Marcius Azevedo/Estadão
Marcius Azevedo/Estadão

'A nossa dívida já caiu para R$ 10 milhões', diz presidente da CBB

Guy Peixoto recebeu confederação com saldo negativo de R$ 40 milhões e comemora resultados de um ano e meio de gestão  

Entrevista com

Guy Peixoto, presidente da CBB

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2018 | 05h01

O semblante é de alívio. A situação ainda é difícil, poucas receitas e sem um patrocinador robusto, mas o presidente da Confederação Brasileira de Basquete, Guy Peixoto, tem motivo para comemorar. Ele enxugou gastos, resolveu pendências na Justiça e viu o valor da dívida cair de R$ 40 milhões para R$ 10 milhões após um ano e meio de gestão - foi eleito em março de 2017. Agora espera ter mais dinheiro em 2019 para colocar em prática mais projetos para o crescimento da modalidade.  

Em março, após um ano no cargo, o senhor confirmou R$ 40 milhões de dívida. Hoje, qual o tamanho dela?

As notícias são boas. A dívida que recebemos de R$ 40 milhões já está em R$ 10 milhões e ainda estamos negociando com credores. Realmente foi um pulo absurdo que conseguimos dar neste um ano e meio de gestão. Estou muito mais tranquilo. Peguei uma empresa quebrada e começamos um processo de enxugá-la. Vou dar um exemplo: tínhamos uma folha de pagamento de quase R$ 300 mil, com 30 funcionários. Hoje temos uma folha de quase R$ 60 mil e 12 funcionários, que, com certeza, são muito mais competentes do que tínhamos antigamente. Tinha também toda uma verba de presidência que atualmente é revertida para o desenvolvimento do basquete. Eu continuo bancando toda as minhas despesas e de dois, três executivos da minha empresa que estão ajudando na confederação. E vou continuar fazendo isso até o fim, porque é o meu compromisso.

Apesar do cenário positivo, a CBB não conseguiu fechar o acordo com a Caixa. Como está esta situação? 

Nós nos deparamos com um problema. Existe uma briga judicial entre confederação e Eletrobras (antiga patrocinadora). Tínhamos uma promessa da Caixa Econômica que depois da retirada da suspensão da Fiba eles iriam contribuir, tinha até o valor acertado. O que aconteceu é que enquanto há o litígio com um órgão público outro órgão público não pode te patrocinar. Foi uma surpresa horrível. Agora estamos em fase final de resolver esta pendência, já fizemos um acordo, acertei os valores.O problema é que estamos em uma transição no governo e, quem está lá, não quer decidir nada. Provavelmente terei de aguardar até janeiro para resolver esta questão do patrocinador. Mas eu tenho esta promessa da Caixa e acredito que eles vão cumprir. Em relação aos órgãos privados, temos feito de tudo, mas o momento da economia no País não é favorável. 

O que entra de receita hoje na CBB?

O COB garante as minhas seleções masculina e feminina adulta e de base viajando e jogando, inclusive os treinamentos. O dinheiro do COB também me ajuda com os salários dos dois treinadores (Alexsander Petrovic e Carlos Lima). A Motorola, o nosso único patrocinador, banca a nossa estrutura, luz, água, funcionários. E estamos trabalhando com projetos incentivados. Aí será o nosso pulo do gato. Temos duas, três empresas já dispostas em nos ajudar nisso. Aprovamos na semana passada o valor de R$ 2,5 milhões para realizar o nosso primeiro campeonato de base de seleções, que será sub-13. 

O Petrovic disse que fica mais na Croácia do que aqui por causa da dificuldade financeira da CBB. Quando o senhor espera tê-lo mais tempo no Brasil?

O Petrovic está à disposição da confederação 24 horas por dia. Vivemos em uma era em que a internet nos deixa ligados com tudo. Tenho uma empresa com 20 filiais e, se eu não tiver internet, não poderia ir para a Europa, visitando a Fiba para resolver problemas ou até para negócios da minha empresa. O Petrovic, mesmo na Europa, não perde nenhum jogo dos nossos jogadores. Todos são transmitidos. Mas claro que gostaria de tê-lo aqui para participar de clínicas. Por isso, nesta vinda dele agora (para os jogos das Eliminatórias) estamos acertando quatro clínicas pelo Brasil até o final de dezembro. Mas tudo isso depende de dinheiro, de um patrocínio para bancar. 

O basquete 3x3, que é modalidade olímpica, ficou em segundo plano também por causa da falta de dinheiro?

Todos os patrocinadores que estamos conversando querem o 3x3, o que é excelente. A menina dos olhos da confederação é o 3x3. Temos um funcionário apenas para cuidar disso, 100% dedicado. O que aconteceu é que tínhamos tudo programado para realizar quatro etapas e 15 dias antes de começar o patrocinador teve um problema e me deixou falando sozinho. Mas as próximas etapas estão confirmadas. Vamos terminar o que nos comprometemos a fazer. Com atraso, mas vamos fazer. Não abandonei e não vou abandonar o 3x3.

E o basquete feminino?

Estamos sofrendo no adulto. A maioria dos clubes não olha para o basquete feminino. Temos feito um trabalho com os presidentes das federações para que possamos no futuro colocar alguma obrigatoriedade dos times de terem duas ou três categorias de base no feminino. O vácuo é muito maior no feminino do que no masculino, mas existe matéria-prima. Há um projeto na Mangueira com meninas mais altas do que eu (1,92m). O que precisamos é colocar estas meninas para jogar campeonatos de clubes e seleções. Posso garantir que não estamos parados. Estamos mais preocupados com o feminino do que com o masculino. 

O fortalecimento da base tem sido o seu maior compromisso?

É impressionante a qualidade dos brasileiros para o basquete. Pequenas ações já deram resultados. Você precisava ver os jogos da seleção (masculina) sub-15 contra Argentina e Uruguai (na conquista do sul-americano). Parecia um time de veteranos. Colocamos 1.500 garotos em quadra no ano passado em torneios da CBB, neste ano mais 1.500. O nosso projeto para o ano que vem são 3 mil e eu quero chegar aos 10 mil. A salvação do basquete brasileiro são os campeonatos de base de clubes e seleções.

O senhor também vai organizar um campeonato adulto. Como está a relação com a Liga Nacional de Basquete?

Estamos alinhados. Depois de muito tenho assinamos um acordo. Eles estão cumprindo, nós estamos cumprindo. Vamos realizar um campeonato de segunda divisão. A liga continua fazendo o que se propôs e que faz muito bem. E falo sempre que se não fosse a liga não existiria campeonato nos últimos anos. Agora a liga precisa respeitar a CBB, que é a nave-mãe do basquete brasileiro. E eles respeitam. Não tenho problema com ninguém. Precisamos de união. Mas eu preciso massificar. Sempre fui muito criticado pelas federações do Norte e Nordeste. A ideia do campeonato da CBB é dar oportunidade para todos os clubes do Brasil, como existe na Argentina. Não há acordo para quem for campeão ou vice entrarem no NBB, mas acho importante ter cada vez mais equipes em condições de jogar no NBB, que também perdeu times nos últimos anos.

Após o fim da auditoria na CBB é possível pedir alguma punição ao ex-presidente Carlos Nunes?  

Um dos meus compromissos quando assumi era trazer uma auditoria externa para auditar os oito anos do antigo gestor. Se ele fez alguma coisa errada tem de pagar. Eu não tenho poder para fazer ninguém pagar. Quem tem é o Ministério Público. Te garanto que tudo que fizemos na auditoria foi entregue ao Ministério Público. A BDO (empresa responsável pela auditoria) também está à disposição para esclarecimentos. O que eu tinha de fazer, eu já fiz. Se ele usou dinheiro público em benefício próprio, ele precisa pagar.

O senhor vai cumprir sua promessa de ficar apenas um mandato?

Qualquer cargo, não só na confederação, é saudável que exista alternância. Claro que existe uma preocupação se o próximo dará continuidade ao nosso trabalho. Mas a minha promessa será cumprida.  

 

 

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