A maior decepção

Wilson Baldini Jr.

11 de fevereiro de 2010 | 08h09

A madrugada de 11 de fevereiro de 1990 foi terrível. Meu pai não quis ver a luta, pois achava que não iria passar do primeiro assalto. “Ficar acordado até tarde para ver meia dúzia de socos?”

Ninguém acreditava em James Buster Douglas diante do mito Mike Tyson. Nem Luciano do Valle, que deixou a transmissão para o Alexandre Santos na TV Bandeirantes.

Mas o que se viu desde o início foi totalmente inesperado. Há exatos 20 anos o boxe registrou a sua maior zebra. No ringue do Tokyo Dome, no Japão, James Buster Douglas derrotou Mike Tyson por nocaute no décimo rounde. A inesperada vitória de um lutador esmigalhado com a morte da mãe dias antes do duelo e do processo de divórcio em vigor com sua mulher, além de estar com relações rompidas com o pai, pagou na bolsa de apostas 42 por 1. Ou seja: um dólar apostado em Douglas correspondeu a 42 dólares ganhos.

Aos 23 anos, Tyson passava por uma reformulação em sua equipe técnica. Havia trocado de treinador, ainda não tinha superado por completo seu divórcio conturbado com a atriz Robin Givens e não subia no ringue havia sete meses. Desde o primeiro gongo, não se viu em ação o melhor de um dos maiores pugilistas de todos os tempos. Lento, sem reflexos e errando muitos golpes, Tyson propiciou a Douglas a possibilidade de trocar golpes. “Era minha última chance na vida”, afirmou o pugilista, então com 29 anos, que somava quatro derrotas e um empate em 34 duelos.

Mesmo em melhor forma física, Douglas não conseguia esconder sua fragilidade técnica, o que equilibrava o combate. Mesmo muito machucado, Tyson acertou um poderoso upper no queixo de Douglas e o levou ao solo no fim do oitavo assalto. Para muitos, o experiente juiz mexicano Octavio Meyran falhou na contagem e deveria ter apontado Tyson como vencedor, pois Douglas demorou demais para se levantar e acabou salvo pelo gongo.

A luta prosseguiu, Douglas ganhou fôlego e assombrou o mundo ao vencer a 1min22 do fim do décimo assalto, após um upper perfeito, seguido de uma sequência de cinco golpes, finalizada por um fortíssimo direto de esquerda. Tyson ainda tentou levantar. Preocupou-se primeiro em colocar o protetor de boca antes de se reerguer, mas acabou abraçado pelo juiz.

Para os jurados, o duelo estava equilibrado. Um juiz apontava Douglas na frente com 88 a 82. Outro via um empate em 86 pontos e o terceiro tinha Tyson na frente (87 a 86).

Tyson perdeu uma invencibilidade de 37 lutas, seria preso dois anos depois por estupro e ainda retornaria ao boxe em 1995. Foi campeão de novo em 1996, mordeu as orelhas de Evander Holyfield no ano seguinte e abandonou o boxe em 2005. Hoje, busca espaço na mídia ao ser protagonista com um documentário que tem seu nome e participando da versão italiana da “Dança dos Famosos”, além de fazer alguns comentários para o site do empresário Don King.

Buster Douglas nunca mais repetiu o feito conseguido diante de Tyson. Perdeu o cinturão unificado oito meses depois. Ficou seis anos longe dos ringues, gastando os US$ 24 milhões ganhos para encarar Holyfield. Comeu e bebeu de tudo, chegou aos 150 quilos e quase morreu ao ficar em coma diabético. Voltou a lutar em 1996 e fez mais seis lutas até 1999. Mas ele não tinha mais o que fazer no boxe. Sua vitória sobre Tyson jamais será esquecida.

Decepcionado, fui para a rua, no meio da madrugada, conversar com meus amigos, todos fanáticos por boxe. Queríamos encontrar uma resposta para a derrora do nosso ídolo. Não a encontramos. Todos nós estávamos nocauteados, assim como Tyson.

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