O centenário de Joe Louis

Wilson Baldini Jr.

12 de maio de 2014 | 21h58

Em um barraco num campo de algodão perto de Lafayette, no Alabama, onde dividia a cama com seus dois irmãos, nasceu Joseph Louis Barrow, em 13 de maio de 1914. Filho de um meeiro – que morreu de problemas mentais quando ele tinha dois anos de idade – e bisneto de escravos, Louis foi morar em Detroit em 1920, quando sua mãe se casou pela segunda vez.

No início da adolescência, Louis aprendia marcenaria numa escola profissional e tinha aulas de violino, quando foi levado por uma amigo para uma academia de boxe. Com o nome de Joe Louis, na tentativa de esconder da mãe a opção esportiva, iniciou a carreira amadora e venceu 50 de 54 lutas. Logo ganhou a atenção de John Roxborough, rei do jogo em bairros afro-americanos de Detroit. Em 1934, Roxborough e Julian Preto, dono de um bar clandestino, convenceram Louis a se tornar profissional.

Para moldar a imagem do lutador e fugir do preconceito, afinal poucos eram os lutadores negros naquela época, Roxborough passou a seu pupilo alguns mandamentos: nunca ser fotografado com uma mulher branca, nunca tripudiar sobre um adversário (branco) caído, nunca se envolver em brigas nas ruas, viver e lutar limpo.

Louis ganhou suas primeiras 27 lutas , 23 por nocaute, com destaque para o impressionante nocaute no sexto round sobre Primo Carnera e outro no quarto assalto diante de Max Baer, ambos ex-campeões.

Sua série invicta acabou em 19 de junho de 1936, quando Schmeling descobriu uma falha em Louis, a esquerda baixa, e terminou o duelo no 12º assalto.

Seu caminho para o título tinha apenas ficado mais longo. Em 22 de junho de 1937, ele se tornou o primeiro campeão afro-americano desde Jack Johnson, ao destronar James Braddock no oitavo round. “Todo garoto negro com idade para andar queria ser o próximo Bomba Marron”, disse Malcolm X , líder dos militantes muçulmanos negros, referindo-se ao apelido de Joe Louis.

Em 1938, Louis exigiu sua vingança sobre Schmeling . A luta valeu mais do que um título mundial dos pesos pesados. Foi uma batalha de duas ideologias. Em um canto estava Schmeling, representando Hitler (embora o lutador alemão não fosse nazista) e o fascismo. No outro córner era Louis, representando os EUA e a democracia. Louis foi convidado para ir à Casa Branca, onde foi recebido pelo presidente Franklin Roosevelt. “Joe, precisamos de músculos como os seus para vencer a Alemanha.”

Hitler enviou mensagens a Schmeling alertando seu boxeador de que ele seria responsável pela maior vitória e glória do Terceiro Reich. Hitler o saudava como um modelo de masculinidade e telefonou para Schmeling pessoalmente antes de deixar o camarim em direção ao ringue. Diante de 70 mil espectadores, no Yankee Stadium, Louis pulverizou Schmeling, derrubando-o três vezes em 124 segundos.

Numa época em que os negros estavam sujeitos a linchamentos nas ruas dos Estados Unidos, discriminação, opressão e proibição de jogar na Major League Baseball, Joe Louis foi o primeiro afro-americano a ser adorado como um herói. Quando Louis começou no boxe, não existiam negros em destaque na sociedade americana, nenhum chamava a atenção dos brancos.

“O que meu pai fez foi permitir que a América branca pensasse nele como um americano, não como um negro”, disse seu filho, Joe Louis Jr.”. “Ao ser campeão, ele se tornou o primeiro herói negro da América branca”.
Louis foi campeão mundial em uma época em que o campeão dos pesos pesados era o maior homem do mundo. Jack Johnson, o primeiro campeão peso-pesado afro-americano, não era popular com os brancos. Louis, por outro lado, com seu jeito introvertido, ganhou a torcida de todo o país, principalmente após a vitória sobre Schmeling. Em um período da 2ª Guerra Mundial, Louis se tornou ainda mais querido, quando disse que os EUA iriam ganhar a guerra porque estavam do lado de Deus. Mas Louis não tinha personalidade para ser político. Seu senso incomum de dignidade, exemplificado pela sua recusa em ser fotografado com uma fatia de melancia, aumentava cada vez mais sua popularidade.

Em 18 de abril de 1941, diante de Billy Conn, um ex-campeão dos meio-pesados, Louis esteve perto de perder o título. Em desvantagem nas papeletas de dois dos três jurados, Louis precisou de sua força para derrubar Conn a dois segundos do fim do 13º round.

Em 1942 se alistou no exército e fez cerca de 100 exibições diante de dois milhões de militares. Após a guerra, ele nocauteou Conn novamente e ganhou outras três lutas, incluindo dois triunfos frente a Jersey Joe Walcott , antes de abdicar do seu título e se aposentar.

No entanto, ele precisava de dinheiro para pagar os impostos. Voltou para perder para o campeão Ezzard Charles , em 1950, e se aposentou, ao ser nocauteado por Rocky Marciano, no oitavo round, em 1951.

O boxe lhe rendeu cerca de US$ 5 milhões, mas o dinheiro foi a nocaute mais rapidamente do que seus adversários, por causa de extravagâncias e generosidade. O imposto americano esqueceu de sua ajuda durante a guerra e exigiu US$ 1,2 milhão. Em crise, passou a abusar da cocaína. Por caridade, virou uma atração do Caesar’s Palace Hotel, em Las Vegas.

Louis passou seus últimos quatro anos em uma cadeira de rodas antes de morrer de um ataque cardíaco, em 12 de abril de 1981, aos 66 anos, poucas horas depois de assitir à vitória de Larry Holmes sobre Trevor Berbick, no ringue do Caesar’s Palace.

Durante o velório, sua quarta esposa, Martha, recebeu um envelope com uma boa quantia em dinheiro, enviado por Schmeling. Os dois haviam se tornado grandes amigos.

Joe Louis foi enterrado no Cemitério Nacional de Arlington , a pedido do presidente Ronald Reagan.

http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,joe-louis-o-grande-campeao-do-boxe,10079,0.htm

Tudo o que sabemos sobre:

boxeboxeoboxingJoe Louis

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: