Pai

Wilson Baldini Jr.

16 de julho de 2010 | 11h16

Parte de mim morreu às 22h42 do dia 14 de julho. Não tenho mais meu companheiro, amigo e conselheiro. Com ele eu podia falar de tudo: falta de dinheiro, desentendimento com a esposa (que são raros e ela sempre tem razão), problemas no serviço ou simplesmente uma vontade descomunal de deitar no colo e receber um carinho. As soluções eram sempre fáceis, calmas, tranquilas, como devem ser.

Há muito tempo tinha vontade de ir a um jogo do Corinthians com ele. O último foi em 1987. Com a doença da minha mãe isso se tornou impossível. Ele não tinha vontade de sair de casa. Nem para um almoço de Dia dos Pais. Aliás, não sei como será o próximo sem ele. Mas esses dias são todos falsos. Dia dos Pais, Dia das Mães, principalmente, são todos os dias. E continuarão a ser.

Uma coisa será diferente. Não terei mais com quem falar de esportes. Se hoje sou jornalista esportivo, devo a ele. Sempre me incentivou a fazer esporte. Primeiro foi o judô, depois o karatê (por mais de 20 anos) e o futebol sempre. Nunca tive talento para ser o melhor, mas ele nunca deixou de me acompanhar. Uma vez ele me disse, após um treino em um dos campos de um colégio em Santa Teresinha: “Filho, para de jogar. Você não é um craque. Vai estudar, que é melhor!”. Há uns cinco anos, ele falou: “Filho, me desculpe. Com tanto perna de pau, você poderia estar jogando no Catar, Emirados Árabes, Japão e estaria rico.” Lembro da cara de “salame” dele falando isso. Que saudade!

Desculpar? Do quê? Eu que te peço desculpas por não ter sido um cara excepcional em  alguma coisa. Alguém de quem você pudesse se orgulhar. Tive minhas limitações. Acho que todo mundo tem. Mas eu sempre tive uma postura igual a sua: fui honesto em tudo. Não sou rico, famoso, importante, mas espero terminar minha vida como o senhor. Respeitado por todos.

Pai, me desculpa por tanta insegurança. Você foi meu guia. Agora, estou sozinho. Tenho as “quatro meninas” para cuidar. E vou cuidar. Como o senhor fez com todos nós. Um beijo eterno. Um dia a gente vai se ver de novo para conversar sobre o que o senhor quiser. Como sempre foi aos domingos. Te amo. Sinho.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.