O ringue salvou Devon Alexander

Wilson Baldini Jr.

10 de janeiro de 2010 | 17h16

Devon Alexander começou a treinar boxe aos 7 anos de idade, em uma academia no porão de uma delegacia no bairro de Hyde Park, em Sant Louis, Estados Unidos. Juntamente com 30 amigos , sob a orientação do policial Kevin Cunningham, Alexander não teve bom início. Após o primeiro treino, chegou em casa com o nariz sangrando após uma sessão de sparring com Terrance Barker. Saiu desanimado do treino, mas ouviu um incentivo do treinador. “Volte, você é bom.”

Cunningham patrulhava o pior bairro de Saint Louis e acompanhava de perto as ações das gangues no tráfico de drogas. “Sempre me revoltou muito ver as crianças sendo assassinadas por usar camisetas com cores diferentes ou chapéus de estilos diferentes”, afirmou Cunningham. “A minha ideia era colocar disciplina na cabeça daqueles meninos, para que eles pudessem ter uma profissão algum tempo mais tarde.”

Passados 15 anos, Alexander construiu uma vitoriosa carreira de 300 combates como amador, com apenas dez derrotas. É o atual campeão mundial dos meio-médios-ligeiros (até 63,503 quilos), versão Conselho Mundial de Boxe, após 19 combates vitoriosos, com 12 nocautes. Seu próximo duelo será em 6 de março, diante de Juan Urango. Mas a sua vida não foi fácil. Não é demais afirmar que o ringue o salvou da morte.

Dos 29 amigos que iniciaram com Alexander no pugilismo, 19 estão mortos e dez, presos, incluindo um de seus irmãos. Vaughn Alexander, 14 meses mais novo que Alexander, tinha um futuro mais promissor no pugilismo. Chegou a disputar cinco lutas como profissional, inclusive em Las Vegas e Nova York. Não perdeu, mas hoje cumpre pena de 18 anos por roubo à mão armada.

Terrance Barker, aquele que lhe deu em Devon Alexander uma surra no primeiro treino de boxe, foi um dos que perderam a vida. “Eu me lembro como se fosse hoje. Saí de casa e vi à minha frente um de meus amigos caído ao chão. Morto”, relembra Alexander, que não consegue se esquivar da violência. Em setembro de 2008, Willie Ross – que conquistou a medalha de prata no torneio Golden Gloves, juntamente com Alexander nos anos 90 – foi morto após um tiroteio na esquina do velho ginásio onde iniciaram o treinamento de boxe. “Barker e Ross erma como meus irmãos.”

Alexander acredita ser um predestinado. “Penso todos os dias por que Deus me escolheu? Por que sou isso? Um vencedor do boxe. Sempre soube que jamais seria um médico, advogado ou policial. Passei minha infância em um lugar onde era normal ouvir tiros de revólver dia e noite”, afirmou Alexander. “Eu sei que tenho uma missão muito grande em minha vida. Eu me sinto preparado para atingir meus objetivos e seguir atrás de vitórias em cima do ringue”, disse o pugilista conterrâneo dos irmãos Leon e Michael Spinks, que fizeram carreiras brilhantes no amador (campeões olímpicos em 1976, em Montreal) e no profissional. Hoje, Alexander ainda vive em Saint Louis, mas em um bairro mais calmo, em uma casa mais confortável, juntamente com sua mãe viúva – o pai morreu há cinco anos – e os 11 irmãos. “Preciso dar uma vida melhor para meus irmãos. Deus disse: ‘a quem muito é dado, muito será pedido’. Sei que por ter sido o único a permanecer vivo, serei muito cobrado. Nada me amedronta”!, afirmou Alexander, O Grande.”

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