Alex Silva|Estadão
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Basquete brasileiro agoniza e enfrenta onda de pessimismo

Fracasso nos Jogos Olímpicos escancara dificuldade do esporte no País

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2016 | 05h01

O basquete brasileiro agoniza e os Jogos Olímpicos do Rio escancararam sua fragilidade. Foram cinco derrotas em cinco partidas da seleção feminina na Arena da Juventude, em Deodoro, e apenas duas vitórias em cinco confrontos do time masculino. As duas equipes foram eliminadas na primeira fase da competição. O desempenho ruim no maior evento esportivo que o País já recebeu reflete a penúria enfrentada pela modalidade nos últimos anos, especialmente entre as mulheres. O pessimismo gerado com os fracassos seguidos, aliado ao cenário atual, pode afetar ainda mais o futuro do basquete do Brasil. 

Presidente da Federação Paulista de Basquete (FPB), Enyo Correia aponta que o fraco desempenho das seleções nacionais tem afetado diretamente no desenvolvimento do esporte. "Os resultados internacionais negativos dificultam a massificação do basquete, a criança não se sente estimulada a jogar. Estamos sofrendo com isso", afirmou o dirigente em entrevista exclusiva ao Estado.

A falta de perspectiva também está associada à realidade vivida pelos clubes brasileiros. No feminino, apenas seis equipes disputam o

Campeonato Paulista – São Bernardo, Santo André, Jundiaí, Franca, São José e Presidente Venceslau –, por exemplo. A tabela irregular, composta por jogos seguidos e depois longo espaçamento, é uma forma de se adaptar às necessidades dos participantes. 

Custo das viagens, cronograma conflitante com outras competições e até divisão de quadra são as justificativas desse cenário catastrófico. "Quando um clube tem de fazer uma longa viagem, ao invés de jogar no sábado e também no sábado da semana seguinte, a equipe faz uma única viagem e joga sábado e domingo, em dias seguidos, podendo dar esse espaçamento em virtude dos custos para o clube", explica o dirigente. 

E Arilza Coraça, técnica do Santo André, faz seu diagnóstico. "Tivemos Olimpíada, Jogos Abertos, Regionais e, por causa disso, o Paulista foi se adequando. A Federação atendeu aos pedidos dos times. Há outros impedimentos. Nossa quadra não é usada só pelo basquete feminino, dividimos com vôlei masculino, basquete em cadeira de rodas e outras categorias."

A falta de 'testemunhas' nas arquibancadas vazias em Jundiaí na vitória do São José sobre o time da casa, por 95 a 63, na noite 23 de setembro, uma sexta-feira, não é exceção. A armadora Cacá Martins, de 24 anos, reconhece o declínio da modalidade. "O basquete feminino já vem com dificuldade há bastante tempo. Peguei uma boa fase do Paulista. Quando comecei, achava competitivo. Hoje, temos de conviver com poucos times e às vezes o salário não é tão bom, a competição acaba ficando mais fraca", compara.

A jogadora, com passagem pela seleção, deixou o São Bernardo no mês passado e está à espera de um clube para poder disputar a Liga de Basquete Feminino (LBF). Tenta manter a boa condição física por conta própria e, enquanto isso, passa a dar mais atenção para a graduação de Pedagogia. Ela não é a única atleta que faz faculdade. A treinadora Arilza conta que muitas de suas jogadoras também são estudantes.

A Federação Paulista de Basquete trabalha para que o Estadual de 2017 tenha dez equipes femininas. Americana, campeã dos Jogos Abertos no último dia 18, optou por não disputar o Paulista este ano. "Nossa ideia é 100% de isenção na taxa de arbitragem aos clubes, não só no feminino. O número de times do masculino no Paulista é superior, mas vem caindo, principalmente na base, que é o celeiro dos times no futuro", diz Enyo Correia. 

Preocupada com o restante do ano, Arilza pede ações imediatas. "Ao invés de pensar em 2017, deveríamos olhar para 2016. Vi um comunicado que, a partir de outubro, a mensalidade da Federação aumentará. Não é momento de propor aumento”, critica. Ela lembra da época em que as atletas e a comissão técnica do time do Interior se envolveram na coleta de latinhas de alumínio na rua, papelão e jornal para aumentar a arrecadação. “Estou vendo chegar esse tempo outra vez", diz.

"Estamos em um momento de crise. Não consigo vislumbrar perspectiva boa daqui até o fim do ano. Quero acreditar que a partir de 2017 tudo vai melhorar. Sou otimista, mas vejo uma situação sombria para o esporte em geral."

O presidente da FPB, com mandato até fevereiro de 2020, alega que sua maior dificuldade é a questão financeira. Segundo Enyo Correa, a captação de recursos esbarra na crise do País e a Olimpíada concentrou boa parte dos investimentos. Ele diz que a dívida acumulada pela Confederação Brasileira de Basquete (CBB), de R$ 10 milhões, "respinga nos Estados." E assegura: "A Federação pode fazer um pouco mais."

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Confira entrevista exclusiva com Carlos Nunes, presidente da CBB

Presidente da CBB diz a seleção só poderá ser forte com o crescimento dos clubes

Entrevista com

Carlos Nunes, presidente da Confederação Brasileira de Basquete

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2016 | 05h01

A seis meses do fim do mandato, o presidente da Confederação Brasileira de Basquete, Carlos Nunes, se diz de mão atadas diante da crise no basquete feminino e confia no crescimento do naipe com ajuda da Liga Nacional de Basquete. A LNB organiza o LBF desde a última temporada.

Qual avaliação faz do desempenho do Brasil na Olimpíada?

Evidente que há uma decepção, porque esperávamos muito mais. Cumprimos todo o nosso planejamento para irmos bem na Olimpíada. Mas dessas circunstâncias que o esporte produz não tivemos sorte naquela última bola, por exemplo, diante da Argentina. É do jogo. Não dá para culpar A, B ou C. Não deu, mas todos tivemos uma sensação de dever cumprido.

Quando falamos de seleção, muitas vezes, se pensa no masculino. Mas o feminino está em uma situação ruim. O que fazer para mudar o cenário?

A CBB não pode fazer nada. O feminino são os clubes, eles que precisam trabalhar. Estou otimista porque a LNB (Liga Nacional de Basquete) assumiu o controle da liga feminina. O modelo será o mesmo implementado no masculino. Hoje poucos clubes abraçam o feminino. Tenho certeza que agora, na mão da LNB, a situação vai melhorar.

Qual foi o peso do movimento encabeçado por Americana no desempenho da seleção? 

Acho que não influenciou. Essa situação só serviu de lição. Se esse grupo tivesse vindo falar comigo, teríamos feito uma outra estratégia, mas eles foram direto na imprensa, com quatro pedras na mão, e nos deixou sem alternativa. Não há o mesmo problema com a liga masculina, porque há entrosamento, há conversa. Isso que faltou naquela ocasião. Somos sempre abertos, não somos de briga. 

A seleção feminina tem condições de reagir? Ou uma geração como a de Hortência, Paula, Janeth nunca mais vai existir?

Nunca é uma palavra forte. Pode demorar. Não tenho uma estimativa de quanto vai demorar, mas sei que temos de trabalhar bastante. Volto a dizer que tenho muita esperança que na próxima edição da liga feminina, agora com ajuda da LNB, vão surgir novas atletas para formamos uma seleção forte.

Além da LNB, não há mais nada o que fazer para ajudar no crescimento do feminino? 

O Ministério do Esporte precisa aprovar um projeto que enviamos para ajudar as federações. Elas precisam muito de um apoio financeiro. As ligas conseguem diminuir os custos e isso pode gerar filiações de novos clubes. Hoje isso não acontece porque há um custo de inscrição, arbitragem, deslocamento, além do plantel. Com mais clubes teremos uma seleção estadual mais forte e, logo, mais opções para formar uma seleção. 

O senhor tem mais seis meses no cargo. O que fazer para entregar uma confederação em melhores condições?

A nossa dívida é de R$ 10 milhões. Temos auditoria interna, externa, somos auditados pelo COB, pelo Ministério do Esporte. Estamos em um processo de enxugamento. Existe uma ação da CBB contra a Eletrobras de R$ 21 milhões e vamos tentar um acordo, já que, na Justiça, tudo se prolonga muita. O departamento de marketing também tem nos passado coisas positivas. Estamos forçando para fechar uma patrocínio antes da eleição, até porque o presidente só será conhecido em 31 de março. Se tivermos algo, vamos passar para aprovação dos dois candidatos (Antonio Carlos Barbosa e Amarildo Rosa). A CBB terá uma solução. O próximo presidente terá trabalho, isso vai ter, mas temos o produto.

A CBB teve problemas com a prestação de contas de R$ 2.949.467,05, o que impediu a entidade de receber R$ 4.078.521,92 de um convênio com o Ministério do Esporte?

Temos até novembro para fazer essa prestação de contas. Ou seja, estamos dentro do prazo. Mas o problema não foi apenas na CBB. As outras federações também não receberam. Nós estávamos regularmente em dia. Tivemos de ter ajuda do COB e do Bradesco na preparação para os Jogos Olímpicos.

A Fiba vai enviar um representante...

(Interrompe) A meu pedido.

...para uma intervenção na CBB? 

Não é intervenção. Quando o presidente da Fiba, Horacio Muratore, e secretário-geral, Patrick Baumann, estiveram aqui na Olimpíada, eu convidei ambos para nos visitar na CBB, para passar um feedback da nossa situação financeira e administrativa. O secretário disse que não haveria tempo hábil e comunicou que iria enviar o (Jose Luiz) Saez (membro do Comitê Executivo da Fiba) para fazer o meio de campo. Agendamos para o final de outubro. Queremos aproveitar o encontro também para saber como vai funcionar o novo formato para classificação para o Mundial e Olimpíada. Serão seis janelas, começando em novembro de 2017. Teremos de reunir uma seleção seis vezes por ano e o custo disso é estratosférico. 

Mas a Fiba ficou irritada com o fato de a CBB desistir de organizar o Mundial 3x3...

Irritada, não, ficou desconfortável. No fim, foi melhor porque o gasto que ela teria para organizar o torneio aqui foi menor do que no México. A Fiba quer ajudar o Brasil. Somos uma potencia e eles não podem desperdiçar isso.

Analisando sua gestão, que começou em 2008, o senhor mudaria alguma coisa?

Não confiaria em uma parceria (Eletrobras) que foi muito decisiva. Teríamos repartido (o orçamento) com várias parcerias e não teria colocado o planejamento em andamento antes de receber o dinheiro.

A definição dos treinadores vai ficar para depois da eleição?

Claro. Se me pedirem posso até opinar. A seleção só vai se juntar em junho ou julho. Então fica para o próximo presidente.

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