Festa maior que a corrida

Festa maior que a corrida

GP de Miami misturou show e negócios em doses inéditas à F-1. Sucesso do evento valoriza o retorno do GP de Las Vegas, em 2023.

Wagner Gonzalez

10 de maio de 2022 | 09h19

A capacidade dos estadunidenses em transformar qualquer evento em uma grande festa e palco de negócios ficou mais uma vez evidente com a realização do GP de Miami. Desde a insalubre marina em terra firme até a presença de uma multidão de conhecidos, desconhecidos e desnecessários guarda-costas no grid, não faltaram demonstrações de que a F-1 mudou vários dos seus conceitos.

Capacetes de futebol americano substituíram os bonés usados no pódio (Ferrari)

Toque sutil desse mega show foi ver os pilotos subirem ao pódio usando capacetes de futebol americano em lugar dos tradicionais bonés da Pirelli, fornecedora de pneus da categoria.

Ferrari e Red Bull concentraram, mais uma vez, a disputa pela vitória (Red Bull)

Na pista, business as usual: Red Bull e Ferrari se apoderaram na disputa de lugares no pódio, onde subiram Max Verstappen, Charles Leclerc e Carlos Sainz. Sérgio Pérez ficou em quarto.  A Mercedes segue trabalhando para tornar seu carro mais competitivo em relação aos rivais vitoriosos nesta temporada enquanto a alternância de pilotos na segunda metade das posições pontuáveis, reforçou a nova distribuição de forças que a categoria vive este ano.

Valtteri Bottas andou a maior parte da prova em quinto. Desgaste dos pneus o fez perder duas posições (Alfa Romeo-Sauber)

Neste departamento a Alfa Romeo-Sauber continua como o grande destaque, mesmo se o sétimo lugar de Valtteri Bottas tenha sido envolvido por alguma amargura. O finlandês andou em quinto na maior parte das 57 voltas da prova, mas a dez voltas da bandeirada escapou da parte limpa da pista e não conseguiu evitar a ultrapassagem de George Russell (quinto) e Lewis Hamilton.

Esteban Oco bateu no TL-3, largou em último, chegou em oitavo (Alpine)

Esteban Ocon salvou a honra da Alpine ao terminar em oitavo, resultado que ganha importância depois que o franco-catalão ter sido obrigado a largar em último, consequência de um acidente que o impediu de participar da prova de classificação. O tailandês Alex Albon mais uma vez surpreendeu: a bordo de um Williams FW43 tão acima do peso mínimo a ponto de a equipe ter considerado abolir a pintura aplicada sobre o chassi do carro, ficou em nono. Lance Stroll fechou as posições pontuáveis.

Promover um GP de F-1 é uma operação complexa e cara, consequência do modelo imposto por Bernie Ecclestone durante as quatro décadas em que controlou os caminhos e o destino da categoria. Apreciador de luxo e sofisticação, o empresário inglês moldou valores focados em mercados de alto poder aquisitivo e consolidou o posicionamento mercadológico do evento como um produto exclusivo e, consequentemente, muito caro.

Casa cheia: GP de Miami foi sucesso de público e de negócios (Red Bull)

O caminho natural para a Liberty Media, empresa que adquiriu de Ecclestone os direitos comerciais da F-1, aumentar o faturamento e recuperar o investimento de bilhões de dólares seria expandir a política de negociação já estabelecida. Isso acontece de uma forma que destaca as diferenças culturais entre europeus e norte-americanos. Pista famosa nos anos 1950, o circuito de Goodwood promovia seus eventos com o slogan “no crowd but the right crowd”, algo que soa como um aglomerado de pessoas sofisticadas e não uma arquibancada geral de estádio. Miami 2022 reforçou ao mundo o que um crescente número de novos milionários e alguns bilionários buscam: mostrar-se ao mundo ao mesmo tempo que esnoba o contato com outros humanos.

 

Charles Leclerc segue liderando o Campeonato Mundial de Pilotos, mas Ferrari precisa reagir (Ferrari)

Ex-piloto de F-1 e grande rival de Ayrton Senna na F-3, Martin Brundle é hoje contratado da Sky para atuar como repórter de grid e comentarista. Na primeira função o inglês deve entrevistar pilotos e personalidades momentos antes da largada, algo que seus colegas de profissão aceitam e que aqueles que não o conhecem rejeitam. Em Miami, tal como aconteceu no GP de Austin no ano passado, Brundle novamente teve problemas ao abordar celebridades de categorias e níveis diversos. Eu me lembro que em 1981, em Las Vegas, Steve McQueen caminhava pelo estacionamento do hotel Caesar’s Palace cercado por nada menos de oito seguranças. Os guarda-costas andavam dispostos em uma formação quadrangular que isolava o ator de qualquer contato com meros humanos.

Certo ou errado, o GP de Miami escancarou os valores do show business norte-americano e veio para ficar: em 2023 Las Vegas volta ao calendário, desta vez com uma corrida noturna em um circuito que usa as principais avenidas da cidade de Nevada. Cabe à F-1 saber explorar as possibilidades que isso oferece para continuar crescendo e lucrando com tudo isso.

O resultado completo do GP de Miami você encontra clicando aqui.

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