Nilton Fukuda|Estadão
Luiz Felipe Soriani é o melhor brasileiro pelo ranking 3x3 da Fiba. Nilton Fukuda|Estadão

Caminho árduo até o pódio em 2020 aguarda o Brasil no basquete 3x3

Agora olímpica, modalidade, que valerá medalha em Tóquio, tem milhares de adeptos pelo Brasil, mas ainda engatinha

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2017 | 07h00

É praticamente impossível encontrar alguém que joga basquete e nunca disputou uma partida de 21. A tradicional peleja com os amigos ganhou regras próprias, recebeu o nome de 3x3 e depois de muito trabalho e insistência da Federação Internacional de Basquete (Fiba) se tornou uma modalidade olímpica. A possibilidade de conquistar uma medalha nos Jogos de Tóquio em 2020 atraiu rapidamente a atenção e, ao mesmo tempo em que trouxe esperança, expôs o cenário de um esporte incipiente no Brasil.

O desenvolvimento da modalidade no País está aquém das principais potências. O cenário mundial é dominado pelos europeus, que adotaram uma estrutura profissional há muitos anos. A maioria dos jogadores é remunerada. Seleções e equipes trabalham com treinadores e preparadores físicos específicos para o 3x3, algo raríssimo por aqui.

A Europa acumula cinco títulos mundiais de seleções, sendo três no masculino e dois no feminino. A competição mais recente terminou na última quarta-feira. Em Nantes (França), os europeus ocuparam integralmente o pódio nos dois naipes. Entre os homens, a Sérvia conquistou o tricampeonato ao superar a Holanda. O bronze ficou com os anfitriões. A Rússia foi campeã entre as mulheres, com a Hungria em segundo e a Ucrânia em terceiro.

O Brasil não pôde participar. A Confederação Brasileira de Basquete foi liberada da suspensão da Fiba coincidentemente no dia da final do Mundial. O cenário desfavorável não significa que o caminho até o pódio em Tóquio está começando do zero. Ex-técnico de vôlei de praia, Francisco Oliveira, o Chico, trocou de esporte e trabalha com o 3x3 desde que viu um torneio em 2000, em Hong Kong. Ele está na CBB há nove anos e assumiu como gerente de desenvolvimento no departamento que leva o nome da modalidade, criado pelo presidente Guy Peixoto, eleito em março.

O primeiro passo foi tirar da gaveta o projeto Caça Talentos 3x3. A ação visa identificar atletas das categorias sub-18 e sub-23 com potencial para defender o Brasil internacionalmente. Na etapa do Campeonato Brasileiro de 3x3, que será realizado de 19 a 23 de julho, em Brasília, serão cadastrados 32 atletas (16 femininos e 16 masculinos). O procedimento será repetido em outras cidades que vão receber etapas, como Ribeirão Preto e Porto Alegre.

Atualmente não existe um técnico nem mesmo critérios definidos para convocações. A próxima participação do Brasil no 3x3 será nos Jogos Pan-Americanos da Juventude, em outubro, em Santiago (Chile). A lista, enviada com antecedência, foi confeccionada pelo próprio Chico. A CBB estuda a criação de uma seleção permanente, como acontece em outras modalidades.

Além da busca por atletas, o Caças Talentos é importante para massificar o esporte e, desta maneira, tentar profissionalizá-lo. Durante os torneios serão realizados treinamentos específicos para técnicos e árbitros e palestras para procedimentos para estruturação de departamento específico nas federações e organização de competições.

Os torneios que são considerados válidos pela Fiba acontecem com organização da CBB e também da Associação Nacional de Basquete 3x3, que ganhou importância depois da suspensão imposta pela entidade máxima do basquete. Há diversas competições pelo mundo que envolvem equipes e não seleções. Em setembro, por exemplo, acontece um Masters no México, que contará com representantes enviados pelas duas entidades brasileiras.

A divisão de tarefas causa certo desconforto. Atualmente há um ranking da Fiba para determinar os melhores jogadores do mundo. A pontuação é baseada no desempenho nos torneios por equipes e seleções. A análise é que, como depende do números de participações, nem sempre os melhores são aqueles posicionados no topo da lista.

A única certeza é que será necessário um investimento maior para o Brasil almejar uma medalha. “Abrimos os olhos para o 3x3, mas os outros países vão fazer o mesmo”, alerta Chico. “O 3x3 será um plus. Espero conseguir um aumento de 20% a 30% nas negociações de patrocínio”, promete Guy Peixoto.

O Comitê Olímpico do Brasil (COB) não acena com o aumento do repasse imediato. A verba adicional para o 3x3 dependerá dos projetos que serão apresentados pela CBB para o desenvolvimento da modalidade. Até 2020, há esperança de que o esporte possa alcançar um bom nível. A medalha de prata no Mundial Sub-18, em Astana, no Casaquistão, em 2016, é um indício do potencial existente no País.

“A primeira medalha pode vir até antes do que eu imaginava”, afirma Guy Peixoto, que, ao assumir à presidência, disse que queria conquistar como dirigente uma medalha que não conseguiu como jogador.

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Melhor brasileiro do ranking da Fiba sonha com a Olimpíada

Luiz Felipe Soriani ocupa o 35º lugar e é representante do País mais bem ranqueado

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2017 | 07h00

É na quadra do condomínio onde mora em Santos que Luiz Felipe Soriani alimenta todos os dias o sonho de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio. Aos 28 anos, o jogador, que deu os primeiros passos no esporte aos sete em Ribeirão Preto, é o brasileiro mais bem ranqueado pela Federação Internacional de Basquete no 3x3, ocupando o 35.º lugar.

Às vezes sozinho, outras acompanhado dos companheiros do time de Santos – atua no basquete de quadra por não ter salário no 3x3 –, Soriani realiza os movimentos que serão repetidos nos torneios pelo mundo. Os pensamentos estão em 2020. “Jogar uma Olimpíada é meu sonho desde criança e que comecei no basquete. A gente vai crescendo, vê que não será fácil, que tem muito cara bom na quadra e aí pinta uma oportunidade no 3x3. O sonho voltou quando o esporte foi confirmado nos Jogos. Jogar uma Olimpíada é o meu grande sonho e vou continuar trabalhando. Não adianta esperar sentado, tenho de ir atrás do sonho.”

Como a modalidade entrou no programa olímpico há duas semanas, ainda é prematuro apontar como será feita a convocação da seleção brasileira. Para Soriani, o melhor caminho são seletivas entre times para que o melhor conjunto possa representar o País. 

“Você não pode pegar um jogador de cada time e juntar para jogar pela seleção brasileira. No mundo inteiro não funciona deste jeito”, defendeu.

Soriani representa o Projeto Drible Certo no Mundo II, que é de uma organização não governamental, em torneios dentro e fora do Brasil. Com o nome de São Paulo DC, o time só participa de competições no exterior, como recentemente na Mongólia e Holanda, por contar com verba proveniente da Lei de Incentivo ao Esporte. 

O salário para pagar as contas no fim do mês ainda vem da quadra. “O pessoal me libera quando tem algum torneio 3x3”, explicou Soriani. “No Brasil ainda não existe uma estrutura profissional”, lamentou.

O primeiro (e único) brasileiro a assinar como profissional no 3x3 foi Leandro Lima. Atual 38.º do mundo, o jogador, que também atuou no São Paulo DC, defende o Yokohama City, do Japão, desde abril. Soriani sonha com o dia em que isso acontecerá no Brasil para abandonar de uma vez o basquete de quadra. “O caminho é profissionalizar o esporte, principalmente agora que virou modalidade olímpica.”

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