Estreia de Yamaguchi: uma decepção

Wilson Baldini Jr.

26 de janeiro de 2014 | 03h48

Logo que cheguei à Arena Santos para ver a estreia de Yamaguchi Falcão no profissionalismo encontrei Miguel de Oliveira, campeão dos médios-ligeiros em 1975.

– O que você acha da estreia do Yamaguchi?

Com sua calma costumeira, Miguel respondeu:

– Acho que o adversário poderia ser mais fraco. Oito roundes previstos é muita coisa para uma estreia. O Yamaguchi estreia como uma estrela. É muita pressão. O lado emocional vai ser muito importante para o desempenho dele.

Sábias palavras de quem sabe tudo e mais alguma coisa de boxe. Miguel acertou na mosca.

Yamaguchi entrou “pilhado”. Mais do que o necessário. Com menos de um minuto de luta diante do argentino Martin Rios, já havia dado golpe na nuca, ombrada e soltado muitos golpes no vazio, demonstrando claramente a sua falta de preparo mental para a luta.

Nos dois roundes disputados houve equilíbrio. O ímpeto do brasileiro não lhe dava vantagem na disputa por causa dos muitos erros no ataque. O “hermano”, invicto após dez lutas, parecia esperar uma oportunidade para desestabilizar o medalhista de bronze em Londres/2012.

Para várias celebridades presentes ao ginásio, que recebeu um ótimo público, Yamaguchi sairia derrotado se o combate fosse até os oito assaltos determinados.

Mas no fim do segundo, o argentino golpeou após o gongo, ato que irritou Yamaguchi. O brasileiro devolveu a “agressão” e os dois trocaram golpes, diante da tentativa do juiz José Bezerra de separar os lutadores. Insatisfeito, Rios cuspiu na direção de Yamaguchi.

O juiz esperou o intervalo e, antes do início do terceiro assalto, desclassificou os dois boxeadores. “Ele foi corajoso”, disse Miguel de Oliveira. “Eu teria desclassificado só o argentino”, opinou Acelino Popó Freitas, tetracampeão mundial e hoje deputado federal, um dos homenageados da noite.

Faltou bom senso a José Bezerra. Em 1997, na histórica revanche entre Evander Holyfield e Mike Tyson, o juiz Mills Lane puniu Tyson com a perda de um ponto após a primeira mordida em uma das orelhas de Holyfield. Com a punição e a orientação de que uma reincidência o desclassificaria, Lane não hesitou em eliminar Tyson após a segunda mordida.

José Bezerra poderia ter feito o mesmo em Santos. Retiraria um ponto de cada lutador e avisaria que um novo problema seria o último. Dessa forma, talvez, o evento tivesse sido salvo, o canal SporTV teria tido um produto ao vivo melhor para apresentar a seus assinantes e a imagem de Yamaguchi Falcão não teria ficado arranhada na Golden Boy Promotions, empresa de Oscar De La Hoya, que cuida da carreira do brasileiro.

Se José Bezerra tivesse dado mais uma chance aos lutadores, ele teria salvado sua pele e os vilões seriam os lutadores. Com sua atitude, toda a culpa pelo fracasso do evento ficou na sua conta.

Resta saber o que a Golden Boy fará com a carreira de Yamaguchi. Parece que uma segunda luta com Rios está totalmente descartada. O certo é que Yamaguchi precisa colocar a cabeça no lugar e saber que sua carreira está apenas começando. Ou melhor: ainda nem começou.

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