Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

'A dívida chega a mais de R$ 40 milhões', diz presidente da CBB

Guy Peixoto diz que auditoria ainda não finalizou levantamento e avalia como 'realmente difícil' primeiro ano de mandato

Entrevista com

Guy Peixoto, presidente da CBB

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 01h00

Empresário de sucesso, Guy Peixoto aceitou o desafio de assumir o cargo de presidente da Confederação Brasileira de Basquete em março de 2017. Um ano depois, o dirigente reconhece que o período foi 'realmente difícil', mas, com o seu projeto em andamento, está otimista com o futuro da modalidade no Brasil. Em entrevista exclusiva ao Estado, ele revela, entre outras coisas, que o valor da dívida da entidade supera os R$ 40 milhões, que trabalha incessantemente para conseguir um patrocinador máster e que uma reunião no dia 20 de março, em Campinas, definirá os rumos do naipe feminino.  

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Qual avaliação o senhor faz do primeiro ano como presidente da CBB?

Foi um ano realmente difícil, mas o encaramos como um desafio. Assumimos com uma situação extremamente complicada: caixa zero, salários atrasados por 3 meses, impostos atrasados por 18 meses, sem certidões fiscais, condomínio da sede atrasado por 2 anos, sem condições legais de receber repasses do Comitê Olímpico do Brasil, com diversas prestações de contas atrasadas com o Ministério do Esporte, sem crédito nos bancos e com inúmeros processos cíveis e alguns trabalhistas, além da suspensão da Fiba. Nossas ações imediatas foram voltadas para regularizar a situação da CBB com a FIBA para ter como gerenciar. Reduzimos despesas, com quadro de pessoal em 50%, folha de pagamento em mais de 60%. Devolvemos salas adicionais alugadas, o apartamento alugado para o Sr. Carlos Nunes e recolhemos os celulares corporativos. Pagamos, com recursos próprios, salários atrasados, obtivemos a CND - Certidão Negativa de Débito, solucionamos as pendências legais e financeiras com o COB e demos  início à negociação com a Fiba para a retirada da suspensão. Fora o processo de renegociação das dívidas, fundamental para a sobrevivência e a contratação de uma auditoria externa para avaliar os números da última gestão, para termos ideia do que enfrentaríamos. Elaboramos os três planejamentos fundamentais para nossa gestão: esportivo, marketing e estratégico, que foram apresentados à Fiba para análise e aprovação e passaram a ser o rumo ao renascimento do basquete brasileiro. 

Qual o tamanho da dívida atual da CBB?

Não temos ainda o valor final que está sendo levantado pela auditoria contratada, mas chega, com certeza, a mais de R$ 40 milhões.

Quantos milhões do próprio bolso o senhor teve de colocar para conseguir administrar?

Não gostaria de falar sobre isto. O que importa é que o valor que coloquei não foi um empréstimo, mas sim uma doação ao nosso basquete.

 

Qual sua maior conquista em um ano?

Acredito que tenha sido o resgate da confiança dos entes governamentais, patrocinadores, atletas, e todos os stakeholders do  nosso esporte. Quebramos o gelo e conseguimos com todas as dificuldades mostrar que estamos encarando com muita seriedade o desafio de recolocar o basquete brasileiro nos trilhos. Trouxemos parceiros importantes,  como a BDO - que numa permuta inédita no esporte brasileiro, fará durante os próximos quatro anos, todo nosso processo de GRC - Governança, Riscos e Conformidade, a Spalding,  fornecedora de bolas oficial do basquete brasileiro, a Recoma, fornecedora de pisos oficial do basquete brasileiro, a Motorola, patrocinadora do Circuito Nacional Pro de Basquete 3x3 e da seleção brasileira de 5x5. Com a Mercedes Benz, fizemos um acordo para termos, em regime de comodato, o ônibus do basquete brasileiro, e no quesito material esportivo, temos a Nike como uma parceira de excelência em nosso esporte.

Qual são os objetivos para o segundo ano de mandato?

O maior deles é conseguir um patrocinador máster, que nos permita investir mais para dar condições de melhora ao basquete brasileiro. Como disse anteriormente, quebramos o gelo, já é possível mostrar uma CBB séria, mas o dano de imagem do basquete em anos de desmando não tem como ser sanado em tão breve período. É preciso o dobro do trabalho para buscar parcerias no mercado.

A Fiba retirou a suspensão, o que ainda falta para a reintegração total da CBB?

Já enviamos todos os documentos solicitados, atendemos a todos os quesitos pedidos, o que nos deixa otimistas para esperar que ainda no mês  de março esta situação esteja resolvida de forma definitiva. 

 

A Caixa ficou muito próxima de se tornar parceira da CBB? O que aconteceu para o acerto não acontecer?

Tivemos diversas conversas, mas, infelizmente, no final o patrocínio não se concretizou. Os motivos podem ser esclarecidos pela  Caixa Econômica.

 

Desde que você assumiu, a CBB conseguiu alguns patrocinadores, mas como está a negociação para um patrocinador do tamanho que o basquete precisa e merece?

Você não tenha dúvidas de que estou trabalhando dia e noite com minha equipe para isto. Não está fácil, além da crise de reputação que nos afastou das marcas, estamos reconstruindo nossas propriedades comerciais para termos mais poder de venda. O advento do Circuito  Nacional Pro de Basquete 3x3 pode ser um alento para que os patrocinadores venham com força. 

 

Qual a importância da presença de ex-jogadores, agora também com participação nas Assembleias, na CBB?

Sempre foi meu desejo ter os atletas participando de verdade. Era uma promessa de campanha que sempre achei fundamental. Sou um ex-jogador e sei o quanto os protagonistas do espetáculo podem ajudar.  E é isso que espero  deles, que de fato participem. Abrimos nosso colégio eleitoral, abrimos nosso conselho de administração e agora queremos contar com a participação de todos para o crescimento do basquete. Como canso de falar, o basquete brasileiro é um só e de todos. 

 

As federações estão atuando da maneira que você queria ou ainda falta muito?

Não é fácil gerir uma federação estadual. Nem sempre existem patrocínios ou apoio dos governos estaduais com investimento no esporte. Mas a vontade de todas as federações me impressiona. Vamos procurar ajudá-las a ter mais recursos e também poder cobrar delas uma gestão mais eficaz. 

 

Está satisfeito com o trabalho do Petrovic na seleção masculina?

Muito. Entendemos que ele  é um dos seis melhores técnicos do mundo atualmente. Ele tem sido um eficiente treinador e, mais do que isso, um embaixador do basquete brasileiro.  É um profissional antenado com o mundo atual, que entende não só o papel principal do treinador na montagem e treinamento da equipe, como a importância da promoção dos jogos, do atendimento a imprensa, do trabalho para o engajamento dos fãs, do acesso aos jogadores sem prejuízo para o trabalho em quadra. 

 

A seleção masculina está resolvida, mas e o feminino, presidente? Não é hora de cuidar do naipe com mais carinho?

Claro, e,  no  dia 20 de março,  em Campinas,  daremos um primeiro passo para isto. Vamos realizar o Painel do Basquete Feminino, com a participação da comunidade do basquete feminino - atletas, ex-atletas, técnicos, clubes, a Liga Feminina, etc. Na ocasião vamos debater  os rumos do basquete feminino, falar, ouvir e achar os caminhos para investir no basquete feminino. 

 

E o desenvolvimento do Basquete 3x3, que agora dá medalha olímpica, está satisfatório? 

Sim, somos já uma força neste esporte no que se refere à realização de eventos e com o  lançamento do Circuito Nacional  Pro de Basquete 3x3, esse mês, esperamos dar mais visibilidade à modalidade. Serão seis etapas, com transmissão pela internet, e na última teremos a transmissão pelo SporTV. Além disso, faremos um Challenger Internacional e uma Copa Sul-Americana, também com transmissão do Sportv. No fim do ano teremos a Copa Brasil de Basquete 3x3, que será sem sombra de dúvidas um sucesso, já preparando para que em 2020 tenhamos chances de medalhas. Serão 9 eventos só em 2018.

 

Em qual situação está o CT de Campinas?

Estamos caminhando na negociação com patrocinadores para torná-lo sustentável financeiramente, mas é um espaço impressionante numa região de destaque do país, e muito importante para o basquete feminino. As dificuldades nesse primeiro ano foram muitas e tivemos que priorizar. Esperamos ter novidades em breve.

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