Sergio Castro/Estadão - 15/01/2015
Sergio Castro/Estadão - 15/01/2015

Ala criado por método rústico vira destaque do Palmeiras no NBB

Neto começou a criar músculos arremessando abóboras em Rondônia. Hoje é um dos principais jogadores da equipe alviverde

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 08h00

A vontade de jogar basquete foi crescendo em Arlindo Gomes Baltazar Neto em 98, enquanto acompanhava as transmissões da NBA pela TV Bandeirantes. “As sextas-feiras à noite eram sagradas. Eu e meus amigos nos reuníamos ora na casa de um, ora na de outro. Aos sábados era a mesma coisa: tinha de ver o (programa) NBA Action.”

O ala/armador, hoje um dos maiores destaques do Palmeiras/Meltex no NBB carregando o nome Neto na camisa, lembra com detalhes das finais daquela temporada, que apresentaram o Chicago Bulls de Michael Jordan e Scottie Pippen de um lado e o Utah Jazz de John Stockton e Karl Malone do outro.

O problema é que, ao lado de Arlindo, não havia praticamente nada. Morando em Vilhena, no interior de Rondônia, o garoto de 12 anos e seu grupo de amigos trataram, na base do mutirão, de reformar a quadra do Centro Social Urbano. “Naquele ginásio chovia mais dentro do que fora. Mas a gente cuidou dele: pintamos as linhas, arrumamos o aro, e o pai de um dos meninos, que era marceneiro, consertou as tabelas.”

Quando as condições se tornaram apresentáveis, no entanto, Neto percebeu que não tinha nos braços força suficiente para arremessar a bola.

A solução foi encontrada na cozinha: as abóboras com as quais sua mãe fazia doces se transformaram em material de treino, feitos sem orientação.

“Eu me deitava no chão e ficava arremessando a abóbora para cima. Com isso consegui desenvolver toda a musculatura necessária para o arremesso.”

A transformação da condição de fã da NBA em jogador foi produto de muito trabalho.“Fiz uma planilha de treinamentos numa folha de caderno. Eu pedia para minha mãe me acordar às 5h da manhã. Ia para a rua para correr por uma hora. Das 6h às 11h ficava na quadra para treinar fundamentos: arremesso, drible com a mão direita, com a mão esquerda...”

Depois de três anos nesse trabalho solitário, Neto resolveu colocar suas habilidades adquiridas à prova. Após fazer uma pesquisa por telefone em busca de informações sobre peneiras pelo Brasil afora, escolheu se submeter a testes no Ribeirão Preto/COC, que na época dominava a modalidade em São Paulo – foi pentacampeão estadual de 2001 a 2005 e campeão nacional em 2003.

Neto encarou uma viagem de ônibus de 14 horas. Em Ribeirão, ficou participando de testes diários que duraram um mês e meio, sob o olhar exigente da comissão técnica encabeçada por Lula Ferreira, ex-treinador da seleção brasileira.

“Só de estar lá para mim já era um sonho. Estava tentando entrar na base do COC, que tinha no adulto simplesmente Alex, Nezinho, Guilherme Giovannoni e Renato”, recorda.

O esforço foi recompensado com uma vaga no time cadete de Ribeirão, que foi plataforma para convocações para seleções brasileiras de base.

“A trajetória do Neto é uma das mais tocantes que já vi no basquete. Sem nenhuma orientação, nenhuma dica de um professor de educação física, ele fazia exercícios com abóbora que são os mesmos que se faz com medicine ball (bola mais pesada usada em treinamentos). Intuitivamente, ele desenvolveu um método que é praticamente igual ao que se usa na base”, diz o preparador físico do Palmeiras, Chiaretto Alves Costa.

A torcida alviverde aprecia o esforço de Neto, que é hoje um dos grandes ídolos do time, ao lado do armador argentino Max Stanic.

Ontem, jogando no Pinheiros porque seu ginásio está interditado, o Palmeiras bateu o líder Winner/Limeira por 79 a 69, com 26 pontos do ala Diego. 

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