Dan Gurney, uma águia no céu

Dan Gurney, uma águia no céu

Poucos pilotos, incluindo muitos campeões mundiais, marcaram presença no automobilismo de forma tão ampla quanto Dan Gurney: piloto, construtor, mecânico e, acima de tudo, autoentusiasta.

Wagner Gonzalez

15 Janeiro 2018 | 19h38

Criador do Eagle faleceu aos 87 anos

Poucos pilotos, incluindo muitos campeões mundiais, marcaram presença no automobilismo de forma tão ampla quanto Dan Gurney: piloto, construtor, mecânico e, acima de tudo, autoentusiasta. Muitos sequer imaginam que foi ele o criador de um artefato extremamente comum em carros de competição, o “gãrnei”, como muitos se referem à pequena tira de metal que completa a extremidade posterior de um aerofólio ou defletor de ar.

O princípio de funcionamento do Gurney Flap (Motorsport Aeodynamics)

Novaiorquino, filho do cantor de ópera John Gurney e de Roma Sexton, Dan Gurney nasceu em Port Jefferson (Long Island) e cresceu na Califórnia, onde instalou a All American Racers, berçário de um sem número de carros vencedores. Também construiu um dos mais bonitos F-1 de todos os tempos, o Eagle-Weslake T1G, vencedor do GP da Bélgica de 1967, fabricado em sua base da Inglaterra na oficina chamada de Anglo American Racers e situada em Rye, em Sussex do Leste.

Gurney a caminho da sua quarta e última vitória na F-1, em Spa-Francorchamps, 1967 (AAR)

Daniel Sexton Gurney foi casado com Arleo Bodie – com quem teve quatro filhos (Daniel Jr, John, James e Lyndee) e posteriormente com Eva Butz, com quem se casou em 1969 e teve Justin e Alex. Eva é irmã de Norbert Haug (ex-diretor de motorsport da Mercedes), trabalhou como secretária de Huschke von Hanstein, diretor da Porsche, e foi editora de revistas.

Dan Gurney e Eva Butz em foto registrada recentemente em Goodwood (AAR)

Encontrei Dan Gurney raras vezes, mas desde minha infância ele marcou presença em minha vida de autoentusiasta. Em 1968 escrevi uma carta a ele pedindo uma foto e uma jaqueta de sua equipe e caprichei no envelope, desenhando junto à descrição de destinatário o número 48, aquele que identificou a maioria dos seus carros nos Estados Unidos, uma forma de mostrar que eu não era um fã qualquer. Semanas depois recebi a resposta em um envelope pequeno demais para conter sequer uma camiseta, mas grande o suficiente para não decepcionar um jovem admirador: junto com a foto de seu Eagle, em preto e branco, veio um punhado de páginas xerocadas do catálogo de merchandising que ajudava a sustentar seu negócio e uma mensagem de agradecimento e incentivo, minha primeira liçåo para entender que o automobilismo é um grande negócio.

Nascido na Costa Oeste, Gurney (E) estabeleceu seu negócio e vocação na Califórnia (AAR)

Piloto de alto nível, Gurney foi o único rival a quem Jim Clark se referia com muita reverência e uma forte dose de temor. Por participar de várias categorias com dedicação ímpar certamente não pôde transformar sua perícia em títulos importantes. Entre suas conquistas na pista sem a dúvida a mais importante foi nas 24 Horas de Le Mans de 1967, em dupla com A.J. Foyt e a bordo de um Ford GT MK IV. Foi nessa prova que ele criou, acidentalmente, o gesto de espirrar espuma de champagne ao celebrar a vitória, gesto que alguns erroneamente atribuem a Jackie Stewart.

Le Mans, 1967: criando o ritual típico dos vencedores a partir de então (AAR)

Piloto com grande conhecimento de mecânica, Dan Gurney era capaz de resolver problemas com uma facilidade que espantava muitos engenheiros e projetistas. Certa vez, disputando uma prova de carros esporte nos Estados Unidos, Dan Gurney notava que seus motores caiam de rendimento por perder muito óleo. Ao final dos treinos de sábado isolou-se na sua garagem e durante toda a noite instalou um sistema onde o respiro do lubrificante teve sua saída direcionada a um reservatório com características internas que criavam o efeito de centrifugação. Isso permitiu recuperar o óleo que era expelido do motor,  redirecioná-lo para o cárter e completar a corrida entre os primeiros.

Seus conhecimentos de mecânica o aproximaram de Jack Brabham (E) e Bruce McLaren (AAR)

Essa capacidade o aproximou bastante de Bruce McLaren e Jack Brabham, outros dois pilotos-construtores de primeira linha e para quem pilotou várias vezes em provas de F-1 e Can-Am. Há quem diga que a decisão de recusar a oferta de ser piloto de Brabham na temporada de 1967 impediu que ele vencesse mais corridas e até mesmo conquistar o título mundial, que sobrou para Dennis Hulme. Na F-1 disputou 86 GPs pela Ferrari (1959), BRM (1960), Porsche (1961/2), Brabham (1963/4/5 e algumas provas em 1968) Eagle (1966/67/68) e fez algumas apresentações pela McLaren em 1968 e 1970).

Amostra significativa dos carros pilotados por Dan Gurney. Os fabricadosm por ele chegam a quase 200… (AAR)

A história de Gurney na Nascar é semelhante: participou de pouco mais de 15 corridas em seis temporadas, mas venceu quatro consecutivas. A atenção pela aerodinâmica ajudou a marcar época ao ser o primeiro piloto a usar o capacete Bell Star, o primeiro modelo integral, nas 500 Milhas de Indianapolis. Sua vocação para a mecânica certamente tem a ver com seu avô paterno, Frederick W. Gurney, que na década de 1900 inventou os rolamentos de contato angular e carreiras duplas.

Gurney e a motocicleta Gator, um dos seu últimos projetos com seus filhos (AAR)

Após a F-Indy e a F-1 Dan Gurney dedicou-se um bom tempo às corridas de protótipos nos Estados Unidos, onde administrou a equipe da Toyota na série Imsa. Mais recentemente desenvolveu uma motocicleta especial, a Gator, e um triciclo especial para atletas com limitações físicas. O portfólio de automóveis construídos pela All American Racers e Anglo American Racers inclui modelos de F-1, Indy, F-5000, Imsa, F-Ford, Tran-Am, Can-Am e o protótipo do Delta Wing.

Mais conteúdo sobre:

Dan GurneyEva Butz