Pensando fora do box

Pensando fora do box

Recriação das Mil Milhas incomoda e é bem-vinda.

Wagner Gonzalez

18 de fevereiro de 2020 | 08h00

Recriação das Mil Milhas incomoda e é bem-vinda

A beleza plástica das corridas noturnas de volta ao autódromo de Interlagos (Julio D’Paula)

Prova mais tradicional do automobilismo brasileiro e criada na década de 1950 pelos saudosos Eloy Gogliano e Wilson Fittipaldi, as Mil Milhas Brasileiras tem uma história que faz jus à frase que decora o troféu da vitória: ”Glória imortal aos vencedores”. Recriada este ano pela promotora e organizadora Elione Queiroz, uma paulista há tempos radicada no Planalto Central, ela renasceu com novo nome e deixou claro uma outra mensagem: enquanto os praticantes do esporte não deixarem de olhar para o próprio umbigo e entenderem que há de se trabalhar na mesma direção, o renascimento do automobilismo nacional tem tudo para perecer em glória mortal.

Os vencedores, a partir da esquerda: Esio Vichiese, Renan Guerra e Stuart Turvey (Cláudio Kolodziej)

Bastante conhecida por seus serviços de logística e apoio a pilotos e equipes, Elione Queiroz enxergou em passado recente o que poucos viram e decidiu arrematar os direitos sobre nomes de provas tradicionais, como os 1.000 KM de Brasília, 12 Horas de Goiânia e a cereja desse bolo, as Mil Milhas Brasileiras. Todos eles estavam com seus direitos caducados e órfãos de algum proprietário. Isso provocou ciúmes em muitos, a começar pelo atual presidente do Centauro Motor Clube, José Roberto Beilstrein, um dos primeiros a ir contra a iniciativa de Queiroz. De certa forma o herdeiro do clube fundado por Gogliano nos anos 1950, Beilstrein há anos deixou de ter qualquer atividade relacionada com esse evento, mas insistiu que era o dono do nome e que ninguém, exceto ele, poderia organizar ou promover essa competição. Tornou-se folclórica, para não dizer lastimável, suas declarações regulares que as Mil Milhas Brasileiras voltariam a acontecer “este ano”.

Elione Queiroz e o novo troféu da prova recriada com persistência (Cláudio Kolodziej)

Queiroz não se abalou, continuou trabalhando à sua maneira e há de se louvar sua resiliência e perseverança diante de obstáculos que enfrentou. Ao batalhar pelo renascimento de uma prova histórica ela foi obrigada a devotar sua energia em tantas frentes e, consequentemente, descuidando de outras a ponto de adotar um formato privilegiou muitos e convenceu poucos. Longe de critica-la por isso, deve-se entender esse inconveniente como fruto de sua pouca experiência como organizadora de eventos desse porte. Perto da realidade dos fatos, ela enfrentou a resistência nociva do circo do Campeonato Brasileiro de Endurance, para quem o regulamento da prova parece ter sido pensado, e que recusou participar do evento.

O Ginetta G55 dos vencedores foi protagonista durante as 11 horas de corrida (Julio D’Paula)

Pode parecer fácil refletir sobre o desenrolar do evento vencido pelo trio formado por Renan Guerra, Esio Vischiese e Stuart Turvey a bordo de um Ginetta G55. No entanto é claramente difícil entender a razão pela qual muitos que pediam pela volta das Mil Milhas não apoiaram a iniciativa. Culpa da exigência de se usar pneus slick, equipamento muito mais caro que os pneus radiais comuns? Abrir demasiadas categorias no intuito de premiar muitos vencedores? O saldo dessa empreitada é positivo quando se nota que há gente disposta a fazer algo pelo esporte dentro dos autódromos e fora de grupos ativos apenas em mídias sociais. Elione Queiroz merece parabéns pela coragem de enfrentar tantos adversários e aqueles que ainda acreditam no automobilismo brasileiro agradecem por tanta bravura. Juntos, já olham para janeiro de 2021, quando a Mil Milhas do Brasil volta a acontecer em Interlagos no dia 25 de janeiro.

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