Você conhece o Pinga?
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Você conhece o Pinga?

Depois de trabalhar com vários tops e campeões. ele agora faz parte do time de Filipe Toledo

Thiago Blum

27 de janeiro de 2020 | 20h21

Com Adriano de Souza e Jadson André – foto: arquivo pessoal

Luiz Henrique Campos.

Mas fique à vontade para chamá-lo pelo apelido.

Apaixonado e dedicado 100% ao esporte.

Observador, treinador e gestor de atletas.

Mais que tudo isso… formador de seres humanos.

Conhecedor de todas as coisas do surfe… dentro e fora do mar.

Com trabalhos marcantes ao lado de nomes que hoje lideram o ataque brasileiro no circuito mundial.

Os campeões Adriano de Souza e Ítalo Ferreira construíram boa parte de suas carreiras com ele.

Comemorando a conquista de Ítalo Ferreira na Gold Coast em 2019 – foto: arquivo pessoal

Jadson André, Caio Ibelli e Michael Rodrigues também.

Em 2020, Pinga passa a fazer parte do time de Filipe Toledo.

Entre os assuntos deste papo exclusivo com o #tuboseaereos, o esporte brasileiro de um modo geral e os planos para a nova temporada.

“A gente sempre tem que procurar novidades, sempre procurar desafios. Estou bastante empolgado com essa oportunidade de trabalhar com o Filipe e a equipe dele. Estou chegando para agregar, é uma equipe que já vem desenvolvendo um trabalho muito bom. O Ricardo (Toledo) vem liderando um trabalho fantástico e o objetivo é somar e procurar melhorar cada vez mais a infraestrutura do atleta”.

Em 2020, já como novo integrante da equipe de Filipe Toledo – foto: divulgação

Como vai funcionar o seu trabalho inicialmente?

A parte de imagem e comunicação dele estão com o Fabio Maradei, que vem fazendo uma parceria muito bacana. A ideia é fazer um trabalho junto aos patrocinadores dele aqui, estreitar o relacionamento dele com as marcas no Brasil e América do Sul. Buscar captar novos parceiros,  patrocinadores ou empresas e marcas que tenham interesse em usar a imagem do Filipe em algum produto ou projeto. E ter uma participação conjunta no planejamento em todo o contexto.

Você tem uma longa história com os atletas, a maioria deles com passagens no circuito mundial. A parte técnica continua com o Ricardinho mesmo, ou você também vai participar?

Ele é o responsável. A ideia do Ricardo é formar uma equipe e a liderança é dele. Mas sempre que estiver presente nos eventos, eu vou estar praticamente em todas as etapas do WCT, vou ajudar dentro da necessidade do Filipe. Mas a composição do grupo é essa.

Ao lado de Adriano de Souza – foto: arquivo pessoal

Por que o Brasil domina hoje o circuito mundial? Existe alguma resposta direta pra isso?

A gente trabalhou bastante durante um bom tempo, observando como funciona o circuito mundial. O importante é entender como ele funciona, quais são as regras… como é o jogo, pra gente poder jogar o jogo. Eu acredito que o trabalho que foi desenvolvido junto ao Adriano (de Souza), durante o período de 10 ou 11 anos de idade – que a gente começou com o doutor Marcelo (Baboghluian), no Instituto Marazul – acabou virando referência, porque foi uma mudança de abordagem dentro do circuito. A gente entrou já com o objetivo de ganhar, nunca tivemos na nossa cabeça ‘ser CT ‘. Nosso foco e nossa mentalidade sempre foi de buscar ganhar o CT. Então foi uma coisa que acabou virando modelo, a parte psicológica, física e técnica. E quando você trabalha com planejamento, com objetivo e tem pessoas certas, a probabilidade de você alcançar o objetivo final é maior. Então eu acredito que essa geração foi moldada dentro dessa referência, e isso fez uma geração muito forte. E inclusive, essa geração conviveu com um embate, a maioria desses meninos competiu entre eles quando eram muito novos, tirando o Adriano, todos competiram. Jadson André, Wiggolly Dantas, Alejo Muniz e Miguel Pupo se enfrentaram. Aí você pega o Gabriel Medina – que até competiu mais com uma galera um pouco mais velha – o Filipe Toledo, o Ítalo Ferreira, Caio Ibelli, Jessé Mendes… se enfrentaram muito durante o desenvolvimento inicial deles. E tem outros vários garotos que não estão lá no CT, que são excelentes surfistas e ajudaram nesse nível de competitividade também.

Com Jadson André – foto: arquivo pessoal

Equipe, preparação e planejamento. Mas o sucesso depende totalmente da determinação do atleta. Teve gente com toda essa estrutura que não chegou lá, por não ter a característica ideal para esse tipo de competição?

O atleta é o principal, ele tem que comprar a ideia. Por isso que é tão importante a conversa, saber como ele pensa, como funciona e como se sente à vontade. Sem isso não adianta ter um grupo de vários profissionais. Tivemos redirecionamentos no meio do caminho, de ver meninos que não teriam o ‘approach’ de encarar o circuito mundial. E a gente orientou, conversou com eles e a família para seguirem outros caminhos, isso acontece. Mas conseguimos neste trabalho que viemos desenvolvendo – principalmente a partir de 1997-98 – ter um resultado bem positivo.

O Brasil domina os principais circuitos do mundo. Mas como anda a organização por aqui… categorias de base e campeonatos nacionais? Quando o atleta começa ele já mira os eventos internacionais? Falta trabalho de base?

Todos esses meninos estão penando no circuito mundial. Porque hoje eles olham o Gabriel, o Ítalo, o Filipe, o Caio e vários outros. Eles olham e vira um sonho. Agora, chegar lá é outra historia, tem muito detalhe, muito contexto. Como a família se envolve, quais são as oportunidades que aparecem no meio do caminho. Quanto mais cedo você puder colocar uma estrutura e desenvolver um trabalho, melhor. Mas hoje em dia, quem vive a rotina do meio está muito preocupado, porque sabemos que não existe nenhum trabalho de base no Brasil mais. Sem um planejamento de 20 anos nenhum esporte vai chegar a lugar nenhum, a gente vai viver de ídolos esporádicos. Voltando ao surfe, a gente não tem um circuito brasileiro sólido, vivemos de eventos promocionais na base: o Rip Curl Grom Search, a Pena tenta fazer alguns Pró-Juniors, a WSL faz praticamente um circuito Pró-Júnior, mas eu acho que em uma idade avançada. Tem circuitos amadores fortes em SP e SC. O RJ está tentando desenvolver um trabalho agora, que é um estado que não tem nenhum grande atleta em destaque, apenas o João Chianca vindo, o que é muito pouco para um centro como o Rio. Realmente a gente não vê, é muito pouco…você olhar e a perspectiva de uma renovação do surfe dentro do cenário internacional, hoje são 3 meninos: Mateus Herdy, Samuel Pupo e João Chianca. Sem desmerecer os outros, que estão ali em condições. Tem o Lucas Vicente, que acabou de ser campeão Mundial Pró-Júnior, tem o Eduardo Motta e mais outros 2 ou 3 garotos na faixa de 13 a 15 anos, mas é muito pouco. Você pegava aquelas gerações que brilham hoje, na época você is em um Brasileiro Amador tinha 15 na mirim, mas outros 15 na júnior, disputando em condições de ganhar as etapas. E hoje infelizmente a gente não tem isso. Essa cultura que a gente tem que mudar, em um todo.

Em um dos vários mundiais com as categorias de base – foto: arquivo pessoal

A minha preocupação de ver esses esportes de ação dentro de uma olimpíada é a cultura, essa cultura não é nossa. Será que essa cultura não vai atrapalhar a gente no desenvolvimento? As nossas entidades não vão virar captadoras de recursos, ao invés de virar gestoras esportivas? Onde o recurso vai vir depois do trabalho apresentado e ser feito? Você desenvolver um trabalho bem feito, trazer resultado, mostrar que está ajudando as crianças, não só formando atletas e sim pessoas. Eu olho isso tudo e fico com o pé atrás.  Eu não vejo uma gestão preocupada… com o menino de 10 anos da praia lá da Paraíba, que tem um potencial absurdo, que é preciso trazer e traçar um projeto para ele se desenvolver. Pela minha filosofia de trabalho, eu vou ver. Viajo, ouço as pessoas, procuro analisar, ver a família… não só ele surfando, o entorno, onde ele mora, com quem convive, quem são os caras mais velhos que estão perto dele… antes de iniciar o trabalho com o garoto ou não. E isso viria de onde? De um circuito municipal forte, do estadual, do brasileiro… que é a escada. Hoje, em alguns lugares, os meninos correm campeonatos todo final de semana que não agregam nada, é legal.. ele está na água, mas não lhe dá uma evolução. Ele não tá vendo “opa, eu fui campeão da minha cidade… e assim vou ter vaga pra correr o campeonato estadual… e se eu ficar entre os 4 primeiros do ranking da minha categoria, vou correr o nacional”. É a famosa meritocracia… de conquista. Isso ajuda na formação do ser humano… que vai ajudar a termos grandes atletas.

Em ação – foto: arquivo pessoal

Esse trabalho de formação, esse olhar diferente é o que vai transformar esse atleta – no esporte que for – em um campeão mundial?

85 a 90% é isso. É preciso mostrar para esses meninos a necessidade da meritocracia. Vai ter sucesso onde escolheu, mas tem que estudar, treinar, se dedicar e abrir mão de várias coisas. Quando eles entendem isso, a probabilidade de sucesso dele é muito maior. Um menino desse quer ficar na água o dia inteiro, não quer ir na aula… quer surfar e só, porque é legal. E quanto mais ele surfar, mas chances ele vai ter de passar baterias… show. Parte da nossa função é mostrar pra ele que ir na aula vai ser importante pra ele dentro da competição. Primeiro, a convivência escolar… jogar bola, basquete, brincar de esconde-esconde. Um menino de 10 ou 11 anos não é atleta profissional, não adianta tratar ele assim, vamos estar pulando degraus. E quanto mais educação e cultura ele tiver, na hora que ele chegar lá em cima, vai ser mais importante. Vai ter mais controle emocional, de lógica… vai entender porque tem que treinar parte física. Por que estar bem fisicamente? Primeiro porque todo atleta tem que ter bom preparo, o que vai prevenir contusões… quando faltar 30 segundos para pegar uma onda, vai estar com a mente tranquila e não estar cansado… então se entrar uma onda boa ele vai conseguir fazer o ‘score’ que precisa… vai conseguir ter linha de raciocínio e mais dinamismo dentro da bateria… vai remar mais rápido que o adversário e etc. E o próprio desenvolvimento do cara, de aprender falar uma língua com mais facilidade e dar uma entrevista coerente. Eu acredito muito nisso, que a gente tem que desenvolver o ser humano pra termos grandes atletas.

por @thiago_blum

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