

Os parabéns pra lá de especiais em 2020 vão para quem vai comemorar a maternidade pela primeira vez.

Além da paixão pelo mar, as surfistas Marina Werneck, Claudia Gonçalves e Nicole Pacelli têm em comum o fato de terem se tornado mães em fevereiro de 2020.

Craques que temporariamente trocaram pranchas, parafinas e ondas por fraldas, amamentação e algumas noites mal dormidas.

Nicole Pacelli em ação com 38 semanas de gravidez – foto: arquivo pessoal

Marina está encantada com Moana, Claudinha é mãe totalmente entregue à Clara e Nicole diz que faz todo o sentido ser mãe de Rudá. O amor é total, mas as atletas não escondem também a vontade de voltar a surfar.

“Minha vida mudou completamente e para melhor! Meu filho faz eu querer dar o melhor de mim todos os dias e viver o presente. Comecei a dar valor a coisas mais simples e básicas do dia a dia, a maternidade me trouxe isso”, comemora Nicolle, campeã mundial de Stand Up.

Marina Werneck e Moana – foto: arquivo pessoal

A carioca Marina Werneck, já cruzou o mundo atrás das melhores ondas e conquistou vários títulos. Começou a competir aos 12 anos. Chega aos 32 realizada como mãe e se adaptando à nova rotina. “Nestes quase três meses de maternidade o aprendizado é gigante, um momento de total entrega e conexão com minha filha. É mágico, mas de grande responsabilidade”

No domingo, Marina terá um Dia das Mães mais que especial: “Vamos passar pela primeira vez as quatro gerações juntas, minha mãe e avó estão em casa”.

Claudinha Gonçalves e Clara – foto: arquivo pessoal

A paulista Claudinha considera esse o momento mais desafiador e incrível de sua existência: “Me sinto a mulher mais completa e forte do mundo. A maternidade é intensa, exaustiva e transformadora. É uma sensação de pertencimento e cumplicidade que jamais imaginei sentir”.

Assim como Nicole, ela surfou até os oito meses de gestação e não vê a hora cair no mar.

“Surfar grávida foi umas das experiências mais emocionantes que vivi, um privilégio! Quando tudo isso passar pretendo revezar ondas e mamadas, porque o pediatra já liberou levar a Clarinha para a praia”

Claudinha surfando no 8º mês de gestação – foto: Pato Vacc

É difícil demais para um homem escrever e descrever a sensação.

Dissertar sobre a força, resiliência, paciência, determinação e interação.

A capacidade única de enxergar e tocar o mundo com a cabeça e o coração.

Só me resta celebrar.

Agradecer a chance de conviver com mulheres incríveis.

Eu e meu irmão Rodrigo fomos abençoados pela poderosa Isis sempre por perto durante 5 décadas.

E meu lindo Pedro – de quase 12 anos – sabe bem como é ter a compreensão e o amor diário da Pricila.

Viva as mães!!!

#vivaosurfe

#vaipassar

editado por @thiago_blum

entrevistas e texto: Mércia Suzuki – Casa do Bom Conteúdo / assessoria da WSL

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