Sette Câmara: ‘F-1 demanda muito trabalho’

Sette Câmara: ‘F-1 demanda muito trabalho’

Piloto mineiro dispensa acompanhar GPs no box da McLaren

Robson Morelli

23 de abril de 2019 | 13h52

Quem acompanha a F-1 através da mídia não faz ideia da pressão que pilotos novatos sofrem para alcançar um lugar nesse grid e sobreviver aos primeiros anos na categoria mais exposta do automobilismo mundial. O fato de os brasileiros amargarem um jejum no grid dessa categoria, jejum que atravessa o segundo ano, cria ainda mais obstáculos para os candidatos imberbes e ansiosos por resolver esse problema. Um dos nomes que tem maiores chances de por fim à ausência brasileira nos GPs é Sérgio Sette Câmera, mineiro prestes a completar 21 anos de idade e que desde 2008 está envolvido com o esporte a motor. Neste fim de semana ele disputa a preliminar do GP do Azerbaijão.

Quem olha para Serginho – como ele é tratado nas pistas e pelos familiares -, não pensa em maturidade e tampouco que um dia ele praticou basquete: seu metro e sessenta e nove de altura está mais para um Alain Prost bem nutrido do que para um Adilson Varejão. Esses dois pontos são vantajosos para ele: Prost é um piloto que ficou famoso por seu estilo limpo de pilotar, aquele jeito de quem acelera e não maltrata o automóvel, e o corpanzil de Varejão é a antítese do corpo ideal para os cada vez mais compactos cockpits de um F-1.

Sette Câmara está em sua terceira temporada na Fórmula 2, considerada por muitos como a antessala da categoria maior. O que complica um pouco a situação já que a opinião generalizada que apenas exceções pulam essa etapa, os estrelados ficam apenas um ano, os que ficam dois anos são muitos bons, os que ficam três…. Mas nem tudo é assim tão cartesiano em uma categoria cada vez mais envolvida por princípios de marketing e até mesmo caprichos de famílias milionárias, como os Stroll, que possuem até mesmo sua própria equipe, a Racing Point.

Em seu terceiro ano na F-2 o mineiro está tranquilo e já assimilou que acertou ao mudar de uma equipe de ponta, a inglesa Carlin, para outra igualmente competitiva, a francesa DAMS. Não foi uma atitude fácil, nesse processo o próprio piloto pensou e repensou se deveria mesmo mudar de ares: “Foi uma decisão difícil: quando você está num time bom fazer uma mudança dessa magnitude te leva a receber muitas críticas, inclusive de gente que está com você. Eu mesmo, muitas vezes nesse processo me questionei se era necessária essa mudança. Mas coisas vão naturalmente se direcionando para um lado e foi o que aconteceu: pouco a pouco eu fui conhecendo a DAMS, gostei muito do trabalho deles,… e no ano passado eu tive vários problemas mecânicos no meu carro, lá na Carlin. Se não fosse isso eu teria conseguido um resultado bem mais legal no campeonato.”

A queixa tem razão clara de ser: um time inglês com um piloto inglês adotado por uma equipe inglesa de F-1 é a receita certa para garantir manchetes e criar clima de superstar em torno do escolhido, no caso o atual piloto da McLaren, Lando Norris. A regularidade com que o carro do brasileiro teve problemas no ano passado versus o fato de Norris ter liderado boa parte do campeonato e terminado em segundo lugar infla o sentimento de frustração dos fãs do brasileiro e não cria um clima positivo. Ao descrever sua visão sobre esses fatos Sette Câmara demonstra que além do volante domina a arte da diplomacia como poucos: “Eu sei que as vezes pode ter ficado essa sensação no ar, especialmente para quem torce por mim e tal, mas eu já falei várias vezes e sigo repetindo: não houve preferência. Quem sabe o que aconteceu é o fato de ele estar há mais tempo na equipe e de a própria equipe ter surgido um pouco por conta dele, fez que o Lando recebesse os mecânicos mais experientes. Isso acabou reduzindo o número de quebras no carro dele. Essa pode sido a única diferença.”

A inconsistência de resultados afetou severamente as chances do brasileiro disputar o título de 2018, que na primeira metade do ano parecia destinado a Lando Norris, mas que acabou nas mãos de George Russell, outro inglês apadrinhado por uma equipe de F-1, a Mercedes. Pouco a pouco Norris deixou de mostrar a superioridade do início da temporada ao passo que Russell ganhava ritmo a ponto de ter287 pontos, contra 219 do rival. Sette Câmara ficou em sexto com 164. Esses números não criaram qualquer ressentimento com o ex-companheiro de equipe, como seria normal esperar num ambiente tão competitivo e povoado por jovens em busca do sonho maior de suas existências.

“No ano passado o Lando teve menos quebras, eu não vou dizer que isso foi sorte, mas isso o ajudou muito”, explica Serginho, que lembra que “ele trabalhou sob pressão, soube administrar isso muito bem. É um cara que eu respeito muito, é sangue bom, um ótimo piloto e minha relação com ele é muito boa, é um cara super humilde.”

Embora disputando categorias diferentes este ano, o brasileiro e o inglês ainda convivem bastante: Norris disputa a F-1 ao volante de um McLaren e Sette Câmara foi contratado como piloto de testes e desenvolvimento da equipe. As chances de um teste de pista existem, mas não é isso nem a possibilidade de acompanhar um GP dentro do box da equipe que norteiam o trabalho do brasileiro nesta temporada: “Eu ainda não sei quando vou andar no carro real, por enquanto estou fazendo um trabalho no simulador e acho que estou me saindo bem. Quanto a acompanhar um GP dentro do box da McLaren, posso até acompanhar, mas para mim não muda nada ficar lá com aquele fone de ouvido na cabeça e ficar esperando a câmera passar… O que quero é focar no meu trabalho de F2, conquistar resultados, experiência, trabalhar duro e obter resultados, pelo que eu sei,  é o que leva uma pessoa à F-1.”

Depois de um longo e tenebroso período de resultados absurdamente aquém do próprio currículo a McLaren vive um período de reorganização no qual outro brasileiro foi contratado como diretor esportivo: Gil de Ferran. Muitos enxergam tal circunstância com a chegada de Sette Câmara ao time fundado por Bruce McLaren e consolidado por Ron Dennis. Não é bem assim.

“O Gil é uma ótima pessoa para estar liderando a equipe, mas é um super profissional e é muito justo com a equipe. Assim como todo mundo na equipe, nós trabalhamos num ambiente internacional. Vez ou outra gente as vezes a fala um pouco em português, isso é bacana, mas isso não chega a um ponto de beneficiar, nada disso. Ele sabe diferenciar nossa nacionalidade comum do nosso trabalho.”

Prestes a disputar a segunda etapa da temporada 2019 Sette Câmara ocupa a terceira posição do campeonato, consequência de um terceiro e um segundo lugares conquistados nas duas corridas no Bahrein. Como seu companheiro de equipe, o canadense Nicholas Latifi está em segundo, com 35 pontos  (o líder é o italiano Luca Ghiotto, com 37), o ambiente na DAMS está dos melhores e contribui para a formação do brasileiro: “Há diferenças culturais entre os ingleses e os franceses. NA DAMS eles são muito estudiosos, eles são assim, meio militar, entre aspas. Para mim essa mudança foi muito boa: estou aprendendo coisas diferentes e acabo crescendo como pessoa e, principalmente como piloto. Quando eles olham a telemetria, por exemplo, eles olham canais diferentes, usam um raciocínio completamente diferente para analisar os dados. Em poucas palavras, eu saí da minha zona de conforto, mas essa mudança me prepara melhor.”

Se você imagina que essa mudança também inclui a requintada gastronomia francesa, infinitamente superior à inglesa, esqueça: “Nenhuma das duas equipes tem uma boa cozinha: nas Fórmula 2 existe um serviço de catering único, feito por italianos e todo mundo da categoria come lá. Já o lanche da Carlin é melhor que o DAMS, mas os franceses fazem um café muito melhor. E eu adoro café. Nesse aspecto, trocar de equipe foi um upgrade.”

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