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Basquete ano zero

Nos tornamos verdadeiros párias do basquete. Levou tempo para chegar a isso

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2017 | 06h00

Hoje, sexta-feira, 10 de março, no momento em que escrevo esta coluna, estão previstas eleições na Confederação Brasileira de Basketball. Ganhe quem ganhar não haverá milagres (o eleito foi Guy Peixoto). Na melhor das hipóteses levará tempo incalculável para recuperar o que foi perdido, ou melhor, destruído. O desmonte do basquete brasileiro não começou ontem. Vem sendo executado com exemplar eficiência por administrações sucessivas da CBB que, para sua felicidade, puderam trabalhar, se esta é a palavra, nas sombras, já que ninguém se importa com o basquete nesta terra de futebol. 

O que aconteceu, ou acontece, nos subterrâneos da CBB não sei. Mas conheço bem os resultados, que foram aparecendo quase imperceptivelmente um a um. Começa com nosso recuo de protagonistas mundiais, duas vezes campeões, uma vice, para um segundo plano, ainda honroso, mas que trazia maus presságios. Depois, vieram a escassez de medalhas nas Olimpíadas, para paulatinamente degenerar em dificuldades para a mera participação nos Jogos, competição onde, hoje, não temos importância alguma. 

Uma vitória aqui, uma conquista sem renome acolá, serviu durante anos para fazer vibrar narradores que de basquete não entendem nada, iludindo-se, e iludindo, torcedores que também se afastavam do jogo e, portanto, não o julgavam como, por exemplo, um torcedor de futebol julga seu time. 

Algumas medidas, como a introdução do lance de três pontos, não ajudaram porque criaram alguns jogadores heróis, especialistas nesse lance vistoso, mas às vezes discutível, num esporte em que o coletivo é fundamental. 

Nossos clubes também recuaram em importância. Quem se lembra que o Esporte Clube Sírio foi campeão Mundial de basquete em 1979, numa empolgante final contra o Bosna Sarajevo no Ibirapuera? As grandes equipes de São Paulo – só posso falar desse estado, apesar de saber que Rio e Minas, por exemplo, tinham grande basquete – desapareceram ou quase. Nenhuma existe com alguma importância. Mesmo clubes de massa, como Palmeiras e Corinthians, faz tempo não se ocupam mais do basquete. No entanto, o maior jogo disputado nessa cidade foi jogado entre Corinthians e Real Madrid, com vitória do Corinthians após várias prorrogações.

Enfim, com a chegada da NBA à nossa televisão, aí pelo fim dos anos 80, a coisa piorou. 

Ficou pior porque começamos a nos consolar com a ida de brasileiros para serem coadjuvantes em equipes americanas. Já nos bastava, e, como sempre, ficamos honrados que o mundo exterior se dignasse a nos lançar uma olhadela. Nenhum virou protagonista, ficaram um ou dois, de carreira média, nunca titulares, nunca talentos respeitados. Com a NBA o basquete brasileiro se tornou mais distante do torcedor comum. Eu gosto da NBA, eu também sigo a liga americana, mas com um travo de frustração atravessado na garganta. Travo, de resto, que adivinho em narradores como Agra e no humor ácido de Zé Boquinha, testemunhas e personagens importantes do nosso basquete perdido. 

Finalmente a pá de cal sobre esse túmulo: o Brasil está proibido pela Fiba de disputar torneios internacionais, sequer um mero Sul-americano, competição que ganhamos em outros tempos 12 vezes seguidas. Nos tornamos verdadeiros párias do basquete. Como disse no início, levou tempo para chegar a isso, muito tempo. Neste 10 de março, morria em 2001, Algodão, decacampeão carioca pelo Flamengo, que disputou três mundiais pelo Brasil, foi vice em um e ganhou outro. Participou de quatro Olimpíadas e levou duas medalhas, mais três em Pan-americanos. No seu enterro não havia nenhum dirigente do Flamengo, nenhum representante da CBB.

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