Razão, emoção e contradição alinhadas na F-1

Razão, emoção e contradição alinhadas na F-1

Após o GP da Áustria espera-se o fim da contradição e que a emoção, razão de ser do esporte, prevaleça.

Wagner Gonzalez

02 de julho de 2019 | 08h15

Niki Lauda, herói austríaco e famoso por sua racionalidade, marcou presença no GP da Áustria (Getty Images)

Qualquer atividade humana está sujeita a erros e imperfeições pela própria natureza dos seus atores. Quando essa atividade movimenta milhões em cifrões e almas as consequências podem ser nefastas, devastadoras até. O GP da Áustria bem que poderia se encaixar nesse escopo: uma das corridas mais movimentadas e interessantes dos últimos tempos, ela teve dois jovens pilotos dividindo a primeira fila, um deles liderou a maior parte das 71 voltas da corrida (resultado completo aqui).

Segunda vitória consecutiva de Verstappen na Áustria trouxe Honda ao topo do podio (Getty Images)

O outro venceu de forma triplamente marcante: caiu de segundo para sétimo após uma largada péssima e em recuperação marcante assumiu a liderança batendo rodas com o pole position. Nessa balada logrou, finalmente, o inesperado: interromper o domínio dos até então invencíveis Mercedes.

A antológica disputa entre Gilles Villneuve e René Arnoux no GP da França de 1979, em Dijon (Arquivo pessoal)

Sob a luz do antológico GP da França de 1979, tudo isso seria plenamente aceitável e politicamente correto. Nessa corrida disputada na terra da mostarda mais famosa do mundo Gilles Villeneuve e René Arnoux completaram as últimas voltas alargando o asfalto de Dijon-Prenois, batiam rodas a cada curva dos 3.800 metros da pista a ponto de fazer todos esquecerem que o líder Jean-Pierre Jabouille caminhava para a primeira vitória do Renault Turbo. Nesses outros tempos Villeneuve e Arnoux desceram dos seus carros e foram se abraçar, sorrindo, felizes da vida.

Três semanas atrás em outra pista de sotaque francês, o nome de Gilles Villenueve passou de ator principal a coadjuvante. Foi no circuito que leva seu nome, em Montreal, que Sebastian Vettel e Lewis Hamilton disputavam a liderança, o Ferrari à frente do Mercedes. Pressionado pelo inglês, o alemão erra no grampo mas mantém-se à frente por mais duas ou três voltas até que, ao iniciar a curva 4, um S de velocidade média-alta, sequência direita/esquerda, deixa a máquina vermelha escapar para a grama e volta ao asfalto, ainda ligeiramente à frente do rival. Para evitar o toque que poderia tirar os dois da prova, Hamilton vai para a área externa do traçado e continua em segundo. Voltas mais tarde os comissários desportivos da prova decidem punir Vettel com cinco segundos no seu tempo total de prova.

Amadurecimento de Charles Leclerc é a peça que falta para consagra-lo como novo lider da Scuderia (Ferrari)

Poucas vezes uma decisão desportiva repercutiu tanto; pode-se conjecturar que o alemão da Ferrari não se esforçou para abrir cinco segundos de vantagem sobre Hamilton, que por sua vez apenas cozinhou o galo. Numerosos os que dizem que a punição foi correta, numerosos em número ainda maior contestam, algo típico nos tempos de polarização político que, infelizmente, vivemos. O fato é que privaram Vettel de uma vitória importante, uma que pode ter definido quando sua carreira vai acabar.

Sebastian Vettel parece viver inferno astral. Aposentadoria ao final do ano é possível (Ferrari)

Falou-se em recurso, sugeriram reconsiderar a decisão, mas duas semanas depois a sétima vitória consecutiva da Mercedes nas sete primeiras provas da temporada, estava consolidada. No GP da França desse fim de semana o australiano Daniel Ricciardo recebeu duas punições de cinco segundos ao ultrapassar adversários de forma considerada duvidosa. Decisão igualmente discutível, a penalização sugeriu que alguma consistência, de contexto ainda mais discutível, estava se consolidando. No asfalto pintado em faixas multicoloridas, o fato acabaria comparado a uma ilusão de ótica.

Torcida de Max Verstappen pintou de laranja as verdes colinas austríacas (Getty Images)

Chegamos então às verdejantes colinas da Styria, região austríaca ao sul de Viena e hoje endereço do Red Bull Ring, cortesia do mesmo patrocinador que necessitava de um resultado excelente para manter Max Verstappen sob contrato. Vencedor da prova em 2018, o holandês moveu milhares de fãs às montanhas e colinas em torno da pista em Spielberg, presença que em certas ocasiões pode significar alguns cavalos extras no motor Honda, que voltou a triunfar na F-1 após longa e tenebrosa tentativa de reconciliação com a McLaren.

Leclerc (E) e Verstappen disputando posição momentos antes da ultrapassagem (Getty Images)

Prova de classificação completada, Sebastian Vettel sequer teve chance de sair do box na Q-3, aqueles dez minutos que determinam os dez primeiros lugares no grid; Lewis Hamilton atrapalhou Kimi Räikkönen e perdeu o segundo lugar. Resumo da ópera, os meninos Charles Leclerc e Max Verstappen dividiram a primeira fila; o fim de semana indicava um domingo de fortes emoções e não foi diferente. Bem provável que ninguém esperava que a grande surpresa do fim de semana seria um  GP da Áustria nada nefasto. Ao cabo de hora e meia de corrida ele trouxe de volta ares de boas disputas, só faltou Verstappen e Leclerc se abraçarem no pódio. Todos torcemos para que, a partir de agora, a contradição não anule a emoção, razão de ser do esporte.

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